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Moyses Suzart
Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 05:00
Muitos mistérios rondam a vida de Cleópatra, a rainha mais famosa do Egito. Há até dúvida sobre sua beleza, retratada nos livros e filmes. Mas, uma coisa é certa: ela estava à frente do seu tempo. Quando o mundo ainda contava o tempo Antes de Cristo, ela já usava batom vermelho e tomava banhos de leite de jumenta. O bicho ameaçado de extinção no Nordeste banhava a pele de uma das mulheres mais importantes da história com a composição que pode ser a salvação do semiárido nordestino. Já conhecido como “ouro branco”, o leite de jumenta é rentável e muito mais nutritivo que o leite de vaca. É, inclusive, o que mais se aproxima do leite materno de nós, os seres humanos. >
Se você fez cara de nojinho, imaginando beber leite de jumenta ou, pior, disse um sonoro “lá ele”, saiba que você está muito enganado. Só para se ter uma ideia, o próprio Hipócrates, o Pai da Medicina, dava leite de jumenta a seus pacientes na Grécia Antiga.>
Na Europa, não é nenhuma novidade. O consumo é cada vez mais comum e caro: o leite pode custar 50 euros, cerca de R$ 314. Imagine, então, o Nordeste exportando esta iguaria. Imaginou?>
No Brasil, é quase impossível conseguir um vendedor. Não existe um comércio formal. Contudo, 2026 promete virar essa chave, inclusive, para abastecer os