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Famosos são acusados de disputar likes em meio as enchentes

Tragédia no Rio Grande do Sul já deixou 126 mortos e mais de 700 feridos

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  • Andreia Santana

Publicado em 11 de maio de 2024 às 05:00

Ao todo, 441 cidades do Rio Grande do Sul foram afetadas pelas enchentes Crédito: Gustavo Mansur/Palácio Piratini

A fome é imperativa, não espera, precisa ser aplacada, já dizia o sociólogo Betinho (Herbert José de Sousa). No caso da tragédia ambiental em andamento no Rio Grande do Sul, há a necessidade não só de comida, mas de água potável, abrigo, roupas, medicamentos e uma infinidade de itens para as milhares de pessoas que perderam tudo. Nas cidades gaúchas que quase desapareceram sob as águas do Guaíba, toda ajuda é bem-vinda.

Quem vive a urgência não repara de onde - ou de quem - o socorro chega. Nessa situação, o limite entre altruísmo e oportunismo pode ser bem tênue e se os afetados pela tragédia não têm condições de recusar amparo e, muito menos, reparar quem está empenhado na causa por amor ao próximo ou por amor ao like, a internet repara. E não perdoa.

Nos últimos dias, além de acompanhar pelo noticiário e redes sociais a catástrofe ambiental no Rio Grande Sul, milhares de pessoas se mobilizaram para ajudar com doações, seja em dinheiro ou materiais. Muitas se voluntariaram para a linha de frente, no resgate a pessoas e animais ilhados.

Gente famosa não ficou de fora da corrente solidária, mas as atitudes de algumas celebridades ganharam repercussão tão grande quanto o drama dos gaúchos. Influencers, youtubers e BBBs foram acusados de fazer Turismo de Desastre ou Turismo Obscuro, prática que consiste na visita aos cenários de grandes tragédias, acidentes ou eventos traumáticos. Para muitos usuários das redes, é isso o que os famosos têm feito no RS, assistir ao vivo a miséria alheia, para angariar curtidas.

O campeão do BBB24, Davi Brito, esteve na quinta (09) em Canoas, uma das cidades mais afetadas, acompanhando as carretas de suprimentos para os atingidos e filmando tudo para mostrar aos seguidores. Alguns abrigados na cidade hostilizaram o rapaz, acusando-o de querer 'ganhar mídia' com a tragédia. Na mesma semana da viagem e da divulgação de uma chave pix em seu nome para angariar fundos para as vítimas, a ex-BBB16, Ana Paula Renault, acusou o baiano de praticar o "turismo de tragédia" e de "tumultuar" a operação de resgate diante das contingências no estado.

Na youtubesfera e no X (ex-Twitter), Felipe Neto e Whindersson Nunes, dois dos influenciadores mais famosos do Brasil, protagonizaram troca de acusações e provocações que envolveu até a primeira-dama do país.

Janja da Silva comentou que estava emocionada com o resgate do cavalo Caramelo, que estava em um telhado em região totalmente alagada e foi retirado por bombeiros, exército e veterinários na quinta. Whindersson, que se mobilizava para o resgate, ficou chateado por não ter conseguido a ajuda a tempo e passou a ironizar as postagens da primeira-dama com um meme sobre a novela Travessia.

Internautas reagiram mal às postagens do youtuber e o chamaram de misógino pelo ataque a Janja. Felipe Neto entrou na história porque decidiu opiniar sobre o assunto, sem citar Whindersson, mas a indireta doeu e, a partir daí, os influencers começaram a brigar e fazer acusações sobre o passado um do outro.

Em meio a toda a crise no RS, os fãs e os haters dos famosos brigam na internet e quem tem mais bom senso tenta ignorar as tretas das celebridades e focar nas vítimas. Quem não gosta de Davi ou de Felipe, afirma que eles estão em busca de engajamento. Quem gosta, defende que estão fazendo a sua parte.

No caso de Felipe, além de enviar purificadores de água para o estado atingido, anunciou na quinta que gostaria de "adotar a égua Caramelo". Logo após o resgate, os veterinários tinham anunciado que era uma égua, mas depois confirmaram que era mesmo um cavalo. A atriz Giovanna Ewbank também postou que queria adotar o animal.

Enquanto as celebridades discutem e exibem o próprio empenho em ajudar os gaúchos nos reels do Instagram, há quem lembre que o altruísmo e a solidariedade devem ser praticados com empenho, mas sem tanto holofote.

Quase 90% das cidades alagadas

A chuva torrencial e as enchetes no Rio Grande do Sul desde a semana passada afetaram quase 90% dos municípios gaúchos. Até o momento, 441 cidades de um total de 497 foram atingidas pelas consequências do evento climático extremo que afetou 1,9 milhão de pessoas, segundo boletim da Defesa Civil gaúcha divulgado às 18h desta sexta-feira (10).

Até o momento, 340 mil pessoas estão desalojadas. Desse total, 71,4 mil estão em abrigos públicos. Há a confirmação de 126 mortes, 756 feridos e 141 pessoas ainda desaparecidas no estado.

As forças de segurança, com auxílio de voluntários, conseguiram resgatar 70,8 mil pessoas e 9,9 mil animais. Até o momento, 20 mil pessoas foram mobilizadas pelas Forças Armadas para atuar na Operação Taquari 2, como foi batizado o esforço de resgate e contenção dos efeitos das enchentes no estado.

Nesta sexta, as autoridades estão em alerta para o agravamento da situação no estado. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê chuva forte no Rio Grande do Sul no final de semana. A expectativa é de que o cenário se prolongue até domingo (12), com maior intensidade entre o centro-norte e leste do estado, incluindo o litoral norte e o sul de Santa Catarina.

Frente a dimensão dos estragos e as críticas por conta da falta de planejamento, o governador Eduardo Leite afirmou que não só o Rio Grande do Sul, mas todo o Brasil, terão que se ajustar a um novo contexto, no qual os eventos climáticos extremos têm se tornado cada vez mais frequentes – segundo especialistas, como consequência das mudanças climáticas e do aquecimento do planeta.

“Já temos uma série de políticas em andamento, mas está muito nítido que precisamos fazer [ações efetivas] em outro grau, em outro patamar”, disse Leite.

Uma confluência de fatores deixa o estado do Rio Grande do Sul mais suscetível aos extremos causados pela mudança climática. A própria posição geográfica, a configuração das cidades e a falta de um programa eficiente de gestão de risco estão entre os fatores que favoreceram a catástrofe vivida no estado.