Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Alerta na sua mesa: veja os 10 alimentos com mais resíduos de agrotóxicos no Brasil

Uma a cada cinco amostras analisadas pela Anvisa usava pesticidas proibidos ou tinham índices maiores do que o permitido

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 08:07

Conheça os 10 alimentos com maior percentual de resíduos de agrotóxicos, segundo a Anvisa
Conheça os 10 alimentos com maior percentual de resíduos de agrotóxicos, segundo a Anvisa Crédito: Pexels

Da casca ao armazenamento, das folhas aos ultraprocessados, o risco está lá: boa parte dos alimentos mais comuns na mesa dos brasileiros têm grandes riscos de ter mais resíduos de agrotóxicos do que o máximo permitido pelas autoridades.

O top 3 de campeões de resíduos de agrotóxicos se destaca - especialmente porque um deles traz a fruta que é a segunda mais consumida no Brasil - mas toda a lista traz um sabor amargo. O pepino, a laranja e a couve lideram o ranking dos alimentos com o maior número de amostras com resíduos de pesticidas além do limite autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

1º) Pepino. Das 217 amostras de pepino analisadas, 99 foram consideradas insatisfatórias - o que corresponde a 45,62% do total. Dentre as amostras com problemas, 66 tinham resíduos não permitidos para cultura, 21 tinham mais do que o Limite Máximo de Resíduos (LMR) e 12 tinham tanto um quanto o outro. Das substâncias, 16 amostras com resíduos de tiametoxam acima do permitido. por Pexels

Os resultados fazem parte do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), cujo relatório referente ao ano de 2024 foi divulgado em dezembro de 2025. O documento faz parte do Plano Plurianual 2023-2025 e analisou 3.084 amostras de 14 alimentos: abobrinha, aveia, banana, cebola, couve, laranja, maçã, mamão, milho, pepino, pera, soja, trigo e uva. Os itens foram coletados de estabelecimentos varejistas de 88 municípios, inclusive da Bahia.

De todo o universo do estudo, 2.448 (79,4%) amostras foram consideradas satisfatórias quanto aos agrotóxicos pesquisados, ainda que apenas a minoria dessa parte não tivesse resíduos de pesticidas (791, equivalente a 25,6%). Em 1.657 (53,7%), os agrotóxicos estavam lá, mas com resíduos com concentrações iguais ou inferiores ao índice de Limites Máximos de Resíduos (LMR).

Por outro lado, uma a cada cinco amostras - mais precisamente, 636 (20,6%) - foram consideradas insatisfatórias. Isso inclui desde usar agrotóxicos proibidos ou contar com índices maiores do que o permitido pela agência.

"O que chama atenção nesse resultado é que o segundo alimento mais contaminado é a laranja, que é a segunda fruta mais consumida no Brasil. Um dos agrotóxicos que mais contamina, infelizmente, é o carbendazim, proibido no Brasil", alerta a nutricionista Neuza Miranda, professora da Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (Ufba), mestra em Ciência de Alimentos e especialista em Toxicologia. Ela é a representante do Fórum Baiano de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, Transgênicos e Pela Agroecologia (FBCA), presidido pelo Ministério Público do Estado (MP-BA).

A entidade foi criada em 2012 e articula órgãos públicos, universidades e entidades da sociedade civil. A atuação vai desde o recebimento de denúncias até refletir sobre medidas para reduzir o impacto dos pesticidas. Na avaliação da promotora Luciana Khoury, coordenadora geral do fórum, o uso dos pesticidas já foi tão naturalizado que é como se estivessem sendo desconsiderados os efeitos negativos na saúde.

"Nós identificamos, pelo fórum, que existe uma grande utilização de agrotóxicos, sim, na Bahia, e existe uma preocupação muito grande pela necessidade de ampliação dos controles e de monitoramento", explica a promotora.

