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Saulo Miguez
Publicado em 30 de novembro de 2025 às 05:00
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. A OMS relata ainda um crescimento significativo entre jovens, sendo atualmente a segunda causa de morte entre indivíduos de 15 a 29 anos. Entre os anos de 2010 e 2016, a taxa global de ocorrências diminuiu 9,8%, com reduções que variam de 19,6% na região do Pacífico Ocidental a 4,2% no Sudeste Asiático. O único aumento ocorreu na Região das Américas, com acréscimo de 6% no mesmo período. >
No Brasil, segundo o último boletim epidemiológico nacional (2024), houve um crescimento preocupante no número de suicídios, em ambos os sexos e, especialmente, entre as juventudes. O Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) aponta o suicídio como segunda principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos e como a quarta principal entre jovens de 20 a 29.>
Diante desse cenário, é vital falar sobre o problema de maneira contextualizada e elucidativa, refletindo sobre as reais causas do problema e mostrando que essa questão envolve muito mais do que o indivíduo que atenta contra a própria vida. Essa é a proposta do livro Suicídio, bioética e neoliberalismo - entre as éticas da vida e as políticas de morte, da autora Luana Lima publicado pela EdUfba.>
Psicóloga e bacharela Interdisciplinar em Humanidades pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e doutora e mestra pela Universidade de Brasília (UnB), Luana destaca que a obra visa produzir uma análise bioético-política acerca do fenômeno do suicídio, desde o estatuto colonial aos regimes neoliberais no Brasil, que compreendem os modos de subjetivação, de vida, de morrer e de matar-se. O livro é finalista do Prêmio ABEU, da Associação Brasileira de Editoras Universitárias, na categoria Ciências Humanas. A cerimônia de entrega ocorrerá em 25 de novembro, no auditório da Academia Paulista de Letras.>
Em conversa com o CORREIO 24 Horas, Luana fala sobre a importância de se encarar o suicídio como um problema real, multifatorial e histórico de saúde pública, faz alertas sobre as demandas criadas por campanhas inconsistentes no Setembro Amarelo e destaca que toda a sociedade, para além das autoridades públicas e profissionais da saúde, deve se engajar no trabalho de prevenção. >
Na apresentação do seu livro, você fala que ainda na Universidade se aproximou da finitude em suas diversas facetas. Como se deu essa aproximação em termos práticos e em relação ao seu sentimento?>
Eu era estudante de Psicologia. Em uma disciplina de Psicologia Hospitalar, uma professora convidou a coordenadora do Núcleo de Prevenção do Suicídio e foi ali que eu conheci a instituição, que funciona em um anexo do Hospital Roberto Santos. É um dos poucos serviços públicos de prevenção do suicídio no Brasil. Fiquei muito encantada com aquela aula, mas foi uma aula isolada. Não tínhamos, na época, qualquer disciplina temática. Isso tem mudado, mas os cursos de saúde, de modo geral, não oferecem isso na formação. A gente sabe que existem saberes de diversas áreas que trabalham com o tema, direta ou indiretamente, mas há uma ausência total nas formações.>
Já tinha perdido alguém próximo, na adolescência, por suicídio. Então era um tema que de alguma maneira me inquietava. Fiz o processo seletivo e fiquei um ano nesta instituição e nunca mais larguei o osso. Quando a gente fala de suicídio, a gente fala mais da vida do que da morte. Esse foi o primeiro aspecto que me capturou, esse sofrimento muito silenciado. Foi aí que me encantei verdadeiramente em pensar como a gente pode produzir vida sobretudo em políticas de morte.>
Antes de fazer Psicologia, fiz bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, isso também me ajudou a pensar o suicídio para além da perspectiva clínica e da psicologia. Acabei fazendo o mestrado e o doutorado em bioética, que também é uma área interdisciplinar, fiz alguns trabalhos de pesquisa e na saúde coletiva e esses múltiplos olhares me deram uma perspectiva mais integrada e totalizante do suicídio. Inclusive, me ajudaram a me distanciar dessas perspectivas hegemônicas que colocam o suicídio como uma denúncia sobre o sofrimento do sujeito e o transtorno mental, que ainda é muito atrelado.>
