Horacio Hastenreiter Filho: Tirei o dia para os pequenos

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Publicado em 1 de outubro de 2015 às 21:52

- Atualizado há 10 meses

Como na maioria dos domingos, hoje acordei e me arrumei para sair de casa. Geralmente, nesse dia gosto de passar na banca do meu amigo Jaílson e pegar as minhas revistas semanais favoritas. Cheguei à barraca antes das 9 horas, dei uma olhada nas capas das revistas e, seguindo as minhas predileções políticas, selecionei umas três para comprar, além do jornal local do dia. Outro cliente da banca, de posições políticas antagônicas, pegava distraidamente outras publicações, enquanto reparava na minha escolha, à medida que Jaílson somava os valores das revistas. Era um senhor educado, mas não se conteve em interpelar sobre as minhas compras, curioso por entender meus critérios de escolha de publicações. Ao contrário de muitos que não toleram a diferença, no entanto, meu interlocutor pareceu-me genuinamente interessado em saber o que me atraía naquelas publicações que ele rejeitava. O papo durou cerca de 30 minutos, com intervenções consistentes e nada desprezíveis de Jaílson que, acompanhando a civilidade da discussão, não se furtou a se posicionar do meu lado. Eu e o curioso senhor não mudamos nossas posições, mas nos cumprimentamos civilizada e respeitosamente ao nos despedirmos.

Munido do jornal, passei na padaria da esquina da minha rua e ao sentar na pequena mesa elevada, após saudar a Rita que atende aos pedidos de café da manhã, precisei apenas balançar levemente a minha cabeça, após o seu questionamento, para receber, cinco minutos depois, o meu suco de melancia de meio litro e os dois sanduíches mistos de queijo com peito de peru no lugar do presunto. Tampouco precisei dizer se era crédito ou débito na hora de entregar o cartão de crédito para efetuar o pagamento. A Rita já sabia.

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A parte mais interessante da programação desse domingo, entretanto, ainda estava por vir. A duas quadras do meu apartamento foi aberto um sebo que, além de livros, dispunha de CDs, DVDs e LPs usados. O dono desenvolvera uma espécie de market place virtual onde casava demandas e ofertas dos seus clientes. Ao me ver entrar no recinto, o seu Luiz, com um sorriso de orelha a orelha me disse:

- Você não vai acreditar no que tenho para você. Tirou o LP do festival da Record de 1967 de uma sacola e me entregou, parecendo-me mais feliz até que eu, ao me ver sorrir por ter atendido um pedido que resignadamente vinha monitorando todos os domingos, há mais de seis meses. Hoje não tive tempo para falar do Santos com o seu Luiz. Domingo no Parque, Roda Viva e Ponteio me esperavam no toca-discos.

Andando pela rua, senti uma alegria no espírito, ao perceber que minhas três diferentes identidades nos três estabelecimentos que acabara de passar me faziam, contraditoriamente, me sentir um sujeito mais uno e integrado à sociedade. Talvez Margaret Thatcher não estivesse certa. As minhas recentes experiências de compra me diziam que, muito provavelmente, existe algo que nos une que vai além do indivíduo e da família. Alguma coisa que faz com que o jornaleiro conhecido te apelide de Caro Amigo, a menina da lanchonete comente com a colega: - Lá vem o Homem Melancia! e o senhor do sebo, se permita me chamar de Alegria, Alegria. Certamente não somente por conta de Caetano Veloso e da sua participação no álbum do Festival da Record, mas pela felicidade que o terceiro pequeno comerciante do dia percebeu no meu rosto quando tive o meu pedido atendido.

Chegando em casa, antes do almoço, outros pequenos já me demandavam. Afinal, como disse no início, não fora a manhã, mas sim o dia que tirei para os pequenos. Teria que esperar mais um pouco para botar meu disco na vitrola. (Vitrola? Ih rapaz, acho que me entreguei!)

*Horacio Hastenreiter Filho é gerente da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae Bahia