Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Thais Borges
Publicado em 30 de novembro de 2025 às 05:00
Pode parecer inofensivo, já que fica escondido, ou ainda ser um tabu. Mas o excesso de pele na borda do ânus pode não apenas causar desconforto, inchaço, facilitar a contaminação na região e impactar a autoestima. Por esses e outros motivos, nos últimos anos, a cirurgia estética para operar o plicoma anal - o nome dessa condição - cresceu muito, inclusive na Bahia. >
Nos últimos cinco anos, as buscas por ‘cirurgia de plicoma’ no Google cresceram 40%. Já as consultas para saber quanto custa o procedimento ficaram 450% maiores no mesmo período, segundo o Google Trends. A disponibilidade de informações online, especialmente nas redes sociais, é um dos motivos que tem feito mais pessoas descobrirem a condição, a possibilidade de tratamento e, consequentemente, procurado a cirurgia, na avaliação da médica coloproctologista Jéssica Fraga, do Hospital Santa Izabel. >
“Há quase quatro anos, eu realizo esse procedimento em Salvador. Os pacientes se sentem seguros para compartilhar suas histórias, seus sintomas, seus desconfortos e, assim, construímos juntos um processo terapêutico com muita empatia e acompanhamento em cada passo, desde a primeira consulta ao período pós-procedimento", explica.>
Para o médico coloproctologista Ramon Mendes, diretor do Núcleo de Coloproctologia do Instituto Brasileiro de Cirurgia Robótica (IBCR), a preocupação com a aparência tem ficado cada vez mais forte entre os pacientes. No entanto, a melhora do aspecto da região do ânus deve ser avaliada de acordo com as queixas e o desconforto que o plicoma pode causar, para saber se vale a pena fazer uma cirurgia ou não. >
Segundo ele, em muitos casos, a cirurgia facilita a higienização da região, ao remover o excesso de pele, e dá mais conforto aos pacientes. “Muitas vezes, se o plicoma for um pouco grande, pode ficar machucando no momento da higiene. No biquíni, pode causar um grande desconforto, um edema, um inchaço local. Isso pode incomodar a paciente e levar ao tratamento cirúrgico", diz Mendes, que é especialista em tratamento do câncer colorretal. >
Procedimento>
Apesar do nome não tão conhecido, o plicoma é uma condição relativamente comum. Não é a mesma coisa que a hemorroida e é uma lesão benigna, como reforça a coloproctologista Jéssica Fraga. De fato, por vezes, ele é confundido com a doença hemorroidária externa. A diferença é que o mamilo hemorroidário externo costuma ser uma lesão mais volumosa, com vasos sanguíneos e mucosa. O plicoma, por sua vez, é apenas uma pele flácida e fina. >
De acordo com ela, ele é provocado principalmente por condições inflamatórias da região anal, como um produto de cicatrização. “Essa condição é mais frequente em pacientes com prisão de ventre que fazem muito esforço para evacuar e pacientes com fissuras (feridas) crônicas na região anal. Ocorre muito também após a gestação e em pacientes obesos que perdem peso acentuadamente e de forma rápida", exemplifica. Além disso, a prática de sexo anal receptivo sem lubrificação adequada pode levar a essa condição.>
Mesmo hoje, não é difícil encontrar profissionais que minimizem o impacto do plicoma na vida dos pacientes, na avaliação da médica. Ela reforça, porém, que ainda que pareça algo inofensivo, além da possibilidade de infecção e desconforto, existem consequências para a autoestima da pessoa. >
“Já atendi pacientes que se privavam de usar roupas de banho por ficarem inseguros devido ao plicoma e principalmente, sentiam desconforto, vergonha e insegurança durante a relação sexual. Para a população homoafetiva, isso é ainda mais impactante pois o plicoma muitas vezes é visto por parceiros como infecção sexualmente transmissível (IST), como o HPV. E não tem nada a ver com as ISTs",enfatiza. >
Na cirurgia, o excesso de pele na região perianal deve ser removido. Uma das possibilidades é fazer da forma convencional, usando um bisturi elétrico. O problema desse modelo é que o bisturi causa queimadura na borda anal e pode tornar o pós-operatório mais desconfortável. >
Outra forma de fazer a chamada ressecção do plicoma é por meio de laser de CO2. Nesse tipo de procedimento, há menos lesão térmica e a recuperação tem menos dor, como aponta o médico coloproctologista Ramon Mendes. A maioria das cirurgias é feita em hospital dia ou em ambulatórios, com alta no mesmo dia. >
Outra possibilidade estética é o clareamento anal. Segundo o coloproctologista Ramon Mendes, é possível que o ânus passe a ter uma coloração mais escura, tal como ocorre às vezes na região da virilha. “Na região anal, não é diferente. Algumas vezes, pode escurecer a borda anal e alguns pacientes procuram o médico em busca de ter um clareamento".>
Antes de buscar pelo procedimento, é preciso ter cuidado com os profissionais que vão fazer o procedimento. Nas redes sociais, é possível encontrar atendimentos feitos por profissionais que não são proctologistas ou nem mesmo são médicos. A coloproctologista Jéssica Fraga alerta que apenas médicos são capacitados para realização desse procedimento. >
“A anatomia da região deve ser conhecida e estudada para evitar complicações. Já atendi pacientes que realizaram procedimento com esteticistas que evoluíram com estenose (estreitamento do canal anal) devido à retirada errônea de plicoma. É uma complicação que dificilmente pode ser revertida", adverte.>