Temos ainda a perspectiva do suicídio como fruto de um transtorno mental, ou de um diagnóstico psicopatológico. Então, esses instrumentos me permitiram um olhar mais politizado do ato para mostrar sobre o que o suicídio diz a respeito nós, não sobre o indivíduo. Sobre as nossas formas de socializar, se relacionar, de viver e morrer.>
Esse livro traz essa perspectiva do suicídio como relacional. Eu gosto muito de uma metáfora de James Staples em que ele compara o suicídio a uma dança de duas ou mais pessoas. Ele debate como as nossas formas de se movimentar têm efeito sobre os outros. A gente precisa pensar que o sofrimento é produzido nas relações, por isso a gente nomeia isso como sofrimento sociopolítico. É a partir dessa relação com os outros que a gente vai potencializar a dor, o sofrimento, a vida ou a morte. O suicídio, ainda que diga muito daquele sujeito, diz sobre o sujeito da relação. É importante pensar nessa interdependência.>
Você analisou marcadores de raça, classe, gênero e orientação sexual e sua relação com o suicídio. Fale um pouco sobre o que você encontrou. E como encarar essa questão como um problema de saúde pública e social?>
A gente sabe que a raça, a classe, o gênero, a sexualidade, a capacidade, o padrão físico-estético, entre outras coisas que vamos chamar de interseccionalidade, fazem parte de uma ordem social e hierarquização da vida. Esses corpos vão acessar, compreender a saúde ou a ausência da saúde a partir dessa lógica. Ainda que o único consenso da suicidologia seja que o suicídio é algo multifatorial, por outro lado, o discurso da psiquiatria hegemônica ou até mesmo da psicologia, é do suicídio atrelado a algum tipo de transtorno mental, invisibilizando estatísticas que contradizem essa primeira afirmação e denunciam como as populações vulnerabilizadas têm um risco aumentado de morte por suicídio.>
A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que 79% da carga global de suicídios acontecem em países de baixa e média renda. Esse número aumenta muito quando a gente pensa nos jovens. 90% dos jovens que se matam no mundo estão concentrados em países de baixa e média renda.>
Aqui a gente está falando de uma ausência de perspectiva de futuro, de horizonte, de muita vulnerabilidade, de violência, violação. Esses dados, muitas vezes, são instaurados como um processo do indivíduo e não como um processo de desfiliação, precarização dos direitos e ausência do Estado. Transfere a vulnerabilidade para o sujeito. É claro que cada indivíduo vai ter suas ferramentas de enfrentamento. Mas existem condições que empurram o sujeito para a morte.>
Os indígenas se matam três vezes mais do que a população brasileira não indígena. Essa mesma lógica a gente pode pensar para a juventude negra. Segundo um relatório do Ministério da Saúde e da Universidade de Brasília, o risco de suicídio entre os jovens negros é 45% maior quando comparado a jovens brancos. Nessa mesma lógica, temos a população LGBTQIAPN+ e população idosa.>
Quando damos visibilidade a esses dados, chegamos à conclusão de que as populações vulnerabilizadas carregam a morte como expectativa de vida, seja a morte política, homicídio ou suicídio. Isso diz sobre uma hierarquia ontológica, mas também sobre a desesperança como projeto político, de uma distribuição desigual das mortes.>
Você levanta uma questão muito séria em relação ao nosso processo de colonização. O quão importante é a sociedade nos seus mais diversos segmentos fazer contato com essa história para enfrentar o problema da epidemia de suicídio?>
É necessário reconhecer o suicídio como um problema de saúde pública mundial. Ainda que a gente expresse isso em voz alta, a gente não trata ou não prioriza esse tema como tal, na urgência e dimensão que ele tem. Isso tudo muito envolto pelo tabu e mitos que rodeiam o tema. Outro aspecto é entender que as políticas de morte que estruturam a nossa sociedade hoje demandam exclusão e morte de alguns sujeitos. Sempre me pergunto até que ponto os sujeitos não são também suicidados pela sociedade.>
