O farol que ilumina a civilização

Não há tirania que consiga, ao menos por enquanto, alijar alguém do seu próprio conhecimento

Publicado em 7 de agosto de 2023 às 05:00

Nietzsche já disse que a vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio. Eu não poderia concordar mais. Cá estou, tentando buscar inspiração para mais uma crônica, enquanto sou invadido pela sonoridade vigorosa de Bags Groove, na versão de John Lewis e Sacha Distel. Um portento. Imagino por um breve momento a minha vida sem o jazz, e também sem Chopin, Leonard Cohen ou Caetano. Um silêncio crepuscular, dolorido, enfadonho.

Pois é isso que ocorre agora no árido, miserável e sofrido Afeganistão, onde os dementes do grupo extremista Talibã determinaram que instrumentos musicais devem arder em chamas. A justificativa? A música causa “corrupção moral” entre os jovens. Segundo matéria da BBC, essa forma de expressão artística é particularmente perseguida pelo grupo, que em sua primeira passagem pelo poder baniu todas as formas de música da televisão, do rádio e até mesmo de encontros sociais.

A triste imagem da fogueira de instrumentos que vi na matéria me remeteu de imediato à noite da queima de livros na Alemanha nazista, em 1933. Mandei a reportagem para um amigo e ele respondeu ironicamente: “Já sabemos que a 451º F os livros pegam fogo. Resta-nos saber a temperatura da combustão dos instrumentos musicais”. Ele se referia a Fahrenheit 451, filme de Truffaut baseado no romance distópico de Ray Bradbury, no qual livros são proibidos e queimados por um regime totalitário.

Meu amigo acrescentou: “A arte, expressão simbólica, causa profundo temor nas tiranias”. Se há algum consolo nisso, é que – por mais poderosas que sejam, e não sem antes causar enormes estragos – as tiranias acabam em algum momento por perder essa guerra. No filme de Truffaut, os guerrilheiros da liberdade atendem pela alcunha de homens-livros. São pessoas que memorizam obras inteiras, fazendo com que não sejam esquecidas e algum dia, num futuro menos aterrador, voltem a ser publicadas. Como explica um personagem no monólogo final:

“Aqui somos cerca de 50. Mas existem mais, muitos mais, espalhados por aí, em estações ferroviárias abandonadas, vagando pelas estradas. Vagabundos por fora, mas por dentro bibliotecas. Nada foi planejado. Apenas aconteceu de um homem aqui e outro ali adorarem algum livro. E em vez de perderem esses livros, eles os decoraram. Somos uma minoria de indesejados lamentando por zonas selvagens. Mas não será sempre assim. Um dia seremos chamados, um a um, para recitar o que aprendemos. Então os livros serão impressos novamente. E quando a próxima idade das trevas chegar, aqueles que vierem depois de nós farão de novo como nós fizemos.”

É o que espero que aconteça no Afeganistão: homens e mulheres perpetuarão versos, melodias e harmonias na memória, até o momento em que a estupidez arrefeça e por fim seja destronada. Então empunharão suas guitarras, violões, tambores e tudo mais que hoje arde, trazendo de volta as notas e acordes que fazem parte da sua cultura.

Essa ideia de resistência silenciosa às tiranias me fez lembrar de uma linda cena do filme Timbuktu, do diretor Abderrahmane Sissako. Nela, jovens de um pequeno povoado do Mali são proibidos de jogar futebol pelos fundamentalistas do Estado Islâmico, que invadiram a cidade e passam a ditar as regras por lá. Os jovens então recorrem a um artifício lúdico: jogam futebol sem bola, simulando movimentos e jogadas com o corpo. É tristemente comovente.

Levado pelo jazz de Lewis e Distel, que agora tocam Willow Weep for Me, lembro de outra cena, esta do filme O Pianista, de Roman Polanski. É quando o músico judeu Władysław Szpilman, vivido por Adrien Brody, se encontra escondido numa casa para tentar escapar aos nazistas. Lá ele se depara com um piano, instrumento que estava impedido de tocar desde antes da eclosão da Segunda Guerra. Szpilman, então, se aproxima do piano e executa um Noturno de Chopin apenas aproximando os dedos do teclado, sem tocá-lo. O Noturno está ali, íntegro, na sua mente.

É a memória como um abrigo, que nem disse Aleksandr Soljenítsyn. Não há tirania que consiga, ao menos por enquanto, alijar alguém do seu próprio conhecimento – embora algumas tenham de fato chegado muito perto disso. Nossa cultura está impregnada em nós. Livros, canções e mesmo a singela arte de jogar bola possuem uma perenidade que os torna imunes às armas e aos abusos dos idiotas. Feito um velho farol alquebrado, eles vão continuar iluminando a civilização, mesmo durante a treva mais espessa.