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Pititinga some dos mares de Salvador e vira peixe mais caro que camarão

O peixinho, que foi motivo de pedido dos pescadores para Iemanjá no 2 de Fevereiro, chega a ser vendido por R$ 50 e tem outra espécie se passando por ela. Saiba qual

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 8 de fevereiro de 2026 às 05:00

A pititinga sumiu
A pititinga sumiu Crédito: Moysés Suzart

Ailton Costa trabalha como vigilante no Rio Vermelho há quase 20 anos e lembra bem um período de abundância no bairro. E não era de festa. Sempre que saía do trabalho, passava antes na Colônia de Pescadores para pegar seu tira gosto do fim de semana: a pititinga. “Era uma sacola de marcado cheia, às vezes era cinco conto, dez conto, era baratinho mesmo”, lembra. Acabou. Ou melhor, até tem, mas acabou. Há um tempinho que Ailton não encontra mais a iguaria. Não apenas ele. O peixinho sumiu da morada de Iemanjá e das tarrafas dos pescadores locais. Os últimos dois presentes principais do 2 de Fevereiro foi para pedir que este peixinho volte. Ele até voltou, mas ainda continua longe de lá e bem escasso.

“Ele começou a aparecer novamente em Itapuã, mas aqui nada”, resume Nilo Silva Garrido, diretor da Colônia de Pescadores do Rio Vermelho. Para Nilinho, como também é conhecido, avistar pequenos cardumes em Itapuã já pode ser considerado um milagre de que Iemanjá está tentando ajudar. Desde 2023, nem em Itapuã era encontrado, só depois do pedido na festa do dia 2 de Fevereiro, em 2025, que o danado voltou, de forma tímida. “Graças a Iemanjá e a Deus a pititinga voltou para a costa. Era a coisa mais rara. Mas eles ainda passam longe do Rio Vermelho, ficam por lá. Mas já é um começo”, conta o pescador e líder da comunidade.

Passamos na Colônia de Pesca na última quarta-feira. Até às 8h, nenhum pescador vendia o peixe. Somente depois das 10h, o pescador Baconé chegou com um número tímido de pititinga, pego em Itapuã. Foi o único durante todo o dia. Ele sempre pegou o peixinho. “Os cardumes estão em Itapuã, não sei se chega por agora aqui, vai depender dos peixes maiores”, resume Baconé, enquanto tratava as iguarias.

O relato de Nilinho é assustador. Ele mesmo conta que viu a pititinga morrer na sua frente, como um filme de terror. Todos no bairro já conhece esta história, que foi justamente a última vez que se viu um cardume de pititinga no Rio Vermelho.

A pititinga sumiu por Moysés Suzart

“Eu ia fazer uma cirurgia e antes fui ver meu barco, pra conferir a amarração. Quando entrei na água e mergulhei, vi muita petitinga morta no chão, tudo grandona, e não tinha peixe comendo, pelo menos eu não vi. As vivas estavam na superfície, procurando oxigênio. Quando olhei pra cima, parecia uma nuvem de peixe pequeno, o porto todo era pititinga. Estavam caindo como fruta madura do pé, morrendo, descendo e batendo no fundo. Dois dias depois, sumiram de vez. Isso foi em abril de 2023 e desde então não voltaram mais”, conta Nilo, assustado. “Antes tinha de todo tamanho, grande, pequena, média, por causa da reprodução. Naquele dia só tinha as grandes, que a gente chama de boca de galo. E depois desse dia, sumiram”.

Nilinho disse que ainda é possível ver alguns cardumes na Baía de Todos os Santos, próximo da Ilha, inclusive onde ainda é possível pescar o peixe, mas parece que a maioria dos cardumes migraram para bem longe, mas precisamente na costa dos Estados Unidos, em busca de mares mais calmos, menos poluídos e sem degradação humana. O retorno é celebrado, mas alguns cuidados estão sendo tomados. Em Itapuã, só é permitido pescar pela manhã, os pescadores não deixam em outro horário. E nada de artifícios extras para pegar mais do que o necessário.

“Antes se pescava com tarrafa. Era equilibrado, pois só ficavam os maiores, deixando os menores, em crescimento, fugirem. Depois, começaram a pescar com aquelas malhas de mosquiteiro (sim, aqueles que colocamos na cama para evitar muriçoca) e pegava tudo, pequeno, grande, nada escapava. Acho que isso também contribuiu para o sumiço, além da poluição do rio que desemboca aqui e o clima mudando”, explica Nilo.