Porque a partir do momento que a gente nega direitos, viola e violenta sujeitos, não tem políticas públicas de prevenção do suicídio, não tem financiamento para as ações e, no máximo, quando a gente consegue falar é sobre o Setembro Amarelo, que atualmente tem sido uma campanha extremamente danosa, inclusive, aumentando os índices de suicídio no mês de setembro.>
Por que tem aumentado o número de casos no Setembro Amarelo?>
Alguns pesquisadores já apontam para o aumento do número de suicídios no mês de setembro. Existe o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, que é 10 de setembro, o Brasil criou um mês. O que significa que a gente tem bombardeado em vários discursos e redes o Setembro Amarelo. Ou seja, a gente abre o assunto de maneira muito pontual, cria a demanda porque as pessoas em sofrimento elas se sentem com a ferida aberta e podendo buscar ajuda, mas a gente não muda estruturalmente nada. Nem os nossos discursos e nem as nossas políticas.>
A gente continua sem uma formação dos profissionais em relação ao tema, com os serviços de saúde, educação e segurança pública com muita dificuldade de acolher esses indivíduos. Essas pessoas ou não têm acesso ou, quando têm, são extremamente maltratadas, julgadas e punidas pelo seu ato. O meu mestrado, inclusive, foi entrevistando profissionais de saúde responsáveis pelo primeiro atendimento após uma tentativa de suicídio. Entrevistei médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. É uma detecção de como a moralidade, a religiosidade e os estigmas ainda determinam os modos de atuação com esses sujeitos.>
A gente não tem financiamento e uma convocação da sociedade para lidar com esses aspectos. Porque quando a gente fala de prevenção do suicídio, obviamente que a gente vai falar dos serviços de saúde, especialmente de saúde mental. Mas não só. A gente também vai falar sobre garantia de direitos, educação, emprego e condições de vida. Judith Buttler fala que toda vida precisa de condições mínimas para ser considerada vivível. Se a gente retira essas condições, o que é que sobra, o que é que fica? >
Em relação aos jovens, a partir dessa ideia, a gente precisa entender a questão da cultura, do esporte e uma gama muito grande de fatores que são considerados protetivos para alguém em vulnerabilidade social ou psíquica. Aí se fala que a prevenção se dá a partir do diagnóstico e medicação. No fim, a campanha continua reproduzindo o discurso hegemônico do sofrimento individual, não trabalha as políticas públicas e os aspectos da coletivização do cuidado, faz com que os familiares que perderam seus entes para o suicídio fiquem lambendo suas feridas, porque ficam escutando isso ao longo do mês sem qualquer tipo de cuidado e não há qualquer campanha de pré ou pósvenção, que é o cuidado dirigido àqueles que perderam alguém para o suicídio, e essas pessoas em sofrimento seguem tendo as portas fechadas em todo e qualquer lugar.>
O Setembro Amarelo virou uma grande propaganda e engajamento de sujeitos e empresas que, no fim, não têm o compromisso atemporal ou garantido da prevenção do suicídio a longo prazo ou eficaz. É muito pontual. O que é que a gente faz quando a gente abre uma demanda que não temos como responder? É quase um parêntese que a gente faz sobre saúde mental quando, na verdade, não há uma preocupação efetiva sobre isso nos nossos modos de viver.>
Sobre o título da obra, a presença do termo "neoliberalismo" chama muita atenção. Por que essa escolha?>
Essa escolha vem do entendimento do ato suicida invocado para além da primeira pessoa. Uma vez que o compromisso é de politizar o ato, devemos pensar quais são as políticas que regem as nossas formas de viver, de morrer e de matar. Aqui eu tenho que pensar o sujeito sofrente, que é alguém que sofre e entende o suicídio como uma saída para o seu sofrimento. Uma vez que eu priorizo geopoliticamente o suicídio, eu preciso olhar para o Brasil no seu contexto. É por isso que passo pela questão da colonialidade, mas sustento a investigação a partir da lente do neoliberalismo, por muitas razões. Uma delas, das mais importantes, é como o neoliberalismo e a bioética supervalorizam o princípio da autonomia.>
