Doado à Ufba no passado, acervo que tem obras a partir do século XVII é recuperado e digitalizado

Doado à Ufba no passado, acervo que tem obras a partir do século XVII é recuperado e digitalizado

Imenso volume de publicações, entre livros, revistas e outros arquivos da Biblioteca Gonçalo Moniz, no Terreiro de Jesus

Caminhar nos corredores imponentes da Faculdade de Medicina (Fameb) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), no Terreiro de Jesus, já pode ser considerado uma viagem à história do Brasil. Mas eles conduzem a um tesouro no subsolo do prédio, onde está guardado um imenso volume de publicações, entre livros, revistas e outros arquivos da Biblioteca Gonçalo Moniz, fundada em 1832.

O trabalho de recuperação de exemplares do século XVII começou em 2003, com a reabertura da biblioteca, e agora dá um novo passo, com o início da digitalização do arquivo. O primeiro lote foi levado no final de maio para a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Ufba, em São Lázaro, que fez uma parceria com a Fameb, para fazer esse processo. Segundo a coordenadora da biblioteca, Ana Lúcia Albano, a medida é para garantir que o acervo não seja perdido mais uma vez.

“O tipo de papel que era usado no século XX era tipo de jornal, muito frágil. Se a gente não tiver esse processo de preservar de toque, do manuseio, a gente vai perder. Muita coisa não tem como ser restaurada, mas dá pra ser digitalizada”, explica Ana.

Agora, parte dos livros que estavam amontoados já foi colocada em estantes, o que facilita a visualização e o processo de limpeza e tentativa de recuperação ou restauração das páginas. Os funcionários vão escolhendo as obras para iniciar esse processo conforme o estado de conservação, de acordo com Ana Lúcia.

Incêndio
É um segundo renascimento. O  primeiro foi em 1905, após um incêndio destruir todo o acervo da biblioteca. A sociedade baiana na época, então, se reuniu para recompor todo o acervo e doou diversos livros para o espaço. Em 1909, a biblioteca foi reinaugurada com 12 mil volumes, todos doados ou adquiridos após o incêndio. O local faz homenagem ao professor Gonçalo Moniz, que era entusiasta da reconstrução do acervo.

Hoje, uma equipe de funcionários tenta recuperar e colocar novamente à ativa todos os volumes. A biblioteca ficou “esquecida” após a sede da Faculdade ser transferida para o bairro do Canela. Com isso, todos os livros ficaram à mercê da ação do tempo, traças, cupins e infiltrações do prédio. Não há um número exato, mas estima-se que sejam entre 70 mil e 100 mil livros que ficam no subsolo do espaço, que funcionava como um depósito de livros.

Preciosidade
Entre as raridades encontradas está a obra Flora Brasiliense, produzida entre 1840 e 1906 pelos editores Karl Friedrich Philipp von Martius, August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban. Todas as ilustrações feitas à mão mostram as espécies que tinham sido descobertas no país. A obra possui dez volumes. Segundo Ana, uma das poucas coleções completa no Brasil..

Coleção completa da Flora Brasilensis está guardada no acervo da Biblioteca
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

De acordo com Ana Lúcia, são consideradas mais difíceis de encontrar obras de antes do século XIX, presentes no acervo da biblioteca. Não há um levantamento oficial com todos os arquivos da biblioteca e a maior parte dos livros estava amontoada no subsolo da “torre de livros” - como é conhecida a biblioteca de quatro andares.

Outra obra que chama atenção da coordenação e da memorialista da faculdade, a professora Cristina Fortuna, é o dicionário de práticas cirúrgicas, de 1798. Nele, constam ilustrações de procedimentos, como imobilização de membros e intervenções dentárias. Alguns livros trazem, além do conteúdo, informações da história do país, como História Natural Brasileira, obra holandesa de 1648 e que foi censurada por Portugal. 

Visitação
Para o diretor da Fameb, Luis Fernando Adan, o resgate do acervo é um reconhecimento. “Temos um apreço especial pela biblioteca, porque é uma memória da saúde brasileira, aberta a pesquisadores”, diz o diretor. Atualmente, apenas pesquisadores, estudantes e professores da Fameb têm acesso ao acervo.

Apenas dois pavimentos da faculdade são abertos à visitação, onde funcionam o Museu Afro-Brasileiro (Mafro) e o Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba.