Intimidação sem controle é causa de suicídios e danos emocionais

Lei que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (bullying) entrou em vigor na semana passada no Brasil

Publicado em 21 de fevereiro de 2016 às 12:11

- Atualizado há 10 meses

Todas as vezes que entrava em sala de aula, Gustavo ouvia de um colega de turma que ele parecia um “veadinho” pelo cabelo liso e por estar acima do peso. Em uma oportunidade, já sem paciência, o garoto devolveu a provocação e disse ao colega que o problema dele era ter o “cabelo duro” e foi acusado de racista. Ambos pararam na direção e as famílias foram chamadas para ajudar a contornar o conflito.

Ana, 12 anos, era  novata na escola quando alguns colegas de sala pegaram uma foto dela e divulgaram nas redes sociais, dizendo que a garota já havia namorado todos os meninos de uma série, que era vadia e fazia  sexo oral com todos.  Desesperada, a mãe da garota acionou a escola e a Delegacia Especializada em Crime Contra Criança Adolescente. “Nem mesmo na delegacia sabiam como lidar com essa situação, mas não podia deixar de lado uma situação absurda como essa”, conta a mãe da garota.  Desde a semana passada, entrou em vigor no Brasil uma lei que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (bullying). A Lei nº 13.185 determina que será considerada intimidação sistemática todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação.

Mais do que coibir situações como essas, a proposta deve minimizar os impactos dessas agressões para a saúde física e mental de crianças e adultos. Isso porque algumas dessas situações repercutem de forma tão impactante na vida do indivíduo que podem desencadear traumas até a vida adulta, além de promover humilhações tão severas que facilitam atos extremados como o suicídio e o assassinato.Força desproporcional“Os conflitos de relacionamento existem, sempre existiram e são necessários para o crescimento pessoal, no entanto, quando a situação foge do controle, é necessária intervenção rápida e objetiva para promover a violência sofrida”, explica a psicóloga Keila Parente, que atua como orientadora psicopedagógica do Colégio Villa Lobos. Ela ressalta ainda que, embora o termo esteja desgastado e termine sendo utilizado para designar outras situações como a pirraça e a chacota, é importante salientar que o bullying é uma violência que acontece entre pares. A experiência da jovem CD (identidade preservada a pedido da fonte) é uma ilustração de como a agressão psicológica e física pode acompanhar alguém por décadas, determinando, inclusive, como suas relações serão determinadas no futuro. Desde muito cedo, ouvia gracejos sobre o desenvolvimento da região pubiana (monte de vênus). A situação assumiu contornos preocupantes quando entrou na pré- adolescência.  Ela tinha  10 anos quando um colega de escola da mesma idade lhe disse, durante uma aula de Educação Física, que a estupraria. 

No início, ela ignorou, mas eram tão constantes as ameaças que a garota deixou de usar shorts ou calças. Abandonou as aulas de balé e jazz porque as vestimentas possibilitavam que ele e outras pessoas notassem o que ela considerava uma anomalia anatômica.“Chorava todo dia com medo dele e não conseguia falar isso para ninguém.   Fiquei introspectiva e bem calada, coisa que nunca fui”, diz. “Para os outros que me ameaçavam me ‘pegar’, dizia que tinha doenças graves”, conta. 

Hoje, noiva, capaz de manter relacionamentos sem o peso das agressões sofridas no primário, ela conta que demorou em se aceitar e precisou fazer terapia para conseguir se relacionar com rapazes, ir à praia ou piscina. “Me achava uma  anormal”, narra.O diretor clínico da Holiste, o psiquiatra Luiz Fernando Pedroso diz que a desproporcionalidade de força empregada em  situações de bullying, como a narrada por CD, mostra uma perversão no ambiente escolar e que as boas unidades de educação têm obrigação de impedir que isso prossiga. 

“A mera provocação e o conflito por si só não são preocupantes e fazem parte do crescimento individual, no entanto, manifestações excessivas, tidas como patológicas, tanto por parte do agredido como do agressor exigem intervenção”, diz. O médico, no entanto, afirma que a lei possui um texto esquisito, uma vez que judicializa uma questão educacional. “O Estado termina por retirar a virtude do educador. A questão precisa e deve ser discutida e resolvida, mas no âmbito escolar, que é um espaço privilegiado de socialização”, completa o médico.  

Cura socialA psicóloga  e orientadora psicopedagógica na Associação Cultural Brasil-Estados Unidos (Acbeu) Raquel Guirra destaca que o bullying alerta para a necessidade de atuar tanto com os agredidos quanto os agressores, pois ambos possuem como característica os problemas de estima. “É natural que o agredido seja mais bem aceito, mas o agressor também precisa ser tratado, pois, geralmente, é uma criança criada num ambiente de agressividade e que, para ser aceito e visto como forte, precisa apelar para a agressão”, completa. 

Ela pontua que se os envolvidos não são assistidos, corre-se o risco de evitar a situação no ambiente de vigilância, mas de se permitir que o cenário volte a se repetir quando ninguém estiver observando. Com uma postura parecida, Keila Parente é enfática em pontuar a necessidade de família e escola criarem um ambiente seguro para que a criança se sinta à vontade para relatar qualquer situação de violência. 

“Geralmente, nas situações de bullying existe a figura do agressor, do agredido e da plateia, então é preciso que a escola sensibilize sobre as normas de convivência e assegure a eles a segurança”, finaliza.