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Moyses Suzart
Publicado em 28 de março de 2026 às 12:00
Algumas coisas nunca devem morrer, mesmo que aparentemente se fale de morte. E aqui, nesta capital, ninguém se atreve a dizer que algo marcado em sua história é mentira. Se alguém aumentou ou diminuiu, o certo é que é verdadeiro, mesmo que alguém exagere no molho na hora de recontar. Contos e prosas da cidade que completa 477 é que fazem de Salvador única, que não basta apenas nascer nela, pois ser soteropolitano é um estado de espírito. E uma das frases mais emblemáticas, se o caro leitor não for puritano, foi gritado pelo baiano de dois nascimentos e uma morte, Carybé: “Puta que pariu, me fudi!”, recitou, no leito de sua partida para Orum, em pleno solo sagrado do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. E depois morreu. >
Antes de falar de sua morte e da frase que merecia ser esculpida na entrada da cidade, é preciso dizer que Carybé é um homem que nasceu duas vezes. Quem disse isso, com propriedade e provas cabais nos seus livros, foi seu amigo, um tal de Jorge Amado. No seu primeiro nascimento, se chamava Hector Julio Páride Bernabó, um cantor de tango medíocre e ladrão de igreja aposentado, como descreve Amado sobre o camarada. Foi na Argentina, em Lanús, 1911. Já como Carybé, em 1938 desembarca na Bahia, atrás do pai de santo Jubiabá que ele leu no livro do tal Amado. “Tranformou-se então seu destino, pois foi de novo parido”, garantiu Jorge quando o artista pisou de vez em solo baiano, em seu livro "Bahia de Todos-os-Santos". >
Depois do segundo parto, Carybé tornou-se o mais baiano de todos e de qualquer um lendo este texto. Desenhou uma Bahia e suas magias como ninguém, apesar de Dorival Caymmi jurar que desenhava mais que ele. E foi justamente na terra de seu segundo nascimento, que ele deixou este plano terreno de um jeito que parece até romance do seu amigo Jorge Amado, mas aconteceu e se tornou um conto sagrado no Ilê Axé Opô Afonjá. Uma das pessoas mais brincalhonas, irônicas e salientes de Salvador, nem na morte deixou de ser sua essência que o fez peça única no mundo. >
Em 1997, aos 86 anos e com questões delicadas de saúde, Carybé chegou a ficar internado por um tempo no hospital. Já não gozava de boa saúde. “Ele já estava mais debilitado, tinha enfisema, já tinha tido um derrame, que hoje a gente chama de AVC, mas tinha se recuperado bem dos movimentos. Só que estava numa fase mais difícil, com falta de ar, tomando medicação que dava enjoo, comendo pouco, sem conseguir subir para o ateliê para pintar. Então não estava naquele auge do bom humor que era tão característico dele”, lembra sua neta, Iara Colina. Mas algo aconteceu: “mexeram na medicação e ele deu uma melhorada boa. E quando melhorou, quis logo ir para a roça, para o Afonjá”, recorda.>
A roça é justamente o Terreiro do Axé Opô Afonjá, um dos mais antigos e importantes do país, uma segunda casa (ou seria a primeira?) de Carybé. Na época ele ainda era presidente da roça e aproveitou a melhora para ver Xangô. Chegando lá, foi até a casa do orixá, passou um tempo sozinho. No retorno, ao sair, colocou a mão no peito e gritou: “Puta que pariu, me fudi!”. Caiu no chão e o mundo perdeu um dos maiores artistas baianos que pisaram na terra. No terreiro, este momento se tornou um conto sagrado, apesar da parte irônica. >
“Eles tiveram uma reunião lá no Afonjá, porque meu avô tinha essa relação mais administrativa com o candomblé. E na saída, quando eles já estavam para ir embora, ele se sentiu mal e caiu. E as palavras dele foram justamente estas: ‘Puta que pariu, me fudi’. Essa é uma das frases mais emblemáticas que já aconteceram em Salvador, porque era muito a cara dele. Quer dizer, ele viu que ali era sua hora, e mesmo assim reagiu com esse humor. Ele era um amante da vida, das brincadeiras, muito conhecido entre os amigos por pregar peças, por fazer piadinhas. Então, de certa forma, foi muito coerente com quem ele era”, conta Iara. Na época, a tristeza do luto ofuscou um pouco a frase, em que dois amigos médicos que estavam com ele presenciaram. Mas depois se tornou mais uma das obras primas do artista. >
Carybé e o terreiro Ilê Axé Opô Afonjá
Para quem conhecia Carybé, a frase não poderia ser de outra pessoa. Apesar de saber separar o lado sério da brincadeira, suas peças se tornaram parte integrante de sua história. No mesmo Opô Afonjá, estava acontecendo uma cerimônia no candomblé bem protocolar, um luto de celebração pela morte de alguém. Onde Carybé estava? Escondido, atrás de uma árvore sagrada, jogando bolinhas de papel e pedrinhas para perturbar as senhoras que estavam ali.>
