Viagem a um Chile raiz: turismo pode ir além de vinhos e deserto do Atacama

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05.01.2020, 06:35:00

Viagem a um Chile raiz: turismo pode ir além de vinhos e deserto do Atacama

Mapuches abrem as portas de casa para receber turistas e defender suas terras

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No bosque de árvores, na margem do rio Trancura, em tom solene, é concedida a permissão - mas antes é preciso que o visitante se purifique. A fumaça com cheiro de mato, que afasta os maus espíritos, vem da grande fogueira no centro de uma ruca - como eram chamadas as casas do povo Mapuche - povo originário da região andina. Eles, que não sucumbiram aos incas nem aos espanhóis, abrem as portas para o turismo. Num misto de desconfiança e esperança. 

O jovem guia Ezequiel Epulef, 26 anos, é o anfitrião. Numa posição altiva, alerta que ali não será exibido show ou apresentação folclórica. "Nós, os povos ancestrais, estamos no mundo todo. Ocupamos aqui os territórios no sul do Chile e na Argentina, mas somos todos humanos: vocês e eu", fala ao grupo de jornalistas brasileiros levados por Romà Marti.

Marti é sócio administrador da Rutas Ancestrales Araucaria (www.raaraucarias.com), operadora de turismo local instalada na pequena Curarrehue - a 820 km de Santiago. São 35 famílias mapuches da região que integram o serviço e oferecem imersões guiadas pela comunidade, de um a quatro dias.

A intenção é que os visitantes compartilhem as vivências locais - similar ao experimentado por quem percorre, por exemplo, nosso Vale do Pati, na Chapada Diamantina, se hospedando nas casas de moradores nativos. No Chile, no entanto, eles lutam para ter respeitada a ocupação ancestral. A bandeira da etnia esteve, inclusive, presente nos protestos recentes que varreram o país.

"Queremos um turismo que seja responsável, sustentável. Não queremos um turismo invasivo no nosso território. É algo novo pra nós, temos que ter cuidado, não queremos folclorizar", afirma Raquel Marillanca, mulher Mapuche que integra a iniciativa para o desenvolvimento local. Ela recebe o grupo em outra ruca construída em sua propriedade. Lá, em sua casa, abriga voluntários interessados em praticar agricultura ecológica no sítio. 


Martí explica que o modelo funciona há 3 anos. Para um grupo de quatro turistas é cobrado cerca de R$ 350 para a visita de um dia - pouco mais de R$ 85 por pessoa. 

Curarrehue fica a cerca de 40 km de Pucón, na região de Auracania que detém uma das piores rendas per capita do país. É uma região com forte apelo turístico e estrutura para todo tipo de bolso.

O guia Ezequiel Epulef, 26 anos, e a fogueira acessa na ruca: fumaça que 'purifica' visitante
O guia Ezequiel Epulef, 26 anos, e a fogueira acessa na ruca: fumaça que 'purifica' visitante (Mariana Rios/CORREIO)
Vulcão Villarrica visto do lago de mesmo nome: da turística cidade de Pucón é possível ir conhecer cultura de resistência dos mapuches
Vulcão Villarrica visto do lago de mesmo nome: da turística cidade de Pucón é possível ir conhecer cultura de resistência dos mapuches (Mariana Rios/CORREIO)
Acolhimento: pão típico e geléia servidos na ruca, habitação primitiva dos mapuches
Acolhimento: pão típico e geléia servidos na ruca, habitação primitiva dos mapuches (Mariana Rios/CORREIO)
Bandeira Mapuche e imagens de líderes expostos na ruca
Bandeira Mapuche e imagens de líderes expostos na ruca (Mariana Rios/CORREIO)
'Resistência não é terrorismo': placas de protestos nas propriedades
'Resistência não é terrorismo': placas de protestos nas propriedades (Mariana Rios/CORREIO)

Guardiões
Como guardiões da cultura Mapuche, explicam a arquitetura da ruca - com o fogo, entre pedras em formato circular, no centro do imóvel de madeira. "Aqui todos nós costumávamos nos reunir, ouvir histórias, broncas e conselhos de nossos avós, com as crianças integradas na rotina", explica a professora, que recebe estudantes de Santiago e turistas de outros países. Hoje, sua ruca funciona como uma pulsanta sala de aula para os visitantes e para jovens mapuches que acompanham o trabalho de Raquel. 

A comunidade produz tudo que consome - dos vegetais aos animais, que são criados livres. O respeito e a conexão com a natureza é um dos legados que são transmitidos. "O Mapuche tem muito respeito pela natureza e a cordilheira [dos Andes] é sagrada para nós", conta Silverio Loncopan, agricultor Mapuche. 

Pai de cinco filhos que lhes deram cinco netos, utiliza em sua propriedade equipamentos puxados por boi, cria ovelhas, vacas, porcos e galinhas, e fala com orgulho do local onde vive. "Querem desapropriar para instalar hidrelétricas. Estamos unidos para fazer resistência e impedir que ocorra".

Disputa 
Continuam a travar a batalha na defesa de seu território - a fronteira argentina fica a apenas 30 minutos da comunidade Pewenche (que significa 'gente da cordilheira' em mapudungun, língua mapuche), visitada pelo CORREIO.

Eles abrem as portas para mostrar onde vivem, para falar das ameaças - de hidrelétricas a interesses empresariais, como a Benetton, sobre suas terras - e que a alcunha de ‘terroristas’ é uma interpretação distorcida. Em 2013, o governo chileno anunciou a adoção da Lei Antiterrorismo na região de Araucanía, por conta de conflitos.

Para reverberar essas questões, apostam na conexão com o turismo. "Podemos ser autônomos, não queremos hidrelétricas ou garimpos", diz Raquel. 

Antes dos protestos sacudirem o Chile desde outubro de 2019, a morte de um jovem Mapuche por forças policiais mobilizou a comunidade em novembro de 2018. O fato gerou repercussões e há uma ‘criminalização’ de lideranças mapuche – que insistem na defesa de sua terra. Na maior marcha registrada pelos protestos chilenos, em 25 de outubro, a bandeira Mapuche estava erguida e acompanhava 1,2 milhão de pessoas. 

Os Mapuches ocupam uma região belíssima: com rios, lagos e vulcões - do famoso Villarrica (2847 m) ao imponente e misterioso Lonquimay (2865 m). E querem atenção para sua história, sua luta e seus princípios. Apresentam o palin (jogo que mistura golfe, beisebol e hóquei), instrumentos musicais tradicionais - e mostram fôlego para tocar trutruka ou ñolquín. Nesse movimento, sinalizam que não vão desistir.
 

Veja como chegar a Pucón, partindo de Salvador 

Voos  diretos - 6 opções por semana (6h de duração) na alta estação pelas companhias chilenas JetSmart e Sky Airline - média de R$ 1,4 mil

Com 1 parada - pela Latam: passageiro vai de Salvador para Santiago via Brasília (viagem dura 7h ) ou via Guarulhos (8h de duração) - R$ 1,6 mil

Continue para o sul  - Desembarcando em Santiago, novo voo para Temuco (a cerca de 105 km de Pucón) - a partir de R$ 250. Hotéis oferecem transfer

Onde ficar - Em Pucón, o Antumalal  - hotel de arquitetura Bauhaus, nas margens do Lago Villarrica (www.antumalal.com)

Onde ficar 2 - Opção, rica e privativa é a Hacienda Hotel Vira Vira - com estrutura incrível de serviços e atividades  (http://bit.ly/SpiritVira)

*A jornalista viajou a convite da Latam Airlines, Federação de Empresas de Turismo do Chile e Serviço Nacional de Turismo

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