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Caso Acarajé da Cira: o que rompimento entre irmãs revela sobre herança e gestão de empresas familiares

Especialista em governança corporativa e estratégia de negócios explica detalhes de sucessão empresarial

  • Foto do(a) author(a) Millena Marques
  • Millena Marques

Publicado em 30 de maio de 2026 às 06:30

Acarajé da Cira
Acarajé da Cira Crédito: Reprodução/Instagram

disputa envolvendo a marca Acarajé da Cira, uma das mais famosas de Salvador, trouxe à tona um tema cada vez mais comum entre empresas familiares brasileiras: os desafios da sucessão patrimonial e da governança após a morte do fundador.

Após o falecimento de Cira, em 2020, a administração dos quiosques passou a ser motivo de divergência entre herdeiras da quituteira. Atualmente, o ponto do Rio Vermelho é operado por Juçara Santos, enquanto o quiosque de Itapuã ficou sob responsabilidade de Cristina de Jesus. O impasse ganhou repercussão pública após o anúncio de que a unidade de Itapuã estaria temporariamente desvinculada da empresa Acarajé da Cira.

Cira do Acarajé morreu em 2020 por Reprodução/Instagram

Para Kleber Falcão, fundador e CEO do O Legado e especialista em governança corporativa, estratégia de negócios e sucessão empresarial, situações como essa costumam ter origem muito antes do conflito aparecer publicamente. “O erro normalmente começa muito antes do conflito aparecer publicamente. A maior parte das empresas familiares brasileiras não trabalha de forma preventiva o planejamento sucessório e a governança familiar”, afirma.

Segundo ele, um dos principais desafios das empresas familiares é justamente separar de forma clara os papéis entre família, propriedade e gestão do negócio.

“O primeiro círculo envolve os membros da família, independentemente de trabalharem ou não no negócio. O segundo define quem possui participação societária, cotas ou ações. Já o terceiro trata da operação da empresa: quem trabalha nela, quais funções exerce, quais responsabilidades possui e quais critérios de gestão serão utilizados”, explica.

No caso da marca Acarajé da Cira, Juçara é apontada como inventariante do espólio desde a morte da mãe. Na prática, segundo Kleber, isso significa que ela é a responsável provisória pela administração dos bens deixados durante o processo de inventário. “Isso inclui preservar o patrimônio, representar o espólio judicialmente e extrajudicialmente, prestar contas aos herdeiros e garantir a continuidade das atividades até a conclusão da partilha”, detalha.

O especialista ressalta, porém, que a função não garante autonomia total sobre o negócio. “Quando existe uma empresa ou uma marca envolvida, o inventariante pode assumir um papel importante na preservação operacional e patrimonial do negócio. Porém, isso não significa necessariamente autonomia absoluta sobre decisões estratégicas ou societárias, principalmente quando existem outros herdeiros envolvidos”, pontua.

Outro ponto que chama atenção no caso é a exposição pública da disputa. Para o especialista, além dos impactos jurídicos, conflitos familiares podem comprometer diretamente o valor e a reputação da marca construída ao longo de décadas. “Conflitos familiares expostos publicamente costumam gerar insegurança operacional, desgaste de imagem e perda de valor empresarial, afetando não apenas os herdeiros, mas funcionários, clientes, fornecedores e toda a cadeia envolvida no negócio”, alerta.

Diante de cenários de impasse entre herdeiros, Kleber afirma que uma das alternativas pode ser a profissionalização temporária da gestão da empresa. “Em muitos casos, uma alternativa importante é a contratação de executivos independentes, consultorias especializadas ou estruturas de governança que atuem com neutralidade e foco na preservação da empresa”, explica.

Segundo ele, o caminho mais saudável costuma ser a busca por um consenso mínimo entre os envolvidos para garantir a continuidade do negócio enquanto questões judiciais e societárias são discutidas.

Para evitar situações semelhantes, o especialista defende que o planejamento sucessório seja estruturado ainda em vida pelo fundador da empresa. “O ideal é que o fundador estabeleça ainda em vida regras claras de sucessão, governança familiar e governança empresarial”, afirma.

Ele destaca que acordos familiares, definição de regras de gestão, planejamento patrimonial e critérios objetivos para entrada de familiares no negócio ajudam a reduzir conflitos futuros. “Muitas vezes o fundador concentra decisões, conhecimento e liderança por décadas, mas não estrutura mecanismos para continuidade do negócio após sua ausência”, observa.

O Legado

O Legado é um Ecossistema de Soluções para PMEs (Pequenas e Médias Empresas) e Negócios Familiares que combina educação, tecnologia, serviços e comunidade para transformar empresas em negócios organizados, escaláveis e prontos para o futuro. Tem como um de seus principais pontos de atuação a preparação para a sucessão.

Tags:

Bahia Salvador Acarajé da Cira