Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Coletivo de mulheres luta pela preservação da cultura da Guerra de Espadas

A tradição polêmica das espadas de fogo ganha um novo capítulo de liderança feminina e resgate histórico em Cruz das Almas

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 6 de junho de 2026 às 11:00

Coletivo Espada Rainha
Coletivo Espada Rainha Crédito: Divulgação

O São João de Cruz das Almas carrega uma fama que vai muito além dos grandes shows de palco e das multidões que tomam a cidade. No coração do Recôncavo, a identidade da festa também inclui fumaça e chamas que riscam o chão. A Guerra de Espadas - amada por uns e odiada por outros - é um sistema de saberes antigos que envolve trabalho durante todo o ano para a fabricação artesanal de tubos de bambu preenchidos com pólvora e argila. Quando a queima acontece, no mês de junho, é o ápice da herança de muitas famílias, passada oralmente por gerações. Essa cultura controversa acaba de ganhar uma nova camada de cuidado e proteção.

Fundado em janeiro deste ano, o Coletivo Espada Rainha é uma iniciativa de mulheres, que atua para transformar a tradição em uma ferramenta de educação e memória. O grupo entende que a espada é um patrimônio vivo e busca garantir que essa história não seja apagada pela marginalização (a queima de espadas é proibida, em Cruz das Almas, desde 2011), mas sim ressignificada com responsabilidade.

Vigor dos bastidores

Apesar do histórico protagonismo masculino, engana-se quem pensa que a presença das mulheres nessa cultura é irrelevante. Elas sempre foram os pilares invisíveis da tradição, tanto participando das “guerras”, quanto cuidando da organização das festas e da manutenção das famílias espadeiras. Muitas também fazem parte da cadeia de fabricação dos artefatos. Sabrina C. Machado, fundadora do coletivo, explica que o movimento nasceu justamente para dar luz a essa participação.

Guerra de espadas por Reprodução

Segundo Sabrina, “o grande estalo foi perceber que as mulheres sempre estiveram presentes na tradição, mas quase nunca eram reconhecidas como protagonistas. Elas estavam nas ruas, nas famílias espadeiras, na memória das histórias, na organização das festas e muitas vezes também na própria vivência da cultura. O que faltava era visibilidade”. Para ela, ocupar esse espaço é um direito. “Não queremos tomar o lugar de ninguém, mas ocupar um espaço que também é nosso”, afirma.

O coletivo trabalha para enfrentar o preconceito que muitas vezes reduz a tradição apenas ao viés do perigo ou da ilegalidade. A proposta é focar no conhecimento técnico, na cultura e na delicadeza do processo de fabricação. Caroline Ceci Chagas, integrante do grupo, acredita que o olhar feminino traz um cuidado especial para a salvaguarda desse patrimônio, sem o enfrentamento judicial ou o descumprimento da lei. O coletivo não promove queimas de espadas nem incentiva qualquer atividade ilegal. A proposta é atuar na conscientização sobre a importância cultural da tradição.

“A gente tá trabalhando muito para desmistificar esse preconceito. A gente tá trabalhando com a educação para mostrar que a espada não é apenas um artefato aleatório. Existe todo um saber tradicional na fabricação desse artefato. O corte do bambu, a dosagem da pólvora, a amarração do bambu, tem todo um processo por trás disso”, defende. Para ela, documentar esses passos é essencial. “Tira a espada da margem, e a coloca em um lugar de patrimônio imaterial, que é o que já deveria ter sido feito”.

Ponte com universidade

Um dos pilares do Espada Rainha é a colaboração com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, a UFRB. Por meio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, a PROEXC, o grupo desenvolve atividades de extensão que levam o saber popular para dentro do ambiente acadêmico. Essa parceria permite a realização de oficinas formativas e rodas de memória que envolvem jovens do ensino médio e estudantes universitários. O objetivo é transformar experiências transmitidas pela fala em registros permanentes, fortalecendo a relação entre a cultura do povo e a produção de conhecimento acadêmico.

“Hoje a gente tem três projetos. Primeiro as oficinas formativas, onde a gente vai garantir a formação da base conceitual e da consciência do patrimônio. Temos também as oficinas artísticas onde a nossa cultura é mostrada como estética, expressão e sensibilidade. Também há as rodas de conversa, que é onde a gente proporciona momentos de diálogo direto com outras mulheres. A gente consegue escutar, acolher, partilhar os afetos e as memórias, para que essas memórias orais não se percam e com isso a gente consiga se constituir como legítimas herdeiras dessa história”, explica Caroline.

Memória que resiste

O coletivo já conquistou o respeito dos homens, que veem no grupo uma forma de manter a história viva para os mais jovens. De acordo com Sabrina, “temos encontrado apoio de muitos espadeiros, eles entendem que preservar a memória, os saberes e a identidade cultural é uma forma importante de manter essa história viva para as novas gerações”. Importante apontar que o nome do grupo remete à espada mais respeitada das ruas, a maior de todas, aquela fabricada com especial cuidado e que encerra a noite com excelência.

Por fim, Caroline deixa claro que o espírito do trabalho do coletivo é o mesmo de tantas outras lutas femininas: “o Espada Rainha garante que a história das mulheres não seja apenas contada por outros mas escrita por nós mesmas, então a gente precisa documentar a nossa existência para que o tempo nunca mais possa nos apagar”. O recado está dado, portanto: a tradição mais profunda do São João de Cruz das Almas também tem rosto, voz e coragem de mulher.

Por @flaviaazevedoalmeida

O projeto São João 2026 é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.