Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Rodrigo Daniel Silva
Publicado em 3 de abril de 2026 às 06:00
O jornalista e analista político Manoel Fernandes, que estará em Salvador na próxima terça-feira (7) para participar do Encontro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje) Nordeste, analisa, nesta entrevista, o cenário político-eleitoral brasileiro. Na avaliação dele, a polarização deve permanecer no país, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não terá ampla vantagem. >
“O erro do presidente Lula nessa campanha tem que ser muito menor do que foi em outras, porque a margem é muito curta”, ponderou. Fernandes ainda falou sobre os impactos da Inteligência Artificial (IA). “Em uma disputa eleitoral muito acirrada, pode decidir”, acrescentou.>
Com o tema “Relações Governamentais como ativo estratégico”, o encontro será no auditório do Edifício Liz Empresarial, no bairro do Caminho das Árvores. >
Como observa o atual cenário político brasileiro marcado pela polarização entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro? >
É algo que nós temos que aprender a conviver, porque ela já está colocada e não vai sair desse cenário no curto prazo. A gente tem uma eleição à vista em outubro, que vai refletir mais uma vez essa polarização. Acho que a gente, como sociedade, tem que entender o que está acontecendo, discutir, debater, refletir, mas é algo com o qual vamos ter que conviver, para o bem e para o mal.>
Há algum favoritismo entre esses candidatos, na sua avaliação?>
Naturalmente, o candidato favorito é aquele que tem o cargo, no caso, o presidente Lula. Só que, na nossa avaliação, será uma eleição muito apertada, muito difícil, com uma diferença muito curta, de 3% a 5% do eleitorado. Mais ou menos o que aconteceu na eleição passada, quando o presidente Lula ganhou por dois pontos percentuais.>
Isso reflete exatamente a polarização: hoje existem dois lados, cada um com metade do país. Lula é o favorito, mas não tem muita vantagem para administrar na campanha. Então, o erro do presidente Lula nessa campanha tem que ser muito menor do que foi em outras, porque a margem é muito curta.>
Qual é o perfil do eleitorado decisivo?>
É aquele eleitorado do meio, que não está alinhado nem a um lado nem ao outro. Por isso, é uma eleição muito indefinida. É um eleitorado presente nas grandes cidades, nas regiões metropolitanas, como Salvador. É muito preocupado com temas do dia a dia. Por exemplo, em São Paulo, a grande preocupação é roubo de celular, motoqueiro. Na Bahia, a violência também está entre as mais altas do país. O candidato que conseguir mexer nesses temas de maneira mais organizada é quem vai falar com esse eleitor.>
Tem também uma faixa entre 16 e 24 anos, que está buscando perspectivas que não são colocadas claramente. As pessoas querem prosperar. Para isso, precisam de um ambiente econômico saudável, incentivo ao empreendedorismo, coisas que não se apresentam hoje. >
Há frustração do eleitorado com o governo Lula?>
Na realidade, eu acho que é um cansaço. O governo gerou ganhos significativos desde a primeira eleição, mas as pessoas estão vendo um pouco a mesma novela em reprise. Não há um apontamento claro de projeto de país. As pessoas começam a pensar se existe alternativa. >
O tema da ameaça à democracia pode voltar a pautar a eleição?>
Não. Acho que esse tema já foi esgotado. Quem achar que pode reavivar vai cometer um erro estratégico. Foi muito importante, a sociedade precisou discutir, mas hoje as pessoas querem entender o que vão fazer da vida delas nos próximos anos. Querem segurança, querem olhar para os filhos e enxergar um futuro melhor. Isso é o que vai definir a agenda.>
A segurança pública pode ser o principal tema?>
Em estados como a Bahia, será. As pessoas estão se sentindo inseguras. Mas tem uma questão: a percepção de insegurança crescerá muito mais em função dos que as pessoas vão falar em redes sociais. A distância entre realidade e percepção aumentou muito. O candidato que souber lidar com isso vai ter vantagem.>
Existe um tema nacional ou as campanhas serão mais regionais?>
Cada vez mais, terá que ter discursos geolocalizados. Não adianta falar em Salvador de temas que são de São Paulo. A realidade é diferente. Os discursos genéricos estão gerando cansaço.>
Como vê o cenário eleitoral na Bahia?>
Ainda está indefinido. O PT está há muito tempo comandando o estado. Na última eleição, Lula entrou e deu a vitória ao governador. Não sei se isso vai se repetir. O jogo na Bahia está indefinido. >
Por que Lula perdeu apoio no Nordeste?>
Eu vejo mais como cansaço. As pessoas reconhecem o que foi feito, são gratas, mas querem mais. >
Qual será o impacto da inteligência artificial na eleição?>
Vai ser um uso muito forte, até indiscriminado. E com pouca capacidade de controle das consequências. A inteligência artificial pode criar conteúdos falsos muito convincentes. Em uma disputa eleitoral muito acirrada, como a de deputado estadual e federal, pode decidir. Porque pode mexer em 1 ou 2 mil votos. A inteligência artificial pode definir a suplência de deputados estaduais e federais.>