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Arroba do boi gordo dispara e se aproxima de R$ 350 na Bahia; veja os impactos no consumo

Cotação em Feira de Santana atinge maior nível em seis anos, enquanto indicador nacional renova máxima histórica

  • Foto do(a) author(a) Donaldson Gomes
  • Donaldson Gomes

Publicado em 12 de abril de 2026 às 05:00

Maior parte do aumento na arroba do boi não deve ser re- passada para o consumidor final Crédito: Sora Maia/CORREIO

A arroba do boi gordo está em alta. Em Feira de Santana, um dos principais mercado da Bahia, a cotação do produto se aproxima dos R$ 350 – o que equivale ao maior valor nos últimos seis anos, na série histórica de cotações da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb), que estima um rebanho de aproximadamente 15 milhões de cabeças no estado. No sistema do Cepea/B3, que mensura os preços no estado de São Paulo, mas serve como parâmetro para o mercado nacional, a cotação na última quinta-feira (dia 9) era de R$ 365,45, também o maior patamar registrado, desde 1997.

Para entender o que está acontecendo com o preço do produto, que é essencial e está presente na mesa de quase todos os brasileiros, olhar para questões que vão desde o centenário ciclo da pecuária, passam por fatores climáticos, mas também são influenciados pelo cenário geopolítico global. Talvez a melhor notícia para quem está lendo este texto é que dificilmente a elevação de quase 20% no valor médio da arroba do boi gordo nos últimos doze meses vai chegar integralmente à mesa dos baianos, apontam aqueles que conhecem este mercado.

Em doze meses, a inflação da carne, medida pelo IPCA, foi de 5,68% – bem menor que a alta da arroba.

“Este tipo de variação na cotação do animal vivo dificilmente chega até o consumidor final, pela própria dinâmica da economia. O Brasil é um grande produtor de frango e de suínos e isso permite ao consumidor fazer a substituição e evitar uma alta inflacionária”, acredita Humberto Miranda, que além de presidir a Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb) também é pecuarista.

O presidente da Faeb destaca a importância histórica e socioeconômica da pecuária para o Brasil. Ele lembra que a interiorização do território brasileiro começou com a abertura de áreas para pastagens de gado. “Do ponto de vista econômico, é um dos maiores VBPs (Valor Bruto da Produção) do agro, mas não podemos esquecer também do papel social que a pecuária leiteira exerce”, lembra.

Maior parte do aumento na arroba do boi não deve ser repassada para o consumidor final por Sora Maia/CORREIO

“A produção de leite está presente em quase todos os municípios da Bahia. Até em Salvador, há poucos anos, havia uma fazenda produzindo leite”, lembra. “A pecuária leiteira garante recursos todos os dias para pequenos produtores e movimenta uma atividade econômica que envolve ainda o transporte do produto”, completa.

Humberto Miranda lembra ainda que o cenário de conflito no Oriente Médio trouxe uma pressão inflacionária para todo o setor agropecuário. De acordo com dados da CNA, a alta nos preços do óleo diesel, usado em diversas máquinas e equipamentos, elevou os custos de produção dentro da porteira entre 5% e 8%.

O fator “vaca”

Para entender o que está acontecendo com os preços da arroba do boi gordo, é preciso entender como funciona o “ciclo da pecuária” e aqui vai um spoiler: é a quantidade de vacas que determina a cotação da carne no mercado.

O mercado que determina o preço do boi no Brasil nasceu há quase 100 anos e, a grosso modo, funciona assim: quando o preço dos animais está muito baixo, o pecuarista vende as vacas para o abate, o que reduz a oferta de animais nos anos subsequentes; com menos vacas, nascem menos bezerros e a oferta no mercado diminui, o leva o preço a subir. Todo este processo dura entre cinco e sete anos. “Boi não é galinha, que em 35 dias, está no ponto do abate. Quando um pecuarista adquire um animal, estamos falando de três anos, às vezes até mais tempo, com o animal”, destaca o pecuarista Murilo Xavier.

Mas a explicação para o atual patamar de preços do boi gordo vai além do momento de alta no ciclo pecuário. Com aproximadamente 30% da carne brasileira indo para o mercado externo, questões internacionais são fundamentais para a definição de preços. Problemas climáticos nos Estados Unidos fizeram o país demandar bastante carne brasileira, mesmo com as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump. Do outro lado do mundo, a China, que estabeleceu limites para a importação de carne do Brasil no final do ano passado, anunciou que registrou casos internos de febre aftosa recentemente, o que é lido por produtores brasileiros como um sinal de que é possível acontecer algum tipo de afrouxamento nas salvaguardas.