Riscos

No entanto, há outro problema: o próprio cálculo do que é permitido para a ingestão diária aceitável considera um padrão de um indivíduo adulto com 60 quilos em países em desenvolvimento. "Acontece que nós sabemos que a laranja, o pepino, a couve, a uva, a maçã e outros são frutas e vegetais que não são consumidos só por adultos de 60 quilos", pondera a professora Neuza Miranda, da Ufba.

Segundo ela, organismos sensíveis, como crianças e mulheres gestantes, são alguns dos grupos em que mesmo o aceitável oferece riscos. "O valor é para o indivíduo com peso médio de 60 quilos. O resto da população não cabe nessa normativa. O Para precisa ser feito, porque é o dado que a gente tem. Mas a gente também precisa melhorar e trazer dados que mostrem segurança para crianças, gestantes, idosos, lactantes", diz.

Qualquer produto químico tem algum risco à saúde, dependendo da forma como for usado, de acordo com o presidente do Conselho Regional de Química da 7ª Região (CRQ), Antônio César de Macedo. Ele destaca que os agroquímicos são produtos com toxicidade muito alta, geralmente compostos por substâncias cloradas ou nitrogenadas, o que pode representar uma combinação perigosa.

"Existe a possibilidade de minimizar esses efeitos, como lavar frutas e verduras em água corrente, esfregar com escova macia as cascas e remover as sujeiras. É possível usar solução de vinagre ou bicarbonato de sódio para algumas substâncias. Isso minimiza, mas não vai garantir 100% de segurança", admite.

Ele explica que a proporção da solução deve ser de uma parte de vinagre para três partes de água ou uma colher de bicarbonato para um litro de água. Os vegetais devem ficar de molho por cerca de 20 minutos. É possível usar as soluções já prontas e vendidas para isso nos mercados, desde que, ao conferir o rótulo, a pessoa confira que a empresa está registrada e tenha um responsável técnico registrado no CRQ. "Mas o ideal é usar alimentos mais naturais, a exemplo das culturas da agricultura familiar".

Insegurança

A médica nutróloga Suzzana Viana, que tem formação em gastroenterologia, destaca que as consequências dos agrotóxicos incluem neurotoxicidade (alterações cognitivas, cefaleia, tontura e convulsões em casos graves), além de provocar desregulação hormonal, risco reprodutivo (infertilidade, alterações hormonais e riscos gestacionais) e imunotoxicidade, com maior vulnerabilidade a infecções. Exposições repetidas levam ao aumento do risco de câncer (em especial, linfomas e leucemias), além de sobrecarga hepática e renal, porque são os órgãos responsáveis pela detoxificação.

"Os impactos dependem da substância e da dose. Se a exposição é pontual, pode causar intoxicação aguda se o resíduo estiver muito acima do permitido. Sintomas comuns são náusea, vômitos, dor abdominal, tontura, cefaleia. Se a exposição for crônica, com pequenas quantidades ingeridas repetidamente, há maior risco de alterações hormonais silenciosas, inflamação crônica, doenças metabólicas e câncer a longo prazo", alerta.

Os resíduos agrotóxicos não estão presentes apenas nos alimentos in natura. Há riscos até mesmo em alimentos ultraprocessados, já que usam itens como trigo e soja. Em 2024, um estudo do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) identificou traços de pesticidas em amostras de 12 de 24 alimentos analisados, incluindo biscoitos do tipo maisena, presunto cozido, macarrão instantâneo, empanados, bolo pronto e hambúrgueres congelados (até numa versão à base de plantas).

"Não existe uso seguro de agrotóxicos, como temos visto em vários estudos de pesquisadores importantes. Por isso, defendemos que seja repensada essa regulação dos agrotóxicos, porque é possível ter o cultivo de alimentos, inclusive em larga escala, com práticas agroecológicas amplamente conhecidas. A saída é a agroecologia como modelo de agricultura que respeita o ambiente, a vida animal e a vida humana", reforça a professora Neuza Miranda, da Ufba. Alguns dos exemplos mais conhecidos da agroecologia são os sistemas agroflorestais, as hortas comunitárias, a rotação de culturas, os bancos de sementes e o controle biológico de pragas.