Állex Leilla: a granel

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Publicado em 22 de outubro de 2015 às 07:38

- Atualizado há 10 meses

Recentemente, o governo estadual divulgou uma lista de professores que, sendo de regime de dedicação exclusiva, estariam  acumulando cargos em outras instituições. Para comprovar o crime, foram cruzados dados do INSS. A lista, estampada na mídia e redes sociais, virou bochicho nas universidades estaduais e provocou posts maldosos de alunos e pantomimas de apresentadores de TV. Foi uma oportunidade para comprovarmos a eficácia da assessoria de comunicação do Estado da Bahia: para onde quer que olhássemos, estava a notícia.A lista, porém, é uma farsa: os recebimentos estão garantidos pelo estatuto dos servidores estaduais. São legais, oriundos de direitos autorais, serviços prestados ao Enem, Enade ou aos cursos de capacitação de professores promovidos pelo próprio estado. Um professor-poeta, premiado nacionalmente, foi incluído porque recebeu R$ 500 da ABL, pela publicação de seus poemas numa revista. Os professores foram achincalhados injustamente na mídia, mas ninguém no governo foi advertido pelo erro. No dia a dia das Uebas, essa é só mais uma das inúmeras provas de que a educação em nossa terra é um fracasso: moral, ético, administrativo, cultural, social e pedagógico. Obviamente, o fracasso não é obra desse governo — embora ele faça sua parte para engrossá-lo —, mas fruto da nossa equivocada relação com o conhecimento. A crise nas Uebas é complexa e envolve problemas como falta de verbas, corrupção, negligência com os bens públicos etc., entretanto, a facilidade com que aceitamos a farsa da lista revela a precariedade da nossa situação.Há males como violência, corrupção, impunidade e miséria, mas nada é mais infeliz do que o cenário da educação no Brasil. Em nossa cultura, o saber não é fundamental, e se a saúde é administrada a quilo, a educação é a granel. Greves manipuladas por brigas partidárias em que nós, docentes, viramos fantoches, paralisações e portões fechados a qualquer momento, discursos anacrônicos, agressões múltiplas, preguiça mental, hipocrisia, desvontade: são os valores que sustentam o cotidiano das Uebas. Falta verba, mas falta também honestidade conosco: somos uma gente a quem desimporta o conhecimento. E isso vai do cidadão que ocupa uma vaga numa instituição pública sem se esforçar um milímetro para aprender, passa pelo docente que está professor, até os pseudopedagogos que elaboram planos e diretrizes de ensino inúteis. É um teatro de mau gosto, onde há espaço para listas, farsas, marxismos, liberalismos e toda sorte de estupidez. Na Uefs, uma piada ilustra a natureza moral da crise: dizem que os gatos, habitantes do campus, fecharão os portões reivindicando melhores rações. O chiste é óbvio: qualquer questão periférica é mais relevante em nossas universidades do que nosso real interesse pelo saber.

* Állex Leilla é escritora, professora e coordenadora do Curso de Especialização em Estudos Literários da Universidade Estadual de Feira de Santana