Antes do Rio Lucaia ficar poluído, Nelinho conta que se pegava de tudo no Rio Vermelho, de siri a camarão. Dava para pegar pititinga na beira do mar, de tanto cardume que tinha. O tempo foi passando, espécies foram sumindo, o rio poluído tirou a diversidade, mas a pititinga foi um caso à parte. Nos mercados de Salvador, a pititinga já é encontrada mais cara que camarão. Um saquinho, com 1 quilo, pode chegar a R$ 50 no Mercado do Peixe, em Água de Meninos.

É tão raro ver o peixinho, que já estão até trocando espécies. Ainda visto com mais abundância, o xangó é um peixe bem semelhante a pititinga, é até maior, mas não é a pititinga. Esta outra espécie é vendida entre R$ 25 e R$ 35, o quilo. Segundo vendedores locais, os restaurantes menores estão comprando xangó e vendendo como pititinga. “Aqui você vai achar somente xangó. A verdadeira pititinga, a miudinha, não se acha mais em nenhum canto de Salvador. Quando chega, vem de Maragogipe ou Salinas das Margaridas, daquelas bandas de lá que ainda se vê, mas já chega aqui caro. Fora isso, é só xangó”, disse a vendedora Ilma Silva, que vende a R$ 35..

Não é muito diferente no Porto da Sardinha, em Plataforma. Se encontra de tudo, menos a tradicional pititinga. Em uma única barraca foi possível reconhecê-la, vinda de Maragogipe, com o preço bem salgado: R$ 45 (morre nos R$ 40). “Quem compra agora é restaurante, pois ficou custoso para quem gosta de comprar e fritar em casa. É mais barato comprar camarão. Não sei o que aconteceu, dizem que é o clima, né? Antes a gente pegava a pititinga aqui na beira do porto, na ponte. Hoje só vem lá de dentro. E olhe lá, pois agora só tem xangó”, conta Gerson oliveira, que disse que ainda é possível comprar em Madre de Deus ou Caboto.

Biólogo, pescador e coordenador de pesca artesanal da Bahia Pesca, Roberto Pantaleão conta que outros peixes estão sumindo também, mas a causa real ainda precisa ser estudada. Mas ele aponta para um suspeito bem evidente: a mudança climática.

“Rapaz, eu gostaria muito de ter essa resposta para te dar. A pititinha, desde que eu me entendo como pescador do Rio Vermelho, sempre teve. A mudança climática é um fator, claro, mas outras espécies já estavam sumindo antes. Antigamente no Rio Vermelho tinha uma pesca muito importante, que era o chicharro. Antes, esta espécie corria todo litoral de Salvador, era abundante até lá no Solar do Unhão. Sumiu também. E nunca mais voltou”, lembra.

Além de ser um tira-gosto frito obrigatório em Salvador, a pititinga também tem sua importância crucial no ecossistema marinho e seu sumiço está levando a uma reação em cadeia. Não é só você que gosta deste peixinho, mas outros peixes grandes também. Nos tempos de abundância, muitas vezes a pititinga era pega para servir de isca para pescar os maiores, que também estão sumindo como consequência. E não é apenas em Salvador.

“Aqui em Jauá sumiu. Os cardumes desapareceram e reparamos que outros peixes que tínhamos muito, como o Vermelho, também sumiu, além de outros que comiam as pititingas. Devem ter ido embora também pela falta deste peixinho, né?”, conta Budião, que hoje se contentou em pegar sardinha e outros peixes. Pititinga não rola mais.

Entre flores, espelhos e pedidos lançados ao mar no último dia 2 de Fevereiro, os pescadores seguem pedindo a Iemanjá que a pititinga volte a nadar farta pelas águas de Salvador. Ela até dá sinais de retorno, ainda que bem tímida, como quem responde à fé do povo. Mas não há milagre que resista a rio poluído, pesca predatória e mar adoecido. A Rainha das Águas pode até cuidar, mas sozinha não dá conta. Se o ser humano não aprender a cuidar do que é dela, a pititinga continuará sendo lembrança, promessa e saudade.

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Pititinga Peixe Praia Mudança Climática Meio Ambiente