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André Uzeda
Publicado em 28 de março de 2026 às 08:00
Gideon Rosa ouviu um suspiro forte do colega de palco e imediatamente lembrou que isso não fazia parte do roteiro da peça. “Eita! Ed hoje tá improvisando”, pensou. >
Chamou o companheiro e não obteve resposta. Aumentou a projeção de voz e nada de receber a réplica programada. Somente quando se aproximou para cochichar no ouvido, o repreendendo pela demora na interação, percebeu os lábios arroxeados na boca de Ed Ribeiro. Entrou em desespero.>
Era a estreia da peça ‘Mãos Sujas de Terra’, na antiga Sala do Coro do Teatro Castro Alves. O ano era 1981, com o país mergulhado na fase de distensão da Ditadura Militar, sob o governo de João Batista Figueiredo, o último ditador general do exército.>
A peça conta a história de pequenos agricultores rurais e suas lutas para conquistar pequenos lotes produtivos, de modo a manter a subsistência. O Movimento Sem Terra (MST) ainda nem havia sido criado quando a peça entrou em cartaz – o que só aconteceria em 1984, três anos depois.>
“É curioso que, passado tanto tempo, esse tema ainda é absolutamente atual no Brasil, sem nenhuma perspectiva de melhora”, pontua o ator Gideon Rosa, em tom crítico.>
Na primeira cena do espetáculo, os oito atores entravam cantando e dançando no palco, distribuindo milho e amendoim para a plateia. Depois, deitavam em círculo e a luz se apagava.>
Um holofote iluminava diretamente o corpo de Ed Ribeiro. Gideon Rosa deveria acordá-lo, recriando o amanhecer de dois lavradores na labuta diária do campo. Foi quando ouviu o suspiro derradeiro do amigo e insistiu em acordá-lo.>
A demora deixou o público inquieto. Depois vieram gritos desesperados, primeiro clamando pela presença de um médico e, depois, por qualquer tipo de socorro disponível. >
O efeito foi absolutamente delirante. A quebra de expectativa fez a plateia rir em alvoroço, assistindo a aflição dos atores como se fosse uma algazarra proposital, puramente montada. Quando a exasperação escalou à um nível extremo, a fantasia finalmente se desfez.>
“A gente levou Ed Ribeiro às pressas em um fusca para o antigo pronto-socorro, que ficava onde hoje é o colégio Manoel Devoto, no bairro Canela. Infelizmente, ele já saiu do palco sem vida”, relembra Rosa.>
Muito além de Cacilda >
O ator Hamilton Lima mantinha um bar na Carlos Gomes e, justamente por compromisso com o estabelecimento, tinha faltado à estreia da peça ‘Mãos Sujas de Terra’. Havia se programado para prestigiar os amigos no dia seguinte, quando outro sócio cuidaria da clientela do Bar Encontro.>
Ele recorda o exato instante em que soube da fatídica morte de Ed Ribeiro, com quem havia trabalhado na montagem da peça infantil ‘O Circo Rataplan’.>
“Um colega de teatro chegou no bar já transtornado, contando o que tinha acontecido. Isso era por volta das 22h. A peça tinha estreado às 21h. A gente fechou o bar depressa e correu para o pronto-socorro. Já passou tanto tempo dessa história, mas sempre me emociono quando relembro”.>
A equipe médica constatou que o jovem artista, 26 anos, tinha morrido de forma fulminante, vitimado por um enfisema pulmonar. O diagnóstico só corroborou com o mistério. Ed era conhecido pela ótima forma física. Além de ator, também era dançarino. Os amigos diziam que ele não mantinha hábitos extravagantes, como beber, fumar ou perder noites.>
A comoção tomou conta do grupo de atores da Bahia. A família, consternada, veio de Teodoro Sampaio e fez um último pedido à companhia de teatro: queriam que ele fosse enterrado com o figurino da última apresentação.>
“Obviamente, o pedido foi atendido. Lembro bem do enterro, lá no Campo Santo. Ed estava com uma cara serena, quase esboçando um sorriso de canto de boca”, conta Hamilton.>
Rapidamente, veio a comparação com Cacilda Becker. A dama do teatro brasileiro sofreu um derrame cerebral em 1969, enquanto apresentava o espetáculo ‘Esperando Godot’, em São Paulo.>
Cacilda se sentiu mal no intervalo do primeiro para o segundo ato. A peça foi interrompida e ela foi levada às pressas para o hospital. Trinta e oito dias depois da internação, não resistiu.>
“O caso de Ed Ribeiro foi ainda mais dramático do que o de Cacilda. Ele passou mal e morreu no palco, diante de uma plateia que o assistia. Isso aconteceu na hora dele dar o próprio texto. E, tudo isso, no dia de estreia do espetáculo”, enfatiza Hamilton.>
“Não há poesia nenhuma”>
Gideon Rosa era mais do que um amigo de palco de Ed Ribeiro. Eles também moravam juntos, na Avenida Carlos Gomes. Era um grupo de quatro amigos, entre atores e jornalistas.>
“O mais difícil foi voltar para casa e perceber as coisas que ele tinha deixado por fazer. As coisas estavam todas lá, no mesmo lugar. Só ele que não estava mais. Foi muito difícil. Aliás, ainda é”, diz.>
Mesmo sob o fardo do luto, o grupo de teatro se comprometeu a cumprir todas as datas programadas para a peça – o que foi encarado como uma forma de honrar o legado de Ed Ribeiro. O ator Narcival Rubens foi escalado como substituto do jovem intérprete que saiu de cena tão precocemente.>
Perguntado se havia uma dose de poesia na forma como Ed Ribeiro se despediu, com um forte suspiro em cima do palco, Gideon Rosa refuta. “Não sei o que tem de poético na morte. É tudo difícil quando acontece. Eu me lembro de, na época, pensar que Ed partiu fazendo o que gostava. Isso me trouxe algum conforto”, diz.>
Hamilton Lima se perde diante do mistério. Ele cita uma música do sambista Paulinho da Viola por até hoje não compreender o que aconteceu naquele dia, no agora distante ano de 1981. “Coisas do mundo, minha nega”.>
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