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Do Estúdio
Publicado em 7 de agosto de 2018 às 21:13
- Atualizado há 3 anos
...Um dia eu fui fazer uma playlist com as minhas 30 músicas preferidas de Caetano e deu 129.Seria em vão o esforço de medir o meu nível de inocência ao acreditar ser possível criar uma playlist com as minhas 30 músicas preferidas do meu cantor preferido que tem uma das produções musicais mais intensas. Falhei, assumo. Para a minha glória, devo dizer. 30 porque é um número razoável para uma playlist, suponho. Alguém deve ter me dito ou eu criei essa teoria. Ou por pura observação, não sei. Mas fui inocente e agora eu sei, é evidente: era uma missão impossível. Foto: Acervo Pessoal Fui seguindo a sua discografia disponível no Spotify e não me espantaria se eu gastasse as 30 músicas só entre os seus dois ou três últimos discos lançados. Colocaria todo o repertório do Ofertório, por exemplo, mas este ainda não tinha sido lançado quando montei a playlist. Depois de lançado, não pude deixar de incluir a versão de "Ela e Eu", que até então só conhecia com Bethânia, no disco Mel. O fato é que não há nada que eu não goste quando Caetano canta. Não ouso escolher o que seria para mim o seu melhor momento - ele se reinventa e é sempre confuso dizer o que é melhor ali! -, o seu melhor disco (ainda que o Cinema Transcendental dê uma mexida por dentro); ou a sua canção de amor mais bonita, o seu verso que melhor descreve o nosso contexto social. Tenho ouvidos atentos para o que ele diz, para o que ele canta. Conhecer a obra de Caetano ajuda a conhecer o Brasil. Mas é também conhecer o amor nas suas mais diversas manifestações. É a trilha de muitos, de muitas emoções, de incontáveis histórias. É a minha trilha em Salvador, no Rio, Santo Amaro, São Paulo ou daqui de Dublin, distante de casa, com os ouvidos abertos para o mundo. Mas, andando por Clontarf, eu fico com Caetano e ouço Irene e “eu quero ir, minha gente”. Foto: Acervo Pessoal Quando, no ano passado, escrevi o texto "Como eu sei lembrar de você", publicado no Correio*, conectei suas músicas aos mais diversos momentos em que vivi. Continuo, um ano depois, no mesmo caminho: um dia eu entendi a que será que se destina existirmos e tudo começa agora a fazer sentido, ainda que eu continue me perdendo e me reencontrando por aí, por aqui, pelo mundo. Quando a gente se reencontra a vida fica mais bonita. E a vida brilha feito gente - que é pra brilhar, não pra morrer de fome - quando a gente vai ao som dele. Eu vou, porque não? Um dia eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino Deus, de um corpo azul-dourado. Era o dia dele. E Caetano vai jogando luz na nossa compreensão do mundo, "ligando os breus, dando sentido aos mundos. E aos corações, sentimentos profundos". Vai, Caetano. Que estes passos lançam e dançam moda e dirão ao mundo por onde ir.>