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Casa da Mãe completa 18 anos unindo música e gastronomia sob a guarda de Yemanjá

Espaço cultural que fica no Rio Vermelho acolhe novos artistas na cena soteropolitana

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  • Carolina Cerqueira

Publicado em 1 de junho de 2024 às 11:00

Local ocupa a casa número 81, no Rio Vermelho
Local ocupa a casa número 81, no Rio Vermelho Crédito: Paula Froes/CORREIO

Em frente à Casa de Yemanjá, no Rio Vermelho, outra residência homenageia a orixá, desta vez misturando música e gastronomia. Ocupando o número 81, a Casa da Mãe assume a essência do papel materno e da própria rainha das águas. Como um útero, acolhe artistas e projetos culturais que estão nascendo em Salvador.

Na sexta-feira (31), o espaço criado em 2006 completou 18 anos. Chegando à maioridade, vai andar com as suas próprias pernas, como diz a criadora do espaço, Stella Maris, de 55 anos, filha de Yemanjá. Cantora e chef, ela deixou o cargo concursado de professora de música em São Francisco do Conde e abriu a Casa da Mãe para fazer a sua arte.

Acabou acolhendo mais outros artistas do que a si própria, mas agora quer focar em ocupar ela mesma o espaço mais como cantora do que como chef e administradora.

“Enquanto artista, é difícil encontrar um lugar onde se possa fazer uma arte autoral, de um jeito único, com essa liberdade. Quando não é essa a questão, é o dinheiro. Muitas vezes você, no final das contas, paga para cantar”, explica Stella. Foi a partir dessa experiência própria que a casa de shows nasceu.

Stella Maris é chef, cantora e administradora da Casa da Mãe
Stella Maris é chef, cantora e administradora da Casa da Mãe Crédito: Paula Froes/CORREIO

Já acolheu nomes como Carlos Barros, Mãeana, Nara Gil, Majur, Bia Ferreira, Roberto Mendes. É lá onde os artistas podem fazer apresentações de ensaios e testar, experimentar. Às terças, depois da sessão de jazz, os saraus musicais têm microfones abertos.

Deles resultam preciosidades como Armandinho Macêdo tocando com um músico que acabou de chegar à cena. Outra combinação que é a cara do local é o projeto “Pisanova”, no qual a cantora Mãeana mistura o piseiro de João Gomes com a Bossa Nova de João Gilberto.

Nenhum gênero é proibido, mas é bem-vindo o artista que leva conceito e verdade. “A música tem que ter um porquê, não ser só para agradar ao público, se não, vira entretenimento. O entretenimento você encontra em qualquer lugar e na Casa da Mãe queremos oferecer aquilo que não se encontra em qualquer esquina de Salvador”, explica Stella.

Quem dá as caras por lá

O público é composto, em grande parte, por professores, estudantes universitários e músicos. Mas, além dos fiéis escudeiros, quem passa pela porta é atraído pelo som e vai matar a curiosidade. Dos cabelos coloridos aos brancos, dos tênis aos pés descalços. Dos casais aos grupos de amigos, passando pelos que vão munidos da própria companhia.

Pela casa de shows passam diversos estilos musicais
Pela casa de shows passam diversos estilos musicais Crédito: Paula Froes/CORREIO

Se tem música dançante, não tem regra, não tem certo e errado. O público vai chegando aos poucos, de mansinho, até se soltar. O esquenta acontece na varanda, regado a cerveja e fumaça. Por volta das 23h, o negócio já está quente e os 90 metros quadrados ficam disputados.

De um lado, ficam quadros e outros tipos de representação de Yemanjá. Do outro, as referências a santos católicos. Uma das bebidas do cardápio leva o nome de “Maria Me Guarda”. Tem espaço para tudo.

Nas paredes e portas dos banheiros, estão as artes de improviso: “Saúde para gozar no final”, “Meu sonho é ser imortal” e “Ai do amor se não fosse a coragem”, são alguns dos desabafos escritos.

