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A armadilha do contracheque: por que mulheres no serviço público ganham 25% menos mesmo com salários iguais aos dos homens?

Levantamento do Instituto República revela que critérios subjetivos e cargos de confiança criam abismo de renda; apenas 2 em cada 10 postos de liderança no Executivo são femininos

  • Foto do(a) author(a) Amanda Cristina de Souza
  • Amanda Cristina de Souza

Publicado em 1 de maio de 2026 às 13:00

Presença feminina cresce no setor público, mas disparidade salarial ainda marca a carreira de muitas servidoras.
Presença feminina cresce no setor público, mas disparidade salarial ainda marca a carreira de muitas servidoras. Crédito: Pexels, Vlada karpovich

Mesmo sendo cerca de 58% dos servidores civis do país, as mulheres no serviço público recebem até 25% menos que os homens ao fim do mês. A diferença não aparece no salário-base, que segue regras de igualdade, mas cresce nos adicionais que compõem a remuneração total.

Levantamento do Instituto República mostra que a desigualdade se concentra em gratificações, cargos de confiança e progressões na carreira, pontos menos rígidos do sistema e mais sujeitos a distorções.

Mesmo com avanço na ocupação de cargos, mulheres seguem em desvantagem financeira e com menor acesso às posições de liderança por Pexels, Divinetechygirl

O resultado expõe uma assimetria que persiste mesmo sob estruturas formais de remuneração igualitária. A desigualdade não está concentrada no salário fixo, mas na parte variável: gratificações e funções de livre nomeação. Embora sigam regras formais, esses adicionais costumam envolver critérios subjetivos, como visibilidade e proximidade com centros de decisão, e são ocupados majoritariamente por homens, criando brechas que sustentam a disparidade no contracheque final.

A diferença salarial também passa pelo ritmo de progressão na carreira.

Esse cenário se agrava no topo da pirâmide, onde o avanço feminino sofreu um retrocesso na última década. O estudo mostra que as mulheres representam hoje apenas 21% dos servidores com rendimentos acima de 20 salários mínimos, em 2016, essa fatia era significativamente maior, de 31%. No Executivo federal, o gargalo é nítido: dos 1.296 postos de direção e assessoramento mais elevados, apenas cerca de duas em cada dez posições são ocupadas por mulheres.

Base da pirâmide concentra maior presença feminina

Na outra ponta, a presença feminina é inversamente proporcional à remuneração. Enquanto desaparecem nos cargos de elite, as mulheres representam 64% dos servidores que recebem entre um e dois salários mínimos, contra apenas 36% dos homens nessa faixa. A distribuição reforça um padrão do Estado brasileiro: a força de trabalho feminina sustenta as carreiras da base, mas encontra um teto de vidro alimentado por incentivos e progressões distribuídos de forma desigual.

Desigualdade afeta eficiência do gasto público

O desenho da remuneração também abre espaço para questionamentos sobre eficiência no uso dos recursos públicos.

A concentração de bônus e posições estratégicas em grupos específicos reduz o retorno do gasto com pessoal e amplia distorções na alocação de recursos.

Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram que as diferenças de rendimento persistem em diferentes recortes. O diagnóstico aponta que o problema não está nas regras formais, mas na forma como incentivos e progressões são distribuídos ao longo da carreira.

O cenário reforça um ponto central do debate. A isonomia prevista na tabela salarial não tem sido suficiente para equilibrar a renda final, mantendo a desigualdade como um desafio estrutural dentro do próprio Estado.

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Mulheres Brasil