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R$ 41 milhões sem licitação: Governo contrata empresa investigada pela PF para obras na BR-319

Medida do governo federal tenta agilizar recuperação de estrada que liga Manaus a Porto Velho em meio a polêmicas ambientais e judiciais

  • Foto do(a) author(a) Amanda Cristina de Souza
  • Amanda Cristina de Souza

Publicado em 27 de maio de 2026 às 15:00

“Rodovia do meio” volta ao centro do debate: pavimentação promete integração logística entre Manaus e Porto Velho, mas gera preocupações ambientais
“Rodovia do meio” volta ao centro do debate: pavimentação promete integração logística entre Manaus e Porto Velho, mas gera preocupações ambientais Crédito: Rede Amazônica

O governo federal autorizou um contrato emergencial de R$ 41 milhões para obras na BR-319 com uma empreiteira que aparece em investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de fraude em contratos rodoviários. A medida acontece em meio à pressão para acelerar a recuperação da estrada que liga Manaus a Porto Velho e atravessa uma das áreas mais sensíveis da Amazônia.

BR-319: Justiça derruba suspensão de licitações na 'rodovia da discórdia' por Divulgação/Fecomercio-AM

O tamanho e a polêmica das obras na Amazônia

O acordo, firmado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), prevê serviços de recuperação em trechos considerados críticos entre os quilômetros 0 e 178,5 da rodovia, na saída de Manaus. A contratação da LCM Construção e Comércio foi feita por dispensa de licitação e terá validade até março de 2027.

Considerada estratégica pelo governo, a BR-319 é a única ligação terrestre entre o Amazonas e o restante do país. Ao mesmo tempo, a estrada se tornou um dos principais pontos de tensão entre desenvolvimento logístico e preservação ambiental dentro da agenda de infraestrutura do governo Lula.

Por que a empreiteira é investigada pela Polícia Federal

A LCM está entre as empresas citadas na Operação Route 156, deflagrada pela Polícia Federal em 2025 para investigar suspeitas de direcionamento de licitações, fraudes em contratos públicos e desvios de recursos em obras rodoviárias.

O empresário Luiz Otávio Fontes Junqueira, ligado à companhia, foi alvo de mandados de busca e apreensão durante a operação.

Até o momento, não há condenações relacionadas ao caso.

O Dnit afirmou que a contratação ocorreu em caráter emergencial devido às condições críticas de trafegabilidade da BR-319 e à necessidade imediata de manutenção do trecho.

A corrida do governo para liberar o tráfego na rodovia

O contrato acontece paralelamente ao avanço do projeto de pavimentação do chamado “trecho do meio” da BR-319, considerado o segmento ambientalmente mais delicado da estrada.

O Ministério dos Transportes já autorizou o avanço das obras em um trecho de 339 quilômetros, com previsão de investimento estimada em R$ 678 milhões.

A recuperação da rodovia é tratada como prioridade dentro do Novo PAC e ganhou força política nos últimos meses diante da pressão de parlamentares e lideranças empresariais do Amazonas.

O alerta ambiental sobre o asfalto na floresta

Pesquisadores e organizações ambientais alertam que a recuperação integral da estrada pode estimular invasões de terras, grilagem, exploração ilegal de madeira e avanço do desmatamento em áreas preservadas da floresta.

O projeto ampliou críticas de setores que apontam contradição entre o discurso ambiental defendido pelo governo em fóruns internacionais e o apoio à pavimentação de uma rodovia historicamente associada ao avanço da ocupação irregular na Amazônia.

O Observatório do Clima afirmou que o governo desconsidera alertas ambientais, questões relacionadas ao licenciamento e pedidos de consulta a comunidades indígenas ao acelerar o projeto. A entidade também avalia que a obra pode provocar aumento expressivo do desmatamento na região.

O governo federal sustenta que a recuperação da BR-319 será acompanhada por ações de fiscalização ambiental, monitoramento territorial e controle contra ocupações ilegais.

BR-319 virou o centro de uma queda de braço política

A recuperação da BR-319 é defendida há anos por parlamentares, empresários e lideranças locais, que apontam o isolamento logístico do Amazonas e o alto custo do transporte como obstáculos ao desenvolvimento regional.

Ao mesmo tempo, a obra mantém o governo pressionado entre demandas econômicas, disputas políticas internas e cobranças internacionais ligadas à preservação da Amazônia.