Uma crônica para Vicente e Arlinda

Arlinda seria uma antiga paixão, uma amiga querida ou apenas alguém que, por um breve lapso de tempo, conviveu com ele e depois sumiu na poeira dos anos?

Publicado em 18 de setembro de 2023 às 05:00

Há tempos eu queria adquirir um livro de Ruy Castro, hoje esgotado, chamado Saudades do Século 20. Por sorte ou por acaso (ou os dois), acabei encontrando um exemplar na semana passada, exposto no calçadão da orla do Rio Vermelho, onde passeava num final de tarde. Um vendedor de livros o oferecia por módicos 5 reais, e não hesitei em trazer para casa. Está em ótimo estado, não aparentando seus 20 anos de idade.

Há nele uma dedicatória: “Vicente, o melhor é que nós fazemos parte deste século. Um beijo grande, Arlinda. Dez/2003”. Tento imaginar o percurso traçado por esse livro até chegar a mim. Por que Vicente se desfez dele? Arlinda seria uma antiga paixão, uma amiga querida ou apenas alguém que, por um breve lapso de tempo, conviveu com ele e depois sumiu na poeira dos anos? Estarão vivos? As bordas do livro permanecem íntegras, sem sinal de manuseio, grifos ou anotações, o que parece indicar que nunca foi lido.

Já avançado na página 177, eu involuntariamente faço o percurso que Vicente não fez – ou o fez com extremo cuidado, como se não quisesse deixar rastro da própria leitura. Fico me perguntando qual será o próximo destino desse exemplar que resgatei do chão. E de todos os outros, certamente mais de mil, que atulham a biblioteca onde escrevo agora. Alguns deles já de segunda, terceira ou décima mão, nos quais a passagem do tempo se mostra em todo seu tenebroso esplendor: páginas gastas, manchadas, algumas com nomes de antigos donos ou anotações indecifráveis.

Como Vicente e Arlinda, também faço parte do século 20. Nasci nele, cresci nele e meus valores, minha cultura e minhas convicções estão firmemente ancorados no que apreendi e vivenciei nos estertores desses 100 anos, que Eric Hobsbawm definiu como a era dos extremos. É o século de Miles e Coltrane, de Hemingway e Borges, de Caetano e Leonard Cohen, de Woody Allen e do meu alvorecer. O século do Gulag e da penicilina, de Auschwitz e do cinema. O século que mais ergueu e destruiu coisas belas.

Um século que envelhece lentamente, tomado pela vertigem e o caos daquele que o sucede, com sua tecnologia onipresente que nos conecta e ao mesmo tempo desinforma. Nesse processo avassalador, nós também vamos cedendo lugar a jovens que nem fomos um dia, só que com uma linguagem e um jeito de pensar e agir que nos assombram. Somos impelidos diariamente rumo ao passado em um mundo pulverizado e disperso, enquanto o futuro pede passagem feito um maremoto. Em breve, seremos apenas entulho, com nossas estantes repletas de papel velho e nossa memorabilia sem valor. E assim por diante.

No primeiro ato de Tio Vânia, peça clássica de Tchékhov a que assisti recentemente, o médico Ástrov, em conversa com a velha babá Marina, reflete: “E agora eu fico pensando: as pessoas que vão viver daqui a cem anos, duzentos anos, as pessoas para quem nós estamos, agora, abrindo caminho, será que elas vão falar bem de nós? Ah, babá, elas não vão nem lembrar!”. Ele retoma o tema no último ato: “As pessoas que vão viver daqui a cem anos, duzentos anos, e que vão nos desprezar porque levamos a vida dessa maneira idiota e insípida, essas pessoas talvez encontrem um meio de ser felizes. Mas nós…”.

É claro que boa parte do que fazemos da vida é puro desperdício, prostração física e mental, enfado, trabalho inútil e dedicação insuficiente ao ócio e ao prazer. Mas será que nada do que aprontamos de mais prosaico, como resgatar e ler um livro de Ruy Castro ou assistir a uma peça de Tchékhov, servirá de inspiração para aqueles a quem, como diz Ástrov, estamos abrindo caminho? Haverá ainda Tchékhov na memória coletiva dos que viverão o ano 2223? Como será a existência humana despida do gênio russo que desde o século 19 nos enleva com sua verve e seu mundo em desencanto?

Fico com o que diz Irina, personagem de outra bela peça de Tchékhov, Três Irmãs: “Vai chegar o tempo em que todo mundo vai saber para que tudo isso existe, para que servem esses sofrimentos, não vai haver mais nenhum mistério, só que até lá é preciso viver…”. Vivamos, portanto. Cá deste canto de uma cidade periférica na geopolítica do planeta, debilitado por uma gripe e exausto de uma semana intensa de trabalho, é o que eu tento fazer. É o que resta.