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Diário da Série B: Qual a primeira impressão?


 

Leia quinto capítulo da saga do Vitória

  • Gabriel Galo

Publicado em 28/05/2019 às 14:11:00
Atualizado em 19/04/2023 às 20:06:04
. Crédito: Paulo Marcos / ACG

O empate entre rubro-negros em Goiânia apresentou alguma evolução, mas os mesmos problemas. Atlético-GO 1×1 Vitória.

***

Goiânia, 26 de maio de 2019

(Rodada 5 de 38)

Substituição em quem substitui

Perder para uma equipe que não vencia há 15 jogos, recém-rebaixada no estadual, em pleno Barradão só poderia trazer consequências. E trouxe. A bola da vez na limpeza aparentemente interminável do Vitória foi o técnico Claudio Tencati.

Com histórico pautado por 7 anos de trabalho no pequeno Londrina, o comandante chegou ao Barradão sabendo que o cenário seria o inverso do que tinha experimentado até então. Se no Paraná teve estabilidade e pouca pressão, desembarcou em Canabrava no meio do furacão e precisando de resultados imediatos. Era, neste sentido, uma aposta de alto risco.

Teve que sair.

Novo comandante

Para tomar o lugar de Tencati veio Osmar Loss. Chegou com um respaldo importante de construir uma identidade de jogo no Vitória. Podem mudar os técnicos, não muda o estilo de jogar futebol.

Esta é, pelo menos, a intenção. A realidade, no entanto, pode indicar uma potencial aposta tão problemática quanto a de Tencati.

Osmar Loss teve carreira longa e vitoriosa na base. E assumiu seu primeiro grande desafio profissional em 2018 no Corinthians. Assumiu credenciado pelo apoio incondicional de Carille, que seguia ao Oriente Médio. Era conhecido e respeitado pelo grupo. Mas falhou.

Foi demitido depois de poucos jogos. Este ano, dirigiu o Guarani em algumas rodadas do Paulista. Foi demitido, assim como fora também do Internacional.

Apesar do vasto currículo de formador, como técnico profissional não foi capaz de alcançar bons resultados. Mesmíssimo problema de João Burse, para ficar num prata da casa.

Ainda assim, vale esperar a chegada da Copa América e sua mais que bem-vinda pausa para entender como o time flui sob suas ordens.

Quem escala?

Goiás, em anos recentes, tem colocado sempre dois clubes revezando temporadas na primeira divisão. O Goiás, que subiu em 2018, e o Atlético-GO, adversário do domingo. Um oponente de respeito, campeão goiano que trazia na carteira 94% de aproveitamento no seu estádio em 2019.

O duelo de rubro-negros estaria fadado a tomar parte sob um sol divisível pra cada um e ainda sobrava troco de calor. Temperatura alta que já havia atrapalhado o juízo no jogo em Ribeirão Preto, na abertura do martírio da Série B.

Se por um lado Loss optou por um meio-campo mais seguro, com três volantes na contenção, por outro, inexplicavelmente, Ramon, Capa e Neto Baiano foram a campo como titulares.

Era necessária melhora demais para compensar o erro que já se formava na escalação original.

Melhora?

O começo de jogo do Vitória foi animador. Saindo bem para o jogo, trocando passes com consciência, chegando ao ataque com qualidade. E o bom começo foi premiado com um gol de escanteio aos 8 minutos, na testada precisa de Everton Sena.

Vitória na frente, 1 a 0.

A equipe continuou bem em campo, apesar de Neto Baiano, em tarde mais uma vez infeliz – importante que se entenda que esta é a regra das atuações do nosso 9.

(Parêntese para a consistência futebolística de Neto. Aos 5 minutos, fez valer seu primeiro movimento confuso característico: a falta de longe na barreira. É o verdadeiro carimbador maluco! Mais à frente, tratou de garantir o segundo movimento: cruzamento e falta no goleiro. Pra ganhar o 10, faltou apenas o seu melhor movimento: faz o pivô, perde a bola, se joga pedindo falta e levanta reclamando com o juiz. Consistência futebolística é isso também: consistentemente ruim.)

A partir dos 25 minutos, no entanto, a postura do Atlético-GO mudou. Marcou mais em cima, fazendo pressão. E como acontece todas as vezes, o Vitória sentiu.

Recuou e ficou inoperante ofensivamente. Compreensivelmente, a cabeça da área marcava mal. Era, pois, o primeiro jogo da formação. Os espaços foram se abrindo. Do lado esquerdo da defesa, a Avenida Capa, que quando cruza com a Rua Ramon, lascou-se tudo. Ataque do Atlético Goianiense foi perigo constante à defesa do Leão (Foto: Paulo Marcos / ACG) Ronaldo, o goleiro reintegrado à titularidade depois das falhas em sequência de seus três substitutos, começou a aparecer como grande nome do time. Sinal de que algo não ia bem. Questão de probabilidade: quanto mais chances ele salva, maior a probabilidade que uma passe.

