Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Amanda Cristina de Souza
Publicado em 15 de maio de 2026 às 11:00
Uma investigação do Ministério Público Federal (MPF) reacendeu um capítulo pouco conhecido da história financeira do Brasil. O órgão apura o paradeiro de valores depositados por pessoas escravizadas em cadernetas da Caixa Econômica Federal durante o século XIX e quer saber se esses recursos podem chegar aos descendentes das famílias em 2026. >
Resgate de trabalhadores em situação análoga à escravidão
O caso ganhou força após a identificação de ao menos 158 contas abertas por pessoas escravizadas em documentos históricos do banco. O levantamento envolve cerca de 14 mil registros antigos catalogados no acervo da instituição.>
A investigação tenta esclarecer se os valores chegaram a ser sacados, incorporados ao patrimônio do banco ou permaneceram sem destinação conhecida ao longo das décadas.>
As apurações começaram após pesquisas históricas mostrarem que pessoas escravizadas usavam a poupança para guardar pequenas quantias em busca da alforria ou de alguma segurança financeira no futuro.>
Criada ainda no período imperial, a Caixa Econômica permitia a abertura dessas contas mesmo antes da abolição da escravidão. Parte dos registros encontrados traz depósitos feitos diretamente pelos próprios escravizados.>
O problema é que muitos documentos não mostram o encerramento das contas nem a devolução dos recursos. Diante da ausência de informações completas, o MPF passou a cobrar explicações sobre a metodologia usada pela Caixa para localizar os registros históricos.>
A investigação também busca ampliar a digitalização do acervo e permitir acesso mais transparente aos documentos.>
A principal dificuldade agora está na identificação dos possíveis descendentes. Muitos documentos do século XIX registravam apenas o primeiro nome da pessoa escravizada e o nome do proprietário, sem sobrenomes ou dados civis mais detalhados.>
Especialistas avaliam que eventuais processos judiciais podem depender de provas indiretas, como registros de cartório, documentos religiosos, certidões antigas e estudos genealógicos produzidos por historiadores.>
O debate também recoloca em evidência discussões sobre reparação histórica e preservação documental no país.>
O desfecho da investigação ainda é incerto, mas já existem duas possibilidades jurídicas em análise.>
A primeira envolve ações coletivas voltadas à reparação histórica, com eventual destinação de recursos para fundos, projetos sociais ou iniciativas ligadas à memória da população negra brasileira.>
A segunda hipótese envolve pedidos individuais feitos por famílias que consigam comprovar vínculo com os antigos titulares das contas.>
Juristas apontam que uma eventual atualização monetária dos depósitos exigiria cálculos complexos por causa das mudanças de moeda ocorridas no país desde o século XIX.>
Enquanto isso, o MPF segue pressionando a Caixa para ampliar a transparência sobre os documentos encontrados e concluir a catalogação do material histórico.>