'Vomito há 15 anos': veja relatos de pacientes que fizeram cirurgia bariátrica

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17.11.2019, 05:25:00
Atualizado: 17.11.2019, 20:12:43
(Betto Jr)

'Vomito há 15 anos': veja relatos de pacientes que fizeram cirurgia bariátrica

Experiências incluem desde perda mal explicada de esposa até sensação de renascimento

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Não é fácil ser uma pessoa gorda. Quem tenta mudar essa condição do corpo optando pela cirurgia bariátrica vivencia uma luta contínua. Enquanto para o caminhoneiro Cristiano Carneiro de Oliveira, 42, o procedimento pode ter significado a morte da esposa, para a enfermeira Thais Martins, 28, é como se fosse um renascimento.

Leia mais: Uma mudança para a vida inteira: conheça riscos da cirurgia bariátrica

Reunimos aqui relatos de seis pessoas que aceitaram contar ao CORREIO suas experiências sobre redução do estômago. São casos de dor que envolvem desde perda de cabelos até a última consequência, mas também de ponderações sobre a recuperação da autoestima e prevenção de problemas de saúde. Essas pessoas se dispuseram a falar para ajudar outras a saber o que esperar da pós-cirurgia. Confira os depoimentos:

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“O intestino dela já estava fraco de tanta cirurgia, ela teve uma infecção generalizada. Até hoje eu não posso afirmar que foi tudo culpa da bariátrica, mas minha mãe acha que sim”  - Roque Cristiano Carneiro de Oliveira, 43, caminhoneiro

Minha esposa teve obstrução no intestino após uma cirurgia cesariana em 2006 e, depois de oito dias, teve que abrir tudo de novo. Nos foi falado que ela era propícia a ter de novo. Em 2010, ela passou a ter convulsões não epilépticas enquanto dormia. E nessa gravidez ela engordou bastante. Em 2011, ela 'invocou' que estava gorda demais e resolveu fazer a bariátrica, até para ver se seria uma solução para as convulsões. 

Nos primeiros momentos, ela era uma das pessoas que todo mundo falava que se deram bem. Vomitou muito pouco. Lembro de ela ter vomitado 30 dias depois da cirurgia por comer camarão com casca. Ela teve perda de cabelo, ficou muito fininho, teve problemas com deficiência de vitamina D e reganho de peso depois do procedimento. Acho que ficou com mais de 100 Kg.

Em 2016, ela foi para uma reunião da escola da nossa filha e voltou dizendo que estava com uma dor na barriga. Eu a levei para um hospital em outra cidade e descobrimos que era uma nova obstrução. Foi feita outra cirurgia. Algo aconteceu, parece que deram um remédio errado. Ela surtou, era muito nervosa. Minha prima médica sugeriu levar para Salvador, onde ela ficou internada por oito meses, primeiro num hospital, onde chegou a ter embolia pulmonar, e depois conseguimos home care. O intestino dela já estava fraco de tanta cirurgia, ela teve uma infecção generalizada. 

Até hoje eu não posso afirmar que foi tudo culpa da bariátrica, minha mãe acha que sim. Antes da cesariana ela era uma pessoa normal, depois que complicou. Ela morreu em 9 de maio de 2017 e ainda é pesado, nossos dois filhos sentem a falta, mas a vida tem que seguir. Depois de tanta coisa, eu não aconselho que façam a bariátrica porque eu tenho essa interrogação, não posso culpar a bariátrica, mas sei de outros casos. Eu vi a história do irmão de Ivete Sangalo na TV, minha mãe falou que foi a mesma coisa da minha esposa, eu não acredito. 

