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Dona Arlette Magalhães: vida marcada pela discrição e solidariedade


 

Primeira-dama do estado em três ocasiões, ela evitava os holofotes e primava pelos trabalhos sociais

  • Alexandre Lyrio

Publicado em 07/10/2017 às 22:58:00
Atualizado em 17/04/2023 às 16:14:06
. Crédito: Arquivo/CORREIO

Discrição e simplicidade foram duas características que lhe acompanharam ao longo da vida, mesmo quando a popularidade do marido atingiu o mais alto grau. Embora casada com o mais influente político baiano,  Arlette Maron de Magalhães mantinha distanciamento regulamentar do universo em que ACM gravitava desde que foi eleito deputado estadual em 1954. No entanto, era à esposa que ele recorria antes de selecionar novas amizades e firmar alianças políticas.

Nas conversas com os amigos mais próximos, ACM costumava elogiar a capacidade de Dona Arlette em separar joios e trigos. “Se sua mulher não gostar de alguém, é sinal de que a pessoa não presta. E a minha me ajuda bastante nisso”, dizia. Para frequentar a residência do casal, era necessário passar sem ranhuras pelo funil da esposa, conhecida pela cautela em escolher quem podia ou não desfrutar da intimidade familiar, traço que remonta a sua origem árabe.

Filha de Carlos e Odete Maron, imigrantes libaneses que desembarcaram no Sul da Bahia no início do século XX, Arlette nasceu em Itabuna no dia 15 de novembro de 1930. À época, os Maron já haviam se consolidado como uma das mais respeitadas e ricas famílias de cacauicultores da região, donos de grandes fazendas e imóveis. Para aprofundar os estudos, foi morar em Salvador, onde conheceu o futuro marido, ainda estudante da Faculdade de Medicina da Ufba.  Católica praticante, Dona Arlette encontrou o papa João Paulo II na visita do pontífice à Bahia (Foto: Arquivo/CORREIO) Apaixonados, se casaram em 1952, mesmo ano em que o jovem Antonio Carlos Magalhães se formou médico. Ela rica, ele de classe média e no início de carreira. A princípio, moraram na casa dos pais de Arlette, localizada na Penha, então área nobre da Cidade Baixa. Anos depois, ACM contou aos amigos mais próximos que, inicialmente, o sogro não enxergava nele um futuro promissor, ao contrário do que pensava a filha.

Nos anos seguintes, Arlette foi testemunha da ascensão do marido, com quem teve quatro filhos: Antonio Carlos Júnior, Teresa, Ana Lúcia e Luís Eduardo, os dois últimos já falecidos. Apesar da visibilidade de ACM, ela manteve o temperamento discreto e avesso a badalações. Sempre evitou envolvimento com política e holofotes, mesmo nas três vezes em que foi primeira-dama da Bahia.

Embora fosse rica de berço e casada com uma personalidade central da República, Dona Arlette nunca deu espaço para o luxo ostensivo. Vestia-se com elegância, mas sem vaidades comuns aos altos círculos de poder. 

Preferia cuidar da casa e dos filhos, organizar a rotina pessoal do marido, ajudá-lo a tomar decisões em momentos importantes e receber amigos, como o casal Jorge Amado e Zélia Gattai. Um de seus hobbies prediletos era assistir às novelas das 20h com ACM, fã não assumido dos folhetins televisivos. 

Apesar da timidez de Dona Arlette diante de pessoas com as quais não tinha intimidade, os amigos a descrevem como uma mulher extremamente simpática, cordial e generosa. Para os familiares, era também doce, amável, presente, atenta e hábil conselheira. Católica praticante, ia às missas todos os domingos e tinha devoção fervorosa por Santo Expedito, o das causas urgentes e justas.

Como presidente das Voluntárias Sociais, deu vazão a outra marca de seu caráter: a solidariedade, expressa através do apoio aos órgãos assistenciais da Igreja e entidades da sociedade civil, sempre sem alarde. Até a morte, continuou fazendo o que mais a realizava: ajudar o próximo sem pedir qualquer aplauso.