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O ator que morreu em cima do palco em Salvador... e o público aplaudiu a cena

Ed Ribeiro, então com 26 anos, morreu na abertura do espetáculo ‘Mãos Sujas de Terra’, no Teatro Castro Alves

  • Foto do(a) author(a) André Uzeda
  • André Uzeda

Publicado em 28 de março de 2026 às 08:00

d Ribeiro, jovem ator que  morreu aos 26 anos, durante estreia  de peça no TCA
d Ribeiro, jovem ator que morreu aos 26 anos, durante estreia de peça no TCA Crédito: acervo Gideon Rosa

Gideon Rosa ouviu um suspiro forte do colega de palco e imediatamente lembrou que isso não fazia parte do roteiro da peça. “Eita! Ed hoje tá improvisando”, pensou.

Chamou o companheiro e não obteve resposta. Aumentou a projeção de voz e nada de receber a réplica programada. Somente quando se aproximou para cochichar no ouvido, o repreendendo pela demora na interação, percebeu os lábios arroxeados na boca de Ed Ribeiro. Entrou em desespero.

Era a estreia da peça ‘Mãos Sujas de Terra’, na antiga Sala do Coro do Teatro Castro Alves. O ano era 1981, com o país mergulhado na fase de distensão da Ditadura Militar, sob o governo de João Batista Figueiredo, o último ditador general do exército.

A peça conta a história de pequenos agricultores rurais e suas lutas para conquistar pequenos lotes produtivos, de modo a manter a subsistência. O Movimento Sem Terra (MST) ainda nem havia sido criado quando a peça entrou em cartaz – o que só aconteceria em 1984, três anos depois.

“É curioso que, passado tanto tempo, esse tema ainda é absolutamente atual no Brasil, sem nenhuma perspectiva de melhora”, pontua o ator Gideon Rosa, em tom crítico.

Na primeira cena do espetáculo, os oito atores entravam cantando e dançando no palco, distribuindo milho e amendoim para a plateia. Depois, deitavam em círculo e a luz se apagava.

Um holofote iluminava diretamente o corpo de Ed Ribeiro. Gideon Rosa deveria acordá-lo, recriando o amanhecer de dois lavradores na labuta diária do campo. Foi quando ouviu o suspiro derradeiro do amigo e insistiu em acordá-lo.

A demora deixou o público inquieto. Depois vieram gritos desesperados, primeiro clamando pela presença de um médico e, depois, por qualquer tipo de socorro disponível.

O efeito foi absolutamente delirante. A quebra de expectativa fez a plateia rir em alvoroço, assistindo a aflição dos atores como se fosse uma algazarra proposital, puramente montada. Quando a exasperação escalou à um nível extremo, a fantasia finalmente se desfez.

“A gente levou Ed Ribeiro às pressas em um fusca para o antigo pronto-socorro, que ficava onde hoje é o colégio Manoel Devoto, no bairro Canela. Infelizmente, ele já saiu do palco sem vida”, relembra Rosa.

Elenco da peça  ‘Mãos Sujas de Terra’.  Ed Ribeiro é o primeiro da segunda fileira, da esquerda para a direita
Elenco da peça ‘Mãos Sujas de Terra’. Ed Ribeiro é o primeiro da segunda fileira, da esquerda para a direita Crédito: Acervo Gideon Rosa

Muito além de Cacilda

O ator Hamilton Lima mantinha um bar na Carlos Gomes e, justamente por compromisso com o estabelecimento, tinha faltado à estreia da peça ‘Mãos Sujas de Terra’. Havia se programado para prestigiar os amigos no dia seguinte, quando outro sócio cuidaria da clientela do Bar Encontro.

Ele recorda o exato instante em que soube da fatídica morte de Ed Ribeiro, com quem havia trabalhado na montagem da peça infantil ‘O Circo Rataplan’.

“Um colega de teatro chegou no bar já transtornado, contando o que tinha acontecido. Isso era por volta das 22h. A peça tinha estreado às 21h. A gente fechou o bar depressa e correu para o pronto-socorro. Já passou tanto tempo dessa história, mas sempre me emociono quando relembro”.

A equipe médica constatou que o jovem artista, 26 anos, tinha morrido de forma fulminante, vitimado por um enfisema pulmonar. O diagnóstico só corroborou com o mistério. Ed era conhecido pela ótima forma física. Além de ator, também era dançarino. Os amigos diziam que ele não mantinha hábitos extravagantes, como beber, fumar ou perder noites.

A comoção tomou conta do grupo de atores da Bahia. A família, consternada, veio de Teodoro Sampaio e fez um último pedido à companhia de teatro: queriam que ele fosse enterrado com o figurino da última apresentação.

“Obviamente, o pedido foi atendido. Lembro bem do enterro, lá no Campo Santo. Ed estava com uma cara serena, quase esboçando um sorriso de canto de boca”, conta Hamilton.

Rapidamente, veio a comparação com Cacilda Becker. A dama do teatro brasileiro sofreu um derrame cerebral em 1969, enquanto apresentava o espetáculo ‘Esperando Godot’, em São Paulo.

Cacilda se sentiu mal no intervalo do primeiro para o segundo ato. A peça foi interrompida e ela foi levada às pressas para o hospital. Trinta e oito dias depois da internação, não resistiu.

“O caso de Ed Ribeiro foi ainda mais dramático do que o de Cacilda. Ele passou mal e morreu no palco, diante de uma plateia que o assistia. Isso aconteceu na hora dele dar o próprio texto. E, tudo isso, no dia de estreia do espetáculo”, enfatiza Hamilton.

Ed Ribeiro  durante a montagem  da peça infantil 'Circo Rataplan'
Ed Ribeiro durante a montagem da peça infantil 'Circo Rataplan' Crédito: Acervo pessoal Gideon Rosa

“Não há poesia nenhuma”

Gideon Rosa era mais do que um amigo de palco de Ed Ribeiro. Eles também moravam juntos, na Avenida Carlos Gomes. Era um grupo de quatro amigos, entre atores e jornalistas.

“O mais difícil foi voltar para casa e perceber as coisas que ele tinha deixado por fazer. As coisas estavam todas lá, no mesmo lugar. Só ele que não estava mais. Foi muito difícil. Aliás, ainda é”, diz.

Mesmo sob o fardo do luto, o grupo de teatro se comprometeu a cumprir todas as datas programadas para a peça – o que foi encarado como uma forma de honrar o legado de Ed Ribeiro. O ator Narcival Rubens foi escalado como substituto do jovem intérprete que saiu de cena tão precocemente.

Perguntado se havia uma dose de poesia na forma como Ed Ribeiro se despediu, com um forte suspiro em cima do palco, Gideon Rosa refuta. “Não sei o que tem de poético na morte. É tudo difícil quando acontece. Eu me lembro de, na época, pensar que Ed partiu fazendo o que gostava. Isso me trouxe algum conforto”, diz.

Hamilton Lima se perde diante do mistério. Ele cita uma música do sambista Paulinho da Viola por até hoje não compreender o que aconteceu naquele dia, no agora distante ano de 1981. “Coisas do mundo, minha nega”.

O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping.