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Rodrigo Daniel Silva
Publicado em 31 de março de 2026 às 06:00
A cerca de 400 quilômetros de Salvador, Jequié voltou ao centro do jogo político baiano. Com pouco mais de 160 mil habitantes, a cidade do centro-sul reapareceu como peça relevante na disputa estadual. Prefeito do município, Zé Cocá (PP) vai deixar o cargo na próxima quinta-feira (2) para entrar na corrida pelo Palácio de Ondina como candidato a vice-governador na chapa de ACM Neto (União Brasil). Com isso, recoloca Jequié, mais uma vez, no radar das decisões políticas da Bahia. >
O primeiro nome vindo de Jequié a alcançar relevância política remonta ao início da década de 1910. Um episódio pouco conhecido. Na época, o então governador da Bahia, Araújo Pinho, renunciou ao cargo alegando problemas de saúde. Na prática, a saída fazia parte de uma estratégia para adiar a eleição marcada para 45 dias depois, na qual José Joaquim Seabra, J.J. Seabra, era favorito. A ideia era impedir sua vitória. Com a renúncia, assumiu o comando do estado o jequieense Aurélio Rodrigues Viana, então presidente da Câmara Estadual.>
Vinicius Jacob
HistoriadorJá no exercício do cargo, e também com o objetivo de adiar o pleito, Aurélio Viana tentou transferir a capital da Bahia de Salvador para Jequié, o que implicaria a mudança das sedes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A medida, no entanto, foi barrada pela Justiça. Ele ainda tentou resistir, mas houve reação do governo federal, em um episódio que ficaria conhecido como o “Bombardeio da Cidade do Salvador”, em 1912.>
“O marechal Hermes da Fonseca autorizou o poder federal a bombardear Salvador. O Forte São Marcelo, de São Pedro e do Barbalho meteram bombas em Salvador. Os adversários de J. J Seabra, então, retiraram suas candidaturas, porque viram o poder federal e a morte de perto, e aí não teve candidato de oposição na eleição. Seabra venceu e foi empossado, fazendo seu primeiro governo de 1912 a 1916”, recordou o historiador Murilo Mello.>
Cinco décadas depois, outro jequieense chegaria ao poder na Bahia. Lomanto Júnior, que havia sido eleito duas vezes prefeito de Jequié e também deputado estadual, construiu uma campanha com forte apelo municipalista, partindo do interior em direção à capital. A estratégia surpreendeu a elite baiana, já que ele não firmou acordos com os grupos tradicionais de Salvador. Ainda assim, venceu a disputa contra Waldir Pires.>
“Lomanto Júnior foi contra o sistema. Ele era uma pessoa leve, querida e que falava com todo mundo. Como era muito inteligente, ele se tornou presidente da federação dos prefeitos do Brasil. E o interior da Bahia era muito abandonado. Foi na gestão de Antonio Carlos que melhorou. Então, ele fez um discurso muito para o interior”, afirma o historiador Vinicius Jacob.>
Trinta e seis anos depois de Lomanto, foi a vez de César Borges chegar ao comando do estado. Embora nascido em Salvador, ele passou a infância e a adolescência em Jequié. Filho do ex-prefeito Waldomiro Borges, César assumiu o governo em 1998, após a renúncia de Paulo Souto para disputar o Senado. Tornou-se candidato depois da morte de Luís Eduardo Magalhães, que seria o nome do grupo político na eleição daquele ano. César Borges acabou eleito e se tornou o terceiro governador com ligação direta com Jequié.>
“Jequié é um grande centro. Cidade de médio porte. Tem muita gente rica. O que é Feira de Santana para o sertão é Jequié para aquela região do centro-sul da Bahia”, diz Vinicius Jacob.>