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“Eu adoeço mais, mas a cirurgia mudou minha vida”
Camila Vieira, 39 anos, jornalista 

Fiz minha cirurgia há 9 anos, eu tinha 96kg e fiquei pesando 57kg, uma perda aproximada de 30kg. Nunca mais voltei a engordar, não tive ganho de peso, mas eu tenho algumas complicações. Tem que se cuidar muito porque há uma deficiência de nutrientes, vitamina B12, anemia, falta de cálcio, vitamina D, entre outros. Mais importante do que se submeter ao procedimento, é saber que sua vida muda. 

Hoje eu adoeço mais, eu fiquei magra, mas estou mais suscetível a gripe, a virose, sinto que sou mais frágil. Magra, mas com essas questões. A cirurgia mudou minha vida porque eu sempre tive problema com peso, sou uma pessoa vaidosa, então me sinto bem mais feliz com meu corpo, mas vivo nesse dilema de estar sempre me cuidando, não é a vida de uma pessoa normal. Eu atingi minhas expectativas com relação à imagem, mas quanto à saúde e qualidade de vida, tenho essas questões.

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“Tem 15 anos que fiz e até hoje vomito. Ao mesmo tempo, melhorei minha pressão”

Ana Cristina Mayan, 49 anos, pedagoga

Todo mundo na minha família é gordo. Até uns sete anos de idade, eu era muito magra por causa de problemas de garganta e nariz, comia pouco. Operei e passei a comer mais, fazia regime e não resolvia. Aí, há 15 anos, a bariátrica apareceu como opção porque na minha segunda gestação eu estava com 121Kg. Eu decidi fazer porque o peso era muito grande e eu já nem me movimentava direito porque só tenho 1,63m. Naquela época não existia escolha, era o método do anel e um deles saiu do lugar. Eu fiquei só com 5cm de estômago e isso me incomoda até hoje, tenho limitações, vomito muito. 

Eu perdi a vesícula, tive que tirar o apêndice, cirurgia de coluna. Uma coisa que me traumatizou é porque eu tinha um cabelo cacheado, era tão lindo e depois ele nasceu liso, ficou ressecado, tem que hidratar muito com produto caro. Tudo isso por conta da bariátrica. 

Na época que fiz, morava em Cruz das Almas (BA). Eu trabalhava, fazia mestrado e tinha dois filhos pequenos. No interior não há tantos especialistas no assunto, não tive um acompanhamento médico completo. Teve um dia que eu fui tirar uma cadeira do lugar e não tive força, precisei vir para Salvador fazer transfusão de sangue. Até hoje preciso de acompanhamento médico a cada três meses. 

Gosto de trabalhar, sou uma pessoa muito agitada e se eu estiver assim, não consigo comer. Tomo só água. Mesmo tomando remédio para parar de vomitar, eu não paro. Às vezes, eu passo uma semana sem vomitar, às vezes dois dias. Às vezes, vomito o próprio remédio que tomo para não vomitar. Uma coisa que eu amava comer era frango e não consigo mais. Hoje eu como muita fruta, é algo saudável, mas restrito.

Quando me olho no espelho, eu me sinto bem e ao mesmo tempo não. Sou uma pessoa muito vaidosa. O custo de cirurgia plástica é muito caro, e tem que fazer depois do procedimento, mas eu não pude. O peso eliminado de cada perna minha foi de 10 Kg, então fica flácido. Isso é a única coisa que me incomoda, pretendo resolver. Eu perdi os movimentos da perna direita por um tempo, tô bem ruinzinha, traumatizada e vivendo uma coisa desconfortante de não conseguir dormir. 

Ao mesmo tempo, eu melhorei a minha pressão, que era alta. Eu usava manequim 54 e atualmente uso 40. Olhando para as fotos de antes, eu não me reconheço, fiquei totalmente diferente. Minha avó, quando me viu, depois de um ano da cirurgia, não sabia mais quem eu era, só reconheceu por causa da voz. Hoje eu recomendo que as pessoas façam porque a tecnologia está melhor, mas mesmo na modernidade ainda é preciso tomar polivitamínico para o resto da vida.