Dentro dessa lógica, quando a gente consegue deslocar o transtorno, no máximo a gente desloca para a autonomia, partindo de um princípio de que o sujeito tem o direito de escolher sobre sua vida ou sobre sua morte. Quando, na verdade, a grande questão é: todo mundo tem acesso a autonomia? Todo mundo é autônomo nas condições desiguais que a gente vive? Quando o sujeito tem 10 portas, mas nove estão trancadas e ele acessa aquela única aberta, isso é uma escolha? Então tem um debate ético e político sobre autonomia para a gente evitar uma defesa acrítica dessa autonomia, fazendo com que essa defesa seja contra o próprio sujeito. Porque se ele não tem condições de escolher, será que a gente pode avançar nesse debate?>
É muito importante a gente falar de autonomia, mas em um cenário brasileiro de desigualdade, violência, iniquidade e muita vulnerabilidade, será que é por via desse princípio que a gente vai conseguir avançar eticamente na prevenção do suicídio? Antes de qualquer coisa, a gente precisa dar condições e promover vida e aí sim a gente vai poder falar sobre autonomia.>
Em 2017, o tema foi pautado na imprensa pelo "jogo" Baleia Azul e a série 13 Reasons Why. Qual leitura você faz daquele momento e o que mudou sobre a forma de abordar a questão desde então?>
A gente teve naquele momento um boom pela Baleia Azul e pela série [13 Reasons Why] que, por um lado, recebeu muitas críticas pela forma como foi produzida, mostrando uma cena de suicídio, algo que não se deve fazer. Após atuação de muitos profissionais, eles tiveram que editar a série e retirar a cena. Mas a primeira coisa que a gente precisa considerar é a importância de falar sobre. Quebrar esse primeiro tabu é muito importante.>
No segundo ponto, nós temos o que chamamos de efeito Werther, a expressão está relacionada ao aumento das tentativas de suicídios depois de um caso amplamente divulgado. O nome se deve ao romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Johann Wolfgang von Goethe.>
Daí nasce o mito de que quando a gente fala, aumenta o risco de suicídio. Isso não é verdade. O problema não é falar ou não falar, mas sim como falar e como não falar. Existe, inclusive, um manual da OMS voltado para profissionais da comunicação que vai mostrar quais são os pontos frágeis em relação à potencialização da vulnerabilidade. Muitas vezes, acontecia uma abordagem pouco comprometida com os sujeitos, seus familiares, algumas notícias sensacionalistas que sequer citavam os locais para busca de ajuda. A gente sabe que tem alguns fatores que vão determinar os efeitos daquela notícia, como outros temas também vão passar por esses crivos e critérios. Com o suicídio, não é diferente.>
Efetivamente muita coisa vem sendo desconstruída. Para mim, esse foi um pontapé para que a sociedade como um todo, mas, principalmente o jornalismo, se visse convocada a falar mais sobre, e isso já é uma mudança interessante. A gente não se nega a falar sobre suicídio mais, ou pelo menos não como antes porque, obviamente, os tabus e mitos seguem de alguma maneira. Inclusive porque a gente tem esse tripé estigmatizante do ato suicida que é o crime, o pecado e a loucura. Esse tripé foi atualizado e segue sendo uma referência, inclusive, dentro dos registros de saúde, o que é muito denunciativo de como a gente segue reproduzindo a narrativa do suicídio de um lugar muito moralizante.>
O que é essa atualização do tripé crime, pecado e loucura?>
A gente tem estudos dos séculos XVIII e XIX, especialmente da Europa, que vão mostrar essas construções sócio-históricas do suicídio atrelado ao pecado, ao crime e à loucura. Hoje, quando falo de atualização, é porque a gente pode não mais denominar a loucura, mas denominamos os diagnósticos psicopatológicos e os transtornos mentais. É muito comum a gente falar do suicídio como fruto da depressão, de uma esquizofrenia, bipolaridade, alcoolismo, dentre outros diagnósticos.>