Fechando a equação, entram fatores de sazonalidade e o clima. Existem períodos do ano em que é mais fácil engordar o gado – no frio o bicho queima mais calorias para se manter aquecido. Há também fatores culturais, como é o caso da quaresma, em que muita gente reduz o consumo de carne vermelha. Mas neste grupo de variáveis, a mais importante costuma ser o clima e no segundo semestre deste ano está prevista a chegada do fenômeno El Ninõ, que normalmente leva seca às áreas de pastagens na Bahia.

O pecuarista Luciano Andrade, corretor de compra e venda do GPB – Grupo Pecuária Brasil, é um dos grandes conhecedores da atividade aqui na Bahia. Ele explica que é muito importante fazer uma diferenciação entre o valor nominal da arroba e o valor econômico. “Dizer que o boi bateu o recorde de valor nominal é impactante, mas isso não significa que se atingiu um teto de valor econômico”, afirma.

Segundo ele, um dos principais impulsos para que muitos produtores tenham “descartado” um volume maior de animais nos últimos meses é o mercado de crédito. Até 2021, as taxas de juros eram mais interessantes para quem atua em um mercado que possui margens muito curtas. “A atividade é de baixa rentabilidade, porque o processo de produção é muito demorado. Do momento em que se pensa em fazer um boi gordo até isso se tornar realidade, vai demorar de três a quatro anos”, calcula.

“As taxas de juros no mercado saltaram de algo por volta de 8% para 12% e até 18%, em alguns casos. O efeito disso é que todas as linhas de crédito disponíveis para a pecuária despencaram em adesões. A que menos caiu, reduziu 18%, mas houve casos de 90%. Também por isso, a quantidade de pedidos de recuperação no agro, de modo geral, é a maior de todos os tempos”, lembra. “Um preço nominal elevado não reflete o cenário econômico”.

Segundo Luciano Andrade, o momento do mercado é de alta pelo ciclo, mas de preços ainda mais baixos por questões de sazonalidade, o que para ele indica novas altas no futuro. “O movimento atual deve perdurar por mais doze meses, quando esperamos um aumento na oferta do gado e a situação comece a se normalizar”, projeta. “Antes disso, no segundo semestre, vai ter um ‘super El Ninõ’, que influencia muito aqui no Nordeste, normalmente diminui muito os rebanhos, porque os fazendeiros vendem para proprietários em outras regiões do país”, explica.

“O retorno das chuvas e a perspectiva do mercado chinês passar a comprar de forma aberta indica uma grande possibilidade de novos aumentos de preços”, afirma.

Competição internacional

O pecuarista Beto Falcão, presidente da Cooperfeira, lembra que o boi brasileiro segue como um dos mais competitivos do mundo, mesmo com a alta recente dos preços. “Nos Estados Unidos, a arroba é 100% mais cara que aqui, na Argentina, está 30%, e no Uruguai, 28%. O nosso boi é imbatível no mercado internacional”, afirma.

Segundo ele, os produtores vêm enfrentando altas de custos por conta da guerra no Oriente Médio. “O transporte dos produtos aumentou, sair da fazenda para o frigorífico já ficou mais caro. Outra coisa, usamos madeira legalizada em nossas caldeiras, que vem do Sul da Bahia e da região de Alagoinhas, e este custou também aumentou, por conta do frete”, exemplifica. “Estamos gastando muito mais para produzir”, afirma.

Beto Falcão lembra ainda que a pecuária moderna está mais parecida com a agricultura no que diz respeito ao uso de defensivos e insumos para melhorar a qualidade das pastagens. “Os fertilizantes, os adubos, tudo está mais caro, principalmente o que vem da Rússia e do Oriente Médio”, explica.

Agrônomo e pecuarista, Antonio Balbino Neto acredita que em dois anos o cenário de preços será diferente. “O caminho natural, com os preços em um patamar melhor, é que as fazendas passem a reter mais as fêmeas para ter mais vacas prenhas. Com isso, em dois anos, o mercado estará lotado de bezerros. Este processo de reposição é demorado”, explica. “Até lá, o mercado brasileiro vai se manter aquecido, porque será muito demandado, já que temos a carne mais barata do mundo”.

Além da movimentação natural do ciclo pecuário, outro fator que tem potencial para estimular o aumento do rebanho no país é a modernização dos processos produtivos e a oferta de novos tipos de alimentos para os animais. Balbino, que tem áreas na região Oeste da Bahia, explica que é cada vez mais comum ver nas fazendas de gado o uso de técnicas que antes só eram vistas em áreas dedicadas à agricultura. “O produtor hoje usa herbicida, faz currais com mais funcionalidades, investe em pastagens, cercas e muita tecnologia”, diz.

Ele lembra ainda do uso cada vez mais intenso do DDG, um resíduo que surge após o uso do milho para a produção de etanol. Este subproduto é muito rico em proteína e tem sido usado como alternativa, ou um complemento, para o farelo de soja, diz. “Isso vai melhorar muito o cenário. Aqui no Oeste temos muita facilidade de aproveitar isso”, afirma.