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“O cabelo cai todo, mas trabalhei minha mente porque essa é minha transição para tudo o que sonhei a vida inteira”

Thais Martins, 31, enfermeira emergencista

Eu me inscrevi há nove anos para fazer pelo SUS. Na época, eu não tinha peso, pediram para eu engordar 50 quilos, eu disse que não. Aí fiquei na fila de espera até que consegui depois desses nove anos. Eu fazia apenas atividade física e tentava todas as dietas do mundo. Nada resolvia. Eu já tinha desistido da cirurgia, mas tinha meu problema hormonal que me engordava. Engordei muito, fui parar em 130 kg. Fiz todos os exames e operei em junho de 2018, perdi 68 kg. 

A autoestima se eleva do zero ao infinito. Hoje digo: A bari é vida. Mas se você não estiver preparado psicologicamente bem, as coisas ruins afetam o processo. Tipo, o cabelo cai todo, tenho uma cicatriz enorme na barriga. A flacidez vem com força, os dentes perdem a força. Pro resto da vida tem que tomar as vitaminas. Tudo isso me abalou quando me olhei no espelho, mas trabalhei a minha mente de que essa era minha transição para tudo o que eu sonhei a vida inteira. Meu único arrependimento é não ter feito antes. 

Antes eu não tinha medo do espelho, ficava triste, mas não me assustava, não me via imensamente gorda, me via apenas gorda. Quando me vi sem cabelo, chorei muito, mas sei que cabelo cresce e vai voltar ao que era. Ficar gorda era pior. Minha saúde estava comprometida, eu tinha que mudar. Meu cabelo tá ralinho ainda, mas está nascendo agora, já, já está normal. 

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“Não posso comer nada gorduroso que passo mal, mas hoje consigo dormir normal”

Ana Virgínia Vilalva, 35, jornalista

Eu fiz porque estava incomodada com o peso, asma, uma porrada de coisas. Quando fiz, me senti muito bem, eu perdi entre 30kg e 40kg em dois ou três meses. Eu achava que eu ia emagrecer, ficar linda, diva Hollywood e não foi bem assim. Eu perdi peso, passei de 130kg para 90kg. Tive vertigem postural, que é comum entre bariatricados, por causa da perda rápida de peso. A pessoa dá uma variada. Hoje estou com 108Kg, lutando com a balança para perder de novo e isso me incomoda muito. A gente perde peso, volta a ter qualidade de vida. Como eu tinha asma, só conseguia dormir de lado, hoje consigo dormir normal, mas não posso comer nada gorduroso e doce que passo mal. Se eu comer, começo a suar, tenho taquicardia.

Uma coisa que eu ganhei depois da cirurgia foi intolerância à lactose. Mas eu não me arrependo não. A gente tem uma dificuldade imensa de achar roupa, de se vestir bem, de lidar com o olhar da sociedade. Estou feliz com o corpo que tenho hoje, apesar de estar tentando perder. Os três dígitos sempre foram meio traumáticos para mim e quando vejo as fotos de antes digo: Gente, isso era eu, eu cheguei a isso?

Muitas pessoas meio que surtam depois da cirurgia. Na sala de espera você vê aqueles grupos: ‘Ah, não, mas eu não como pão porque pão isso… Ah, mas eu não como lácteos porque tenho compulsão. Olhe, você cuidado para não engordar, viu?’. A conversa é assim. Aquele medo louco de engordar de novo, da pele que sobrou, das cirurgias reparadoras. Fazer por saúde, a depender do caso, acho válido, é meu pensamento hoje, mas virou um mercado, muitos vão pela estética. 