O intervalo chegou com um certo alívio da pressão um tanto desordenada do Atlético-GO.

Esse filme eu já vi

Nem bem o segundo tempo tinha começado, a tragédia anunciada se fez.

Jarro Pedroso, arisco, pedalou pra cima de Ramon, que abriu o compasso e cometeu pênalti – duvidoso para alguns, certeiro para outros, mas impossível de se dizer inexistente.

Existem algumas certezas nessa vida. A morte, claro, é uma delas. Impostos, diz o economista, é outra. A falha de Ramon se enquadra nas leis universais da certeza irrevogável.

Na boa cobrança, o empate. Atlético-GO 1×1 Vitória. De pênalti, o gol de empate do time da casa (Foto: Paulo Marcos / ACG) A todos vinha na garganta o gosto amargo do déja vù. De que já se sabia o final da história. Porque o Vitória, sim, é o time da virada. Sofreu contra Botafogo-SP, Guarani e São Bento e foi vencedor contra o Vila Nova. Não podemos dizer que não há emoção em jogos do rubro-negro baiano.

Mas dessa emoção estamos todos cansados.

Quase

Não há castigo suficiente para quem mantém Ramon, Capa e Neto Baiano em campo e ainda por cima manda pro jogo o tal do Ítalo, glorioso “quem?” que mostrou que bola não é muito com ele. Só a intercedência superior para prover resgate.

E ela veio pelo assoprador de apito.

Aos 38 do segundo tempo, uma falta dura, mas para amarelo, virou vermelho direto pro goiano.

O um a mais mudou o cenário do jogo.

Ruy, meia que tinha entrado no lugar de Léo Gomes, encontrou um pouco mais de espaço para jogar. O Vitória voltou a atacar, embora o lado esquerdo de sua defesa se esforçasse para estender tapete vermelho ao ataque atleticano.

Foram chances perdidas lá e cá, num jogo que passou a ser surpreendentemente agradável de se ver.

Até que aos 49, no apagar das luzes, quando todo lance é definitivo, a bola sobra limpa para Marciel. Ele chuta colocado, com força. Ela sobe em direção ao ângulo esquerdo do goleiro Kozlinksi.

Apreensão. Expectativa.

Que desfecho maravilhoso para assegurar três pontos valiosos! A retomada contra um adversário forte, fora de casa, fugindo do Z4.

Hoje sim! Hoje sim!

Mas goleiro existe no futebol para ser o anticlímax. É o vilão do grito de gol, do êxtase. Disse certa feita em sua coluna Bate-Bola, na Tribuna da Imprensa, Don Rossé Cavaca, pseudônimo de José Martins de Araújo Júnior (1924–1965):“Desgraçado é o goleiro, até onde ele pisa não nasce grama”.

José Martins de Araújo Junior, jornalista brasileiro (1924-1965).Kozlinski voou, espalmou a bola com endereço certo e cortou no meio o grito de gol que já era realidade.

Hoje não…

Valeu pelo ponto e por algo mais

Foi pouco tempo de bom futebol. O bom começo, o final em superioridade numérica (ou não, afinal, quem joga com Neto Baiano, joga com um a menos). O recheio foi sufoco.

Pode-se, ao fim e ao cabo, aprender boas lições com este empate.

Vale pelo ponto conquistado fora de casa contra um oponente com altíssimo aproveitamento e que briga na parte de cima da tabela.

Vale para que não reste dúvida de que Ramon, Capa e Neto Baiano não têm condições de jogo. E que se precisa de um lateral direito de ofício.

Vale para que se treine saída de bola sob pressão – não é possível que sempre o time seja acuado desse jeito.

Vale até para interromper o ciclo de viradas que maltratava o juízo de todo mundo.

O trabalho de Osmar Loss está apenas começando. O caminho é longo. O temerário Z4 continua sendo realidade. É fundamental ter em mente que algo palpável em melhoria efetiva vem só depois da pausa para a Copa América. Até lá, vai ser sofrido. Principalmente se insistir em Ramon, Capa e Neto Baiano. Com estes, não há possibilidade de bom trabalho.

Gabriel Galo é baiano, torcedor do Vitória, administrador e escritor, cronologicamente falando. É autor de “Futebol é uma matrioska de surpresas: Contos e crônicas da Copa 2018”, disponível na Amazon.

O Diário da Série B é uma série de 38 capítulos, escritos após cada jogo do rubro-negro. Texto originalmente publicado no site Papo de Galo.