Então, no fundo a gente segue estruturado nesse tripé. Talvez só tenhamos ampliado os nomes, mas falamos das mesmas coisas. A gente ainda escuta o suicídio como pecado. A maior parte das religiões ainda entende o suicídio como pecado. A questão é que a gente não tem isso oficializado no campo jurídico, mas os sujeitos seguem sendo penalizados, punidos, inclusive nas instituições de saúde. Porque é como se eles tivessem rompido com um contrato social. Eles seguem tratados como desobedientes da norma política e jurídica.>
Ao longo da sua trajetória, você fez contato com muitas histórias difíceis. Teve alguma específica que te marcou mais?>
Em 2019, quando tinha acabado de começar o doutorado na UNB e estava como professora colaboradora na Saúde Coletiva também na UNB. A gente teve, numa mesma semana, três tentativas de suicídio dentro da Universidade, entre segunda e quinta-feira. Na sexta-feira, a gente teve um suicídio consumado entre a biblioteca e a reitoria, que era um lugar extremamente movimentado. Quando os agentes de saúde e segurança pública chegaram, eles abordaram as pessoas que lá estavam perguntando o que aconteceu e por que ninguém havia feito nada, pois qualquer ato ali poderia ter mudado o desfecho da história. As pessoas que lá estavam responderam que achavam que se tratava de uma performance artística.>
A gente está falando de um suicídio lido como uma performance artística. Claro que isso denuncia um tanto de coisa. Era um jovem negro, então vamos falar do racismo; a gente falar sobre como a Universidade teve uma dificuldade de manejar muitas tentativas de suicídio. Para quem trabalha com o tema sabe que havia um cálculo ali de um suicídio consumado. A gente vai falar sobre muitas coisas. Mas o que me pega muito nesse caso é pensar que essas pessoas não foram só testemunhas. Dentro dessa perspectiva relacional, essas pessoas também co-protagonizaram esse ato. E eu acho que esse é um ponto importante desse debate. Pensar como todos nós somos agentes responsáveis e de possível prevenção do suicídio. A gente não pode atrelar a prevenção do suicídio só ao profissional de saúde mental especializado que vai receber um sujeito sofrente no seu consultório. Essa é uma perspectiva muito reduzida sobre o que é saúde mental, sobre o que é o cuidado.>
A gente precisa ampliar esse campo para o inter relacional, para a interdependência, para os modos coletivizados de cuidado e para o fortalecimento dos laços. Porque o neoliberalismo maximiza o 'eu' e minimiza o 'nós' comunitário. É quase que ver o outro como inimigo, é aquela história do sujeito ser o único responsável pelo seu fracasso ou seu sucesso. Nessa lógica, também cabe o suicídio. O ato é julgado unicamente a nível da responsabilidade do sujeito. Quando a gente amplia o nosso olhar e as formas de interpretar o ato, a gente também amplia nossas formas de enfrentar e cuidar das pessoas em sofrimento.>
Como a gente pode perceber os sinais que possam levar uma pessoa a tentar o suicídio?>
Nem todo mundo que se mata expressa sinais tão vívidos, mas, ao mesmo tempo, temos pouca sensibilidade para reconhecer alguns sinais. Certas coisas estão na relação, como, por exemplo, uma alteração do comportamento desse sujeito. Um sofrimento muito duradouro que faz o sujeito se isolar. Alguém que tinha todo um convívio social com o seu meio e, de repente, está completamente só.>
Quando o sujeito expressa em ato ou palavra um certo desligamento da vida, como desejar adoecimento terminal, ou se colocar em risco, diz expressamente frases como: 'eu queria sumir', 'eu queria dormir e não acordar mais', 'eu queria morrer', 'eu quero me matar'. A gente precisa dar muita legitimidade a essas frases porque muitas vezes a gente esculta que a tentativa de suicídio é um modo de chamar atenção. Isso é mais um mito que atrapalha os nossos modos de cuidado. A tentativa de suicídio é o fator de risco mais importante para o suicídio.>
