Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Da guerra ao recomeço empresarial, conheça a história do padeiro mais amado da Bahia

Documentário sobre a vida de Pepe Faro será lançado na próxima terça-feira (dia 2)

  • Foto do(a) author(a) Donaldson Gomes
  • Donaldson Gomes

Publicado em 29 de novembro de 2025 às 05:00

Empresário Pepe Faro retornou para o varejo há dez anos, com o Almacen Pepe  Crédito: Divulgação

Do armazém ao Almacen, Pepe Faro percorreu a jornada de uma vida. O galego que veio para a Bahia fugindo da fome, construiu uma história de abundância, onde o passado amargo de um mundo em guerra cedeu espaço para um império de doçura. Quando o documentário sobre a sua vida estrear na próxima terça-feira (dia 2), o mundo certamente terá a oportunidade de conhecer melhor o padeiro bonachão de 83 anos que cravou o seu nome na história da Bahia.

“Amigo – A Biografia de Pepe Faro”, é bom frisar, homenageia o fundador da Perini, mas não apenas ele. O filme vai retratar, a partir do comerciante, um pouco da luta e das conquistas da comunidade galega por aqui. “Quando eu nasci, a guerra já tinha terminado, mas as consequências vieram depois. Era muito difícil, éramos filhos da guerra”, diz Pepe num trecho do trailer que apresenta o documentário. Em outro, demonstra bom humor, pedindo o fim das gravações quando o tema é a sua beleza.

Pepe Faro na antiga Perini da Vasco da Gama por Sora Maia/Arquivo CORREIO

Só por conseguir fazer Pepe falar, “Amigo” já vale a pena. O filho, André, conta que a participação no próprio filme demandou muita insistência. “Ele não queria de jeito nenhum, achava que não tinha nada o que mostrar, mas eu sempre achei que a história dele pode inspirar outras pessoas, além de ser um legado para os netos e os bisnetos dele”, diz. “Tirar uma palavra dele é difícil, é aquele tipo reservado que não gosta de falar”.

“Quem vai ler um livro meu, quem vai ver o meu filme? Eu não sou o Abílio Diniz (empresário fundador do Grupo Pão de Açúcar, eu não sou Antônio Carlos Magalhães (falecido líder político)”, retrucou certa vez para o filho. “O senhor é Pepe”. É o homem que atravessou o oceano com 17 anos, fugindo da fome e da destruição, para conquistar a Bahia pelo estômago.

Além da insegurança alimentar, uma das lembranças mais marcantes do período de extrema pobreza na vila de Aboal era a impossibilidade de comprar calçados confortáveis. Os pés eram protegidos com tamancos de madeira. Hoje, seu Pepe compensa isso com a paixão por incontáveis pares de tênis. “Tem muito mais do que consegue calçar, teria que ser uma centopeia para usar todos”, brinca o filho. Por conta das mesmas lembranças, a mesa em casa é sempre farta.

Os apelos da família se somaram ao do compadre Alfonso Alban, concorrente no negócio da panificação, mas, ao mesmo tempo, o grande amigo que acompanhou Pepe da Galícia para o Brasil. Seu Alfonsin, como era chamado, faleceu cerca de um ano após o início das gravações. Pai de Amadeu Alban, o cineasta responsável pelo documentário, chegou a gravar um depoimento sobre o amigo e estimulou Pepe a se engajar no negócio. “Deu tempo de entrevistar seu Alfonsin?”, perguntou Pepe quando ainda estava em dúvida sobre a gravação. Sim!

Pepe gravou sua participação num intervalo de aproximadamente três semanas na região da Galícia. Ele ainda não assistiu o documentário. Para André Faro, o depoimento do amigo, que é uma das motivações para o nome da obra, e lembrar de onde saiu, são coisas que devem despertar fortes emoções no empresário.

Até a década de 80, a casa onde ele morou na Galícia não tinha nem piso, era chão de terra. E o banheiro ficava na área externa, o que era um desafio nos períodos mais frios do ano.

O olhar de Amadeu Alban para a vida de Pepe é único. Saber que ele perdeu o pai no meio das filmagens dá uma ideia do quanto custou concluir este trabalho. “Meu pai e Pepe são imigrantes galegos, tinham a mesma idade. Se conheciam de lá, moravam em aldeias próximas e se tornaram melhores amigos aqui no Brasil”, lembra Alban. “A relação de amizade deles está no filme”.

“Eu não consigo falar de Pepe sem falar do meu pai”, diz o cineasta. Durante as filmagens, seu Alfonsin acabou atuando como um produtor informal, lembrando de histórias e indicando pessoas que precisavam ser ouvidas.

A capacidade de cultivar amizades é retratada numa série de imagens, mostrando Pepe com artistas como Jorge Amado e Zélia Gattai, políticos e empresários, mas também de seus funcionários, ressalta Amadeu.

A maior parte das entrevistas foram gravadas com o microfone apenas em Amadeu e no ritmo de uma conversa, para dar mais informalidade à produção.

Segundo Amadeu, a casa ficava em cima de um curral e o cenário na vila era o de um país que havia sido destruído pela guerra. “Ele nasceu em 1942 e a guerra acabou em 1941, imagina tudo o que passou quando estava na Espanha, entendeu? E este cara hoje se tornou uma referência de luxo, de alta gastronomia”.

