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Água da chuva vira motor da economia, gera renda e reduz despesas no interior do Nordeste

Com bilhões em investimentos, Programa Cisternas muda a realidade no Semiárido, gera renda no comércio local e reduz despesa com caminhão-pipa

  • Foto do(a) author(a) Maiara Baloni
  • Maiara Baloni

Publicado em 5 de junho de 2026 às 17:00

Programa Cisternas leva água e dignidade ao Semiárido
Com tecnologia simples e de baixo custo, as cisternas de placas armazenam a água da chuva e garantem a autonomia de milhares de produtores rurais no Semiárido. Crédito: Lyon Santos/MDS

Ter água de qualidade na torneira ou no quintal ainda é um desafio para quem vive na zona rural do Semiárido. Mas uma tecnologia simples e conhecida tem mudado a economia do interior, as cisternas. O programa Cisternas recebeu uma injeção recente de R$ 1,7 bilhão para instalar reservatórios que guardam a água da chuva.

A ideia é dar autonomia para as famílias e reduzir a dependência das prefeituras de soluções emergenciais e caras, como os caminhões-pipa.

Movimento na economia: a construção dos reservatórios gera emprego direto para pedreiros das próprias comunidades e movimenta o comércio local de materiais. Reprodução/MDS por Lyon Santos/MDS

O programa, financiado pelo governo federal, funciona guardando água em caixas de cimento que variam de 16 mil litros (para beber e cozinhar) até 52 mil litros (usadas para irrigar pequenas plantações e aos animais). A coordenação geral fica por conta do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), mas quem bota a mão na massa na ponta são os estados, consórcios de municípios e ONGs locais.

Essas entidades usam as regras do Cadastro Único (CadÚnico) para escolher as famílias, acompanham as obras e ensinam os moradores a cuidar da água.

As metas com o PAC

Desde que os investimentos foram retomados, após um período em que o programa ficou praticamente parado e sem contratos, o ritmo acelerou. Até o momento, já foram entregues 121.240 cisternas e outras 190 mil novas tecnologias sociais foram contratadas.

A meta oficial do governo federal, que agora incluiu o projeto dentro das ações do Novo PAC, é entregar 221 mil novos equipamentos até o final de 2026. Isso vai estender o atendimento para mais de 900 municípios que sofrem com a seca.

O foco principal são os nove estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais, mas as regras foram adaptadas para levar o projeto também a comunidades isoladas na Amazônia, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. O ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, ressaltou que o objetivo é garantir dignidade e segurança hídrica para que as famílias rurais produzam seus próprios alimentos sem depender de soluções provisórias.

De onde vem o dinheiro

A sustentação financeira do programa combina verbas do orçamento federal com fundos socioambientais. Em 2024, foram destinados R$ 570 milhões para essa política hídrica, sendo R$ 420 milhões vindos diretamente do orçamento do MDS.

O restante do modelo de financiamento vem de parcerias com o BNDES e com a Fundação Banco do Brasil, que colocaram R$ 37 milhões em editais conjuntos. Além disso, a expansão para a região Norte conta com R$ 150 milhões do Fundo Amazônia, dinheiro carimbado para ajudar as comunidades ribeirinhas que enfrentam secas extremas por lá.

O impacto no comércio

O público-alvo são as famílias rurais de baixa renda, com prioridade para casas chefiadas por mulheres, lares com crianças pequenas, idosos, indígenas, quilombolas e assentados da reforma agrária. Sem água perto de casa, os moradores perdem horas do dia caminhando longas distâncias atrás de recursos, o que impede o trabalho e traz doenças.

Quando o programa chega a uma cidade do interior, a economia local se movimenta de duas formas. No curto prazo, a construção das cisternas agita as lojas de material de construção, que vendem cimento e ferro, e gera renda direta ao contratar e pagar os pedreiros da própria comunidade. No longo prazo, com água garantida, as famílias passam a produzir um excedente de verduras, frutas e ovos. Esse alimento sobra para ser vendido em feiras livres ou no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), gerando faturamento que acaba gasto no comércio local.

Gestão dos contratos

Para fazer o dinheiro render e chegar rápido na ponta, o governo trabalha hoje com mais de 30 contratos ativos, envolvendo cerca de 20 atores diferentes, entre estados, cooperativas e consórcios. Esse formato descentralizado diminui a burocracia e faz o recurso ir direto para os fornecedores locais.

Como exemplo, uma chamada pública feita para o Nordeste e Minas Gerais atendeu 1.400 famílias em 17 municípios em apenas um dos lotes de execução. Essa estabilidade protege o caixa das pequenas prefeituras. Sabendo que as famílias têm água na cisterna, as prefeituras deixam de gastar fortunas com frotas de distribuição de emergência e conseguem investir em melhorias permanentes na infraestrutura das cidades do interior.

Tags:

Brasil Nordeste