Quando o sujeito, por exemplo, começa a doar todos os seus objetos, ou aqueles de valor sentimental. A gente teve um caso de um jovem músico em Salvador que antes de se matar saiu doando seus instrumentos, discos, vinis. Ou seja, aquilo que de alguma maneira dava sentido à vida dele, ele estava se desligando. É quase que uma mortificação em vida. Claro que a gente precisa pensar nos transtornos mentais como um fator de risco, sem atrelar uma coisa à outra, mas entender como um fator de risco.>
Tem aí algo da ordem comportamental que é quando o sujeito de alguma maneira vai expressando uma fragilidade com a vida. Pode ser pela via da tristeza, mas pode ser pela via da irritabilidade, ausência de sono, sono excessivo. É importante dar mais visibilidade aos modos de sofrimento que, aliás, a gente tem apagado cada vez mais. Porque há uma exigência que a gente esteja em funcionamento, consumindo, produzindo em um modo máquina neoliberal que a gente perdeu a capacidade de partilhar.>
Os psicanalistas Joel Birman e Christian Dunker fazem uma diferenciação dos afetos dor e sofrimento. Eles vão dizer que a dor é o afeto predominante na contemporaneidade justamente porque o sujeito está numa condição solipsista, onde somente a própria mente é real, e todo o resto, incluindo o mundo externo e outras pessoas, são criações dessa mente, não tem o outro a quem ele faça uma demanda, um apelo, com quem ele possa compartilhar as suas questões. Diferente do sofrimento, em que a interlocução está no centro da experiência. Tem alteridade, tem o outro, tem com quem eu posso dividir, narrar e transformar a minha vivência em experiência.>
Quando a gente fala de um trabalho de prevenção do suicídio - inclusive, essa não é a melhor palavra, produção de vida é mais interessante - mas quando falamos disso na clínica, é um pouco sobre transformar a dor em sofrimento. Ou seja, é poder criar condições de fortalecer o laço na sua alteridade e interlocução.>
Você levanta um ponto muito importante sobre a medicalização da vida e do suicídio. Sabemos que de fato os fármacos têm sua importância. Mas o que é necessário se fazer além do uso de medicamentos?>
Temos aí uma discussão muito importante sobre como a medicina e áreas afins capturaram alguns fenômenos naturais da vida, especialmente aqueles desviantes indesejados como algo da ordem do conhecimento de especialistas. O suicídio é um desses fenômenos. Não existe a história da humanidade sem o suicídio e ele foi transformado em um objeto da saúde mental que precisa ser tratado por especialistas. É tão interessante isso porque a gente conseguiu apagar até as vozes dos sujeitos sofrentes. Quem fala sobre isso são os especialistas, não são os sujeitos em sofrimento.>
Inclusive porque a partir do momento que a gente nomeia o suicídio como um transtorno mental, a gente também apaga uma subjetividade e universaliza os sujeitos que têm um transtorno, que sofrem e vão tomar remédio. É quase que colocar todos os sujeitos em uma mesma lógica, em um mesmo tratamento e uma mesma resposta. Inclusive negligenciando que em determinados contextos o remédio também pode ser considerado um fator de risco, mesmo que dentro de uma temporalidade.>
A grande curiosidade disso é que a gente tem hiper medicação das pessoas, mas não tem diminuído os números de suicídios. Esse é um aspecto que a gente precisa pensar. Se essa fosse uma resposta efetiva, teríamos com o aumento da medicação, uma diminuição dos suicídios, mas é essa a realidade. A gente precisa furar esse discurso para viabilizar modos de cuidados mais eficazes e mais efetivos para as pessoas em sofrimento.>
A partir disso, voltamos a falar que precisamos ampliar os modos de cuidado a partir de políticas públicas de acesso à saúde, educação, emprego, condições dignas de sobrevivência, como moradia e tudo aquilo que a interseccionalidade de alguma maneira aponta nas suas diversas facetas da vulnerabilidade. A medicação, claro, pode ser uma ferramenta. Em alguns casos, ela vai ser uma ferramenta essencial, em outros não. Como a gente vai considerar que todo sofrimento é um transtorno mental? Isso é muito simplório. Aí a gente vai se deparar com uma questão ética, por isso a bioética me ajuda muito a pensar nos conflitos éticos e morais entorno do suicídio e como que essas éticas da vida estão atreladas às políticas de morte.>