“Acredito que apesar de ter saído da extrema pobreza, ele realmente estava predestinado a isso. Ele sempre teve esse tino, de saber o que é bom, sabe? Tem um olhar diferente para o que é especial”, destaca o cineasta.

Busca por perfeição

Em seus negócios, a característica mais marcante de Pepe Faro é a busca pela perfeição, acredita o filho. “Ele atenta para detalhes tão pequenos que só ele consegue ver”, diz André. Quando chegou ao Brasil, a única coisa que sabia fazer era plantar para a própria subsistência. No armazém de secos e molhados do tio, que depois se tornaria também sogro, no Tororó, estava absolutamente perdido. Começou na função de embalar feijão, farinha e outros alimentos. Jogava metade no local correto e o restante fora. Seu Vavá, um funcionário experiente, lhe chamou atenção e explicou o processo correto. “Vou fazer melhor agora”, disse Pepe, que se tornou o melhor empacotador enquanto esteve ali.

Quando decidiu comprar uma padaria, na década de 60, não entendia nada a respeito de panificação. O passo seguinte foi a profissionalização, primeiro aprendendo com a equipe da própria padaria e mais adiante numa imersão no mercado de trigo, até então concentrado no Rio Grande do Sul. “Ele foi para fábricas, armazéns, para entender o processo inteiro, saber como usar farinha, o que era glúten, amido, a farinha forte ou a fraca. Se profissionalizou para chegar aqui e dizer ‘eu vou fazer o melhor pão de Salvador’”, conta André. Com este padrão, nascia a Panificadora Elétrica da Barra, um embrião da Perini.

Segundo Amadeu Alban, o traço mais marcante de Pepe é mesmo o seu olhar para os detalhes e o prazer de servir bem. “Ele não sabe ficar sozinho, está o tempo inteiro ligando para alguém. Conversava com meu pai o dia inteiro por telefone”, lembra.

Nova história

Quem tem um pouco mais de idade e viu os anos dourados da Perini, pode imaginar que o Almacen Pepe, que está há dez anos no mercado, é uma tentativa dele de retomar a história da icônica rede de lojas, que ofereciam o que havia de melhor em panificação, sorveteria, confeitaria e, claro, os secos e molhados. A realidade é que o processo de venda da Perini foi muito duro para o empresário, mas o novo negócio é uma nova história para seu Pepe, de acordo com o filho dele. Em 2010, o grupo chileno Cencosud anunciou a compra de 100% da rede de loja de alimentos por US$ 27,7 milhões.

O assunto é abordado no documentário, mas a verdade é que o pós-venda da Perini trouxe muito sofrimento para o galego. “O grande calo dele, e isto está no filme, foi vender a Perini”, conta o cineasta. A rede era tratada por ele como uma segunda filha.

“Ele não conseguiu se desligar de lá por uns três anos”, lembra André Faro. Segundo ele, o pai continuou a ir diariamente para as unidades da Vasco da Gama, Pituba e Graça. Quando dava alguma sugestão, ouvia gracejos do tipo “o senhor não manda mais aqui”. Coisas de cortar o coração e que chegaram a desencadear um quadro depressivo, devidamente tratado.

A importadora, outro negócio da família, não fazia os olhos de seu Pepe brilharem. Faltava o contato com o público. “Não vejo ninguém, não vejo o cliente, não vejo gente, não vejo nada, só um bando de homens trabalhando, carregando caixas para cima e para baixo. Eu não quero nada disso”, dizia.

“Ele é um bicho social, que gosta de servir, da troca com as pessoas. Essa humanidade sempre me chamou muito a atenção”, diz Amadeu Alban.

Em 2015, encerrou-se o período de quarentena após a venda da Perini e a família pôde retornar ao varejo. Qual o caminho? O Almacen, para resgatar o início de tudo lá no Tororó, mas não um qualquer, este é o do Pepe, que inicialmente resistiu a ter o nome nos letreiros. O filho bateu o pé no Almacen Pepe e se enche de orgulho da posição tomada. “Tem gente que diz que vai no Pepe, tem gente que vai no Almacen”.

“Ele compreendeu que o Almacen Pepe foi o recomeço, que tudo o que fez na Perini foi maravilhoso, mas que aquela história está concluída”, diz André.

Na última quarta-feira (dia 26), o Almacen Pepe foi eleito o grande vencedor da categoria Empresarial no tradicional Troféu Lojista do Ano 2025, promovido pela CDL Salvador. O reconhecimento vem no 10º ano de história do estabelecimento.

Hoje seu Pepe acompanha os negócios mais à distância, orientando sempre que pode. Há cerca de dois anos convive com algumas complicações de saúde, mas o mesmo jovem destemido que atravessou o Atlântico ainda está ali. E vê, certamente cheio de orgulho, o filho André tocando o negócio e preparando o neto, Mateus, para mais uma geração dos Faro enchendo a vida dos baianos de sabores.

André diz que ainda se impressiona com Pepe andando pelas lojas. “Ele bate o olho e percebe coisas que ninguém mais consegue notar. É uma biblioteca ambulante”, diz.

No trailer do seu documentário, Pepe aparece falando que a miséria era tão grande na Galícia, que ele não deveria ter sido gerado, muito menos ter nascido. Que sorte dos galegos e baianos que ele tenha vencido as probabilidades.