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“Tive alguns episódios de mal estar... Hoje me sinto uma mulher bonita”
Lenina Campos, 28 anos, psicóloga, natural de São Paulo

A obesidade se tornou uma característica presente em minha vida desde minhas primeiras lembranças de infância. Eu cresci me percebendo maior do que as outras crianças. Isso me determinou de alguma forma e fez, sempre, tentar medidas remediativas que me fizessem parecer com a maioria. A pessoa obesa é muito culpabilizada por sua condição de saúde. É como se eu fosse obesa por opção e desde muito jovem sempre busquei alternativas para perder peso, quase sempre alternativas medicamentosas e dietas louças feitas por conta. 

Eu, em especial, não cogitava a possibilidade de fazer bariátrica. Essa alternativa me foi apresentada por um médico em consulta, e confesso que foi um choque. Apesar de estar pensando 123kg, eu não imaginava operar. Quando comecei o processo de preparo para a cirurgia, quando comecei a entrar em contato com os resultados da bariátrica, tinha a sensação de estar sendo apresentada para a solução do maior dilema da minha vida.

Eu fiz a cirurgia chamada de bypass, a versão mais agressiva da redução. No meio do processo, emagreci uns bons quilos e me desencorajei. Ouvir que era uma cirurgia irreversível foi assustador. O procedimento em si foi um sucesso! A perda de peso é muito rápida e os resultados aparecem como um milagre. 

Um dos pontos que é falado, mas que a maior parte das pessoas não considera, é que o emagrecimento é um emagrecimento rápido e feio. O corpo perde muita massa muscular, com isso a flacidez se apresenta como uma assombração. Eu sou bastante positiva e sempre olhei as transformações com carinho, ao menos tentei.

A bariátrica traz a ideia de resolução rápida. Isso é quase que encantador para quem buscou por muito tempo uma saída. A promessa de resolver o problema é o maior marketing, afinal, existe a ideia de que a pessoa é submetida à cura. Eu me vi diante da possibilidade de cura. Eu via que era a minha chance de fazer certo. 

Sou psicóloga e hoje sei que isso contamina minha opinião sobre a importância da rede interdisciplinar, em especial do papel do profissional de psicologia nesse processo. A obesidade é uma doença que pode ter multideterminações. Opera-se o estômago para que uma pessoa perca a capacidade de ingerir muita quantidade de calorias, mas, o motivo que a leva a comer de forma compulsiva é, quase sempre, de ordem afetiva.

Com um ano de operada eu tinha chegado no objetivo médico, nunca tive reganho de peso. A minha qualidade de vida aumentou demais. As restrições alimentares nunca pareceram um problema perto de todos os ganhos que eu tive, em especial com a autoestima. O médico sempre frisou que minha cirurgia tinha sido um sucesso em todos os aspectos. Tanto anatômicos e fisiológicos quanto o resultado final estético porque emagreci 80kg.

As restrições alimentares são um fato. É difícil comer quantidades maiores, alguns alimentos desencadeiam reações fisiológicas que podem dar algum mal estar. Excesso de açúcar e de gordura podem causar uma síndrome chamada Dumping. Não houve nenhuma complicação, eu fui bastante disciplinada. Respeitava a capacidade estomacal e ia com cuidado nos tipos de alimentos, tive alguns episódios de mal estar, mas isso me ajudava a saber quais tipos de alimentos tinham uma metabolização esquisita no meu novo organismo. 

Eu não consigo mais comer um pão francês inteiro, para comer um prato de comida pequeno eu preciso de pelo menos 30 minutos, metabolizo álcool de uma maneira muito diferente e posso ter alguma indisposição intestinal se comer algo muito gorduroso ou com muito açúcar. A compreensão de que sou ativa em toda essa dinâmica me fez entender os processos e respeitá-los!

Hoje me sinto uma mulher bonita, percebo particularidades no meu corpo. Fui obesa a vida toda, minha pele ainda é flácida mesmo depois de todas as cirurgias reparadoras. Tenho estrias no corpo todo e marcas de procedimentos cirúrgicos que são bem grandes. Mas eu tento, diariamente, ressignificar todas essas marcas e lembrar que elas são o símbolo de um sucesso!

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