É preciso investir em economia que se restaure, dizem especialistas

Modelo tradicional - linear, baseado em princípios como “extrair, fabricar, utilizar e descartar” - não atende às necessidades do planeta

Publicado em 4 de outubro de 2015 às 15:13

- Atualizado há 10 meses

A economia – assim como os seres humanos – deve aprender com o planeta. Há bilhões de anos, desde a formação da Terra, os sistemas naturais se comportam de uma maneira circular. Ou seja: se restauram ou se regeneram sem produzir resíduos. E, para as autoridades em sustentabilidade, esse mesmo conceito pode ser transposto para a economia.

“Nós, por outro lado, temos apenas milhares de anos. Precisamos elaborar sistemas econômicos e processos para chegar a zero resíduo. Isso deve se tornar um recurso retornável e trazer mais valor”, explica o economista indiano Pavan Sukhdev, que é embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Meio Ambiente e também é um dos principais nomes do mundo em sustentabilidade e economia de baixo carbono. Jorge Soto moderou debate entre Marina Grossi, Rachel Biderman e Pavan Sudhdev O modelo tradicional, que atende por economia linear, é bem conhecido: extrair o material da natureza, fabricar, utilizar e, por fim, descartar (jogar fora mesmo, como lixo). Só que, diante de um cenário de mudanças climáticas que alertam para a necessidade de transformações nos métodos de produção e consumo, essa realidade se mostrou insustentável.

“Precisamos fazer parte de uma economia que utilize materiais biológicos em cada um dos estágios em que isso for possível, onde haverá coleta de resíduos e também que vai resultar em empregos extras”, defende ele, que afirma que esse tipo de mudança também promoverá inclusão social. “Interesses como sustentar o consumo de energia e promover o acesso a mercados podem fazer com que serviços sejam fornecidos com custos mais baixos para o meio ambiente e para a sociedade”.

Nesse contexto, novos negócios, principalmente ligados à inovação, podem ser acrescentados aos movimentos da economia verde. E para isso dar certo, o diretor de Sustentabilidade da Braskem, Jorge Soto, defende que o setor empresarial tem um papel relevante. “E, no futuro, não haverá sustentabilidade sem formas inovadoras”, completou.

Jorge Soto foi moderador do painel Conferência do Clima: Como o Brasil Pode Ser um dos Líderes na Transição para Economia de Baixo Carbono. Além de Pavan, participaram Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), e Rachel Biderman, diretora do World Resources Institute (WRI), no Brasil.

Visão geral

Para a economista Marina Grossi, a economia circular é uma “tendência no mundo”. Ela defendeu que é preciso compreender sustentabilidade como algo “além de um rótulo”. Ela defende que a gestão dos negócios precisa integrar a busca por retornos financeiros, mas não só isso. Deve se preocupar com os impactos ambientais e sociais gerados pela atividade. “Não se trata de uma coisa que não faz sentido para os negócios. Significa que, além de ter um retorno financeiro, você pensa também no capital natural e no capital social. É preciso ter uma visão de longo prazo, um novo olhar sobre os negócios”, diz.

Dentro desse conceito, defende ela, estão de que nenhuma empresa pode ser sustentável sem olhar o ambiente em torno dela. “Nenhuma empresa pode obter sucesso dentro de um ambiente falido. Empresas que atuam em locais muito pobres, por exemplo, percebem isso em suas rotinas diárias”, lembra.

Rachel Biderman lembra que os impactos das mudanças climáticas atingem a vida na terra como um todo – por isso, o esforço para evitar o aquecimento deveria ser geral. Ela ressalta que é importante incorporar o assunto ao planejamento de todas as atividades. “Há uma grande discussão em relação a como resolver o problema sem parar o desenvolvimento. Mas há outra questão, que deveria vir antes desta: é preciso definir o que vai ser feito para evitar que a temperatura do mundo se eleve mais de 2ºC”, avisa, lembrando ser este um limite que não pode ser transposto.

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