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Sons de corrente, vultos e presença misteriosa: os mistérios da madrugada dentro da Câmara de Salvador

Policiais que fizeram a ronda na casa legislativa narram episódios sinistros ocorridos durante a madrugada

  • Foto do(a) author(a) André Uzeda
  • André Uzeda

Publicado em 28 de março de 2026 às 07:00

Antiga imagem da Câmara dos Vereadores
Antiga imagem da Câmara dos Vereadores Crédito: acervo

Coisas estranhas acontecem na Câmara Municipal de Salvador. E nada tem a ver com costuras partidárias, reuniões de líderes, obstrução de pauta, votações de projetos ou estratégias das bancadas.

Na madrugada, quando as atividades políticas cessam, outras entidades se levantam e ocupam o espaço de poder na segunda mais antiga casa legislativa do Brasil. São barulhos de correntes, vultos misteriosos e uma presença sinistra que se manifesta na área do memorial, no lado direito do prédio – onde ficam maquetes, painéis, móveis e objetos que contam a história da cidade do Salvador.

O hoje coronel aposentado da PM, Antônio Roque, era major e assistente militar da Câmara, entre 2007 a 2012. Foi nessa época que ele começou a perceber que seus soldados não queriam ser escalados para trabalhar na ronda noturna.

O regime era 24h por 72h. Ou seja, os agentes de segurança trabalhavam um dia inteiro para depois folgar três completos. A labuta incluía passar a madrugada fazendo a proteção patrimonial da casa.

“Eles pediam para serem escalados para outros prédios anexos, como os gabinete dos vereadores, por exemplo. Faziam de tudo para evitar o memorial. Diziam que ouviam sons de corrente arrastando e passos durante a madrugada. Morriam de medo de ficar lá”, relembra Roque, aos risos.

A então subtenente Alessandra Cabral era do administrativo e não fazia parte da escala noturna. Ela, no entanto, pontua com detalhes a aflição dos colegas nas manhãs seguintes às rondas. “Lembro de encontrar umas garrafas cheias de xixi na sala. Quando a gente perguntava o que era aquilo, os policiais diziam que se resolviam ali, porque não tinha coragem de atravessar o corredor de madrugada para ir ao banheiro”.

Hoje promovida à tenente e atuando no Centro Administrativo da Bahia, Cabral recorda que o efetivo policial à disposição na Câmara era especializado em operações táticas delicadas. Mas mesmo armados e treinados, os agentes se pelavam de medo ao encarar à noite no Paço Municipal.

“A ordem era que, de tempos em tempos, eles deveriam passar nas salas para checar se estava tudo bem. Mas quem disse que iam? Quem ficava responsável pelo memorial não fazia ronda nenhuma. Quando o barulho das correntes começava, eles se trancavam na sala. Deixavam a luz acesa e só saiam de lá ao amanhecer”, revela, às gargalhadas.

Embaixo do memorial, a cadeia pública

Não dá para cravar que os causos narrados pelos policiais sejam indícios de eventos paranormais ocorridos dentro da Câmara Municipal de Salvador. Por outro lado, é possível encontrar um lastro histórico que embasa os relatos.

Quando Thomé de Souza partiu de Lisboa, em 1549, com a planta para fundar a Cidade do Salvador, o projeto já incluía a construção da Casa de Audiência e Câmara. E assim foi feito, utilizando os materiais disponíveis à época, como madeira e palha para revestir as paredes.

A edificação foi reformada tempos depois e ganhou uma nova denominação: a Casa de Câmara e Cadeia. Foi aberto um espaço para o encarceramento de indivíduos considerados malfeitores, que descumpriam a lei do Reino de Portugal. Um número considerável destes detentos eram homens e mulheres escravizados, cujo destino era a cela após se rebelarem contra os trabalhos forçados nos engenhos.

Em 1997, quando Salvador se preparava para comemorar os 450 anos de fundação, se iniciou as obras para a instalação do memorial na Câmara Municipal. Durante a reforma, foi encontrado uma espécie de túnel, que dava acesso às galerias subterrâneas.

Rapidamente se aventou duas hipóteses para aquela descoberta. Ou era um canal fluvial ou a área de acesso às antigas celas solitárias, onde os indivíduos considerados mais perigosos ficavam confinados durante o cumprimento da pena.

“Quando descobrimos que o memorial poderia estar em cima da antiga área da cadeia, ligamos os pontos. As correntes arrastando, os vultos, a presença forte… Tudo passou a fazer sentido”, diz a tenente Cabral.

Vivendo na própria pele

O policial Leonardo Barbosa foi um dos ‘felizardos’ que trabalharam à noite no prédio legislativo. Ele conta pelo menos dois episódios em que presenciou eventos – no mínimo – estranhos.

No primeiro deles, desceu de madrugada para o porão do prédio para pegar o material de dormir. Como iria embora às 7h da manhã do dia seguinte, resolveu não fechar o cadeado do seu armário.

“De manhã, quando voltei para guardar as coisas, meu armário estava trancado. Não fui eu! Achei estranho. Depois, comecei a me arrepiar. Fiquei com a sensação que tinha alguém me olhando ali embaixo”, conta.

O segundo caso foi mais impactante. Barbosa diz que estava com outro colega policial na madrugada e começou a ouvir pisadas fortes no andar de cima. Desconfiaram que alguém poderia ter entrado na Câmara e decidiram se dividir para cobrir a área em busca do suposto invasor.

“Fomos de porta em porta e estava tudo fechado. Vasculhamos tudo. Não tinha ninguém. As passadas pararam e voltamos para nossos postos. Depois disso, passaram-se mais algumas horas e ouvimos um barulho fortíssimo, como se alguma coisa tivesse caído”, relembra.

A dupla voltou à patrulha, mas novamente não encontrou nada. “Às cinco horas da manhã, chegou o primeiro funcionário do administrativo, encarregado de receber os jornais e distribuir as correspondências. Quando ele abriu a sala dele, tinha um armário de metal no chão com várias caixas de arquivo reviradas. O barulho foi daquilo. Mas como um armário pesado daquele virou? Nunca descobrimos…”, diz.

Esta coluna é dedicada ao espirituoso e espiritual ator João Guisande, grande contador e ouvinte de boas histórias

O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping.