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Amanda Cristina de Souza
Publicado em 31 de março de 2026 às 08:00
A saída de Ibaneis Rocha do Governo do Distrito Federal, em março de 2026, não representa apenas o fim de um mandato. Na prática, encerra um ciclo político que começou com uma ascensão rápida nas urnas e terminou inserido em uma das crises institucionais mais marcantes dos últimos anos no país, após os episódios de 8 de janeiro de 2023.
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A decisão de deixar o cargo, conforme exigência legal para disputar o Senado, abre uma nova fase, tanto para ele quanto para a política local, que agora passa a ser conduzida pela vice-governadora Celina Leão.
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Ibanes
Essa mudança ocorre em um cenário de estabilidade administrativa recente, mas com efeitos diretos na disputa de poder no DF. De um lado, aliados apostam na continuidade do grupo político. De outro, adversários enxergam espaço para uma reorganização das forças.
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Análises já publicadas indicam que a trajetória de Ibaneis pode ser entendida em etapas, com uma chegada fora do eixo político tradicional, um primeiro mandato marcado pela gestão e pela pandemia, uma reeleição com ampla vantagem, a crise de 8 de janeiro e, por fim, a saída antecipada para buscar novos cargos.
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Natural de Corrente (PI) e advogado, Ibaneis entrou na política sem ter ocupado cargos eletivos antes. Filiado ao MDB, começou a construir sua base a partir de articulações no meio jurídico e empresarial do DF, especialmente durante o período em que presidiu a OAB-DF.
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Em 2018, protagonizou uma virada ao longo da campanha, saiu de posições discretas nas pesquisas, chegou ao segundo turno e venceu o então governador Rodrigo Rollemberg (PSB). O resultado ajudou a consolidar a imagem de nome fora da política tradicional, associada a um discurso de renovação.
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Ao assumir, em 2019, adotou um perfil mais pragmático, com foco em gestão e articulação política. Evitou na maior parte do tempo um discurso ideológico mais rígido e buscou dialogar com diferentes grupos.
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Esse modelo foi colocado à prova com a pandemia de covid-19. O DF adotou medidas como restrições de circulação, suspensão de atividades e períodos de fechamento mais restritivo.
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A condução da crise gerou avaliações distintas, aliados destacam a capacidade de adaptação ao longo do período, enquanto críticos apontam momentos de oscilação e mudanças frequentes de direção.
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Em 2022, Ibaneis foi reeleito ainda no primeiro turno, reforçando sua posição como uma das principais lideranças políticas do DF naquele momento.
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O resultado refletiu não apenas reconhecimento administrativo, mas também a construção de uma base ampla, com apoio de partidos do chamado centrão, lideranças locais e setores econômicos relevantes, como construção civil, comércio e serviços.
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A relação com o governo federal também seguiu uma linha pragmática, sem depender de alinhamentos ideológicos rígidos.
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Logo no início do segundo mandato, os atos de 8 de janeiro de 2023 colocaram Brasília no centro de uma crise institucional e levantaram questionamentos sobre a segurança pública no DF.
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No dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou o afastamento de Ibaneis por 90 dias, no contexto das investigações, mencionando indícios de omissão e falhas na atuação das autoridades de segurança.
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O episódio resultou no afastamento temporário do governador e alterou sua posição no cenário político. Durante esse período, Celina Leão assumiu o comando e ganhou projeção.
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Ibaneis voltou ao cargo em março de 2023, por decisão do STF. Na ocasião, afirmou ter havido um apagão geral na segurança e que a gravidade dos acontecimentos teria sido subestimada.
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O inquérito sobre sua conduta foi arquivado em 2025 por decisão do STF, a partir de manifestação da Procuradoria-Geral da República, encerrando implicações jurídicas diretas. Ainda assim, o episódio continuou tendo efeitos políticos, com maior nível de cobrança e escrutínio sobre sua gestão.
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Analistas políticos avaliam que ele conseguiu manter a governabilidade e o apoio da base, mas com impacto na projeção nacional.
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Ao deixar o governo para disputar o Senado, Ibaneis faz um movimento de reposicionamento, sai da gestão local e tenta ampliar sua atuação no plano federal.
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A sucessão por Celina Leão sugere continuidade, mas também traz desafios. Ela assume uma estrutura consolidada e também o peso político de um governo que acumulou resultados e controvérsias.
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O legado de Ibaneis tende a ser analisado por diferentes ângulos políticos.
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De um lado, estão a base política construída, a reeleição expressiva e a capacidade de articulação. De outro, permanece a associação ao contexto dos atos de 8 de janeiro, que teve forte repercussão institucional.
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Aliados costumam destacar a estabilidade administrativa e a governabilidade. Já críticos levantam questionamentos sobre a condução de crises e responsabilidades institucionais.
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A disputa pelo Senado será um novo cenário para medir a força política de Ibaneis. O resultado pode indicar se o capital acumulado ao longo dos últimos anos ainda se sustenta no plano nacional.
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No DF, a questão passa a ser outra, saber se o grupo político que ele construiu consegue se manter ou se abrir espaço para uma nova configuração.
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Mais do que encerrado formalmente, o ciclo político de Ibaneis Rocha segue em disputa.
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Seu governo deve ser lembrado tanto pelos resultados administrativos quanto pelo episódio que marcou uma inflexão na trajetória.
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No fim das contas, não há uma leitura única, mas diferentes interpretações sobre um percurso que combinou ascensão rápida, consolidação e momentos de forte tensão institucional.
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