“Aqui tudo é permitido”, disse uma senhora na faixa dos 50 anos quando o homem que a acompanhava perguntou se poderia ocupar uma das cadeiras. As mesas são compartilhadas. Foi assim que ela, fiel escudeira, fez amizades por lá.

Apaixonada pelo local, levava quem gostava para conhecer. Na sexta-feira em que a reportagem do CORREIO visitou a Casa da Mãe, foi a vez do homem que lhe fazia companhia, ela contou.

Quem passa na rua e escuta o som que vem se dentro é atraído pela curiosidade
Quem passa na rua e escuta o som que vem se dentro é atraído pela curiosidade Crédito: Paula Froes/CORREIO

Além dos soteropolitanos, o público de fora também faz visitas quando está na cidade. Stella conta que recebe mensagens no Instagram de pessoas de diversos estados e até países perguntando sobre a programação.

“Acho que o Instagram ajuda nesse alcance, mas a maior parte vem do boca a boca de pessoas que passam por aqui, gostam e recomendam. Acho que já virou um ponto turístico para o perfil de viajante que quer vivenciar a realidade da cidade, fora das montagens preparadas para eles”, analisa Stella.

Nomes como Seu Jorge e Manu Chao também já marcaram presença, pegando Stella de surpresa ao aparecerem na plateia. O primeiro deu uma canja a pedido da proprietária e, o segundo, pediu licença para subir e cantou por uma hora.

Gilberto Gil e Caetano Veloso também já passaram por lá. “Mas sem puxar saco, sem estender tapete, deixar a pessoa à vontade, respeitar o espaço”, ressalta a proprietária.

Gil esteve junto com Flora e ainda nomes como Paula Lavigne e Regina Casé no casamento de seu filho, Bem Gil com Mãeana. A cerimônia aconteceu na Casa da Mãe mesmo, onde a cantora faz shows às segundas-feiras, com o cardápio assinado por Stella.

O que tem no cardápio

A comida da casa tem como objetivo resgatar o Recôncavo Baiano, já que Stella é de Santo Amaro, vizinha da família Veloso. É de lá que ela traz, toda semana, ingredientes como camarão defumado, farinha, dendê, sururu, carne de sertão, folha de maniçoba, maturi (castanha de caju verde). “Tem coisa que a gente não encontra em Salvador, não tem jeito, lá é melhor”, firma a chef.

Referências do Recôncavo sustentam o cardápio
Referências do Recôncavo sustentam o cardápio Crédito: Paula Froes/CORREIO

Também é do Recôncavo que Stella traz a paixão e o respeito pela comida. Quando a mãe ia trabalhar, era ela a responsável pelo almoço. Aprendeu observando. “Na praia, eu achava lindo as senhoras que passavam segurando aquelas bacias com panos brancos recheados de quitutes como peixe frito, moqueca, vatapá, caranguejo. Tinha de tudo. E aquilo me encantava”, lembra.

Alguns desses são referências na Casa da Mãe. A casquinha de maturi e a maniçoba ganham juntas o título de campeã. Mas o vatapá vem logo em seguida. Uma vez por ano, a casa faz um festival de vatapá. Stella prepara sete tipos, usando banana da terra, inhame, batata doce e o que mais a imaginação deixar, sem abandonar a técnica.

Ela cozinha durante o dia e administra o espaço durante a noite, mas os planos de voltar ao palco já foram iniciados. Na sexta (31), em comemoração ao aniversário do espaço, Stella lançou a música Oração a Yemanjá, que faz parte do projeto Ópera Orì, que reúne outros cantores, sempre com homenagens a orixás.

O evento reuniu grandes nomes que fizeram parte da história do local em um sarau musical de celebração. No sábado (1º), as comemorações continuam. A partir das 21h, Ju Santos vai cantar Alcione e Clara Nunes.

SERVIÇO:

Endereço: Rua Guedes Cabral, 81, Rio Vermelho - Salvador

Instagram: @casadamaeoficial

Telefone: 71991683879

Funcionamento: de segunda a sábado, a partir das 21h