“E tem outras histórias, como uma vez que ele e Jorge Amado fizeram um anúncio no jornal dizendo que uma escola de inglês, que pertencia a uma amiga deles, estava dando bolsas. Havia uma fila longa na porta, as pessoas foram cobrar, e a dona não estava entendendo nada, porque não tinha publicado nada. Eles ficaram escondidos vendo a confusão, rindo. Era uma brincadeira que hoje a gente até olha e pensa que talvez tenha passado do limite, mas era muito dessa lógica dele de provocar, de criar situações. A amiga, furiosa, acabou dando algumas bolsas”, lembra Iara. >
Os palavrões recitados no seu leito de morte também não eram novidades. Há um acervo na família com obras, digamos, proibidas para menores de 18 anos. Ele costumava desenhar seus amigos, como Dorival Caymmi e Jorge Amado, pelados. >
“Ele fazia muita caricatura dos amigos. Você ia a um restaurante com ele e saía com um guardanapo desenhado, ou aquelas toalhas de papel cheias de desenhos. E muitas vezes eram desenhos irreverentes, com humor mais escrachado mesmo. Em exposições, inclusive, já teve uma parte reservada só para esses desenhos mais ‘de sacanagem’, como a gente diz”, conta Iara. >
Memórias>
Atual presidente da Sociedade Beneficente Cruz Santa do Axé Opô Afonjá, Emanuel Nascimento era um pré-adolescente nos tempos em que Carybé ocupava este mesmo cargo sagrado no terreiro. Contudo, ele lembra bem de muitas coisas do artista. Inclusive das brincadeiras proibidas para menores, como palavrões. “A gente ficava escondido ouvindo o que eles diziam, eram coisas para meninos não ouvirem. Tomávamos reclamações, né? Não era coisa de criança”, brinca Emanuel, rememorando com carinho o período do artista. >
“A relação dele aqui no Ilê Axé Opô Afonjá era muito própria. Ele era uma pessoa extrovertida, mas ao mesmo tempo, dentro do terreiro, era também pacato. Muitas vezes vinha e ficava sozinho na casa de Xangô por dias, ninguém o incomodava, alguns nem sabiam que ele estava lá. Até as senhoras mais rigorosas tinham um certo cuidado com ele. Ele era muito respeitado”, lembra Emanuel, que viveu o privilégio de ver um quarteto fantástico andar pelo terreiro: Carybé, Mãe Stella, Jorge Amado e Dorival Caymmi. >
“Ele era um dos braços direitos de Mãe Stella, uma pessoa de confiança mesmo. E junto com ele estavam nomes como Jorge Amado e Dorival Caymmi, que eram amigos de verdade, não era só convivência social. Era uma relação construída dentro do sagrado, dentro da organização do terreiro”, conta. >
Emanuel também lembra do dia em que Carybé morreu. Foi, inclusive, um fato inédito no terreiro, nunca tinha ocorrido algo semelhante nos mais de cem anos de fundação. >
“A gente entende isso também como um conto de terreiro, uma história que passa a ser contada para outras gerações. Mesmo debilitado, fez questão de estar aqui, num lugar que acolheu ele a vida toda. É como se tivesse buscado esse acolhimento no momento final. Não dá para afirmar racionalmente, mas dentro da nossa visão espiritual, faz sentido pensar que havia ali uma intuição, uma vontade de estar nesse espaço e de saber de alguma forma que era a sua hora. E isso transforma a morte dele em algo que vai além do fato, vira uma memória coletiva do terreiro”, completa Emanuel. >
É preciso lembrar que uma das essências do candomblé é o ensinamento de oratória e ancestralidade. E Carybé já faz parte disso. Sua passagem no terreiro é passado para as gerações que estão chegando, deixando sua memória viva. >
“Falar de Carybé é lembrar de um homem que soube chegar com humildade e se tornar parte daquilo que é sagrado. Um filho que aprendeu a ouvir, a observar e a respeitar os fundamentos do candomblé, sendo reconhecido como Obá de Xangô, com toda a responsabilidade que esse título carrega. Carybé não inventou o sagrado, ele soube escutar o toque do atabaque e o chamado de Xangô”, fala Mãe Ana, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. >
O homem de dois nascimentos e uma morte não apenas desenhou Salvador, como também deixou sua marca entre amigos e quem teve o privilégio de conviver com ele. Carybé era a própria arte. “No fim, quando a gente olha para essa frase dele no momento da morte, fica muito claro: era muito a cara dele. Até no final ele foi assim. É claro que, na hora, para a família, foi só dor. Mas com o tempo, também virou essa lembrança de quem ele era. E rimos, com saudade. Não foi uma coisa desconectada da vida dele, foi quase uma síntese”.>
Um dia, uma repórter perguntou onde Carybé havia nascido. Ele, sereno e com ar triunfante, respondeu: “Na Sete Portas, minha filha”. Nasceu ou renasceu, que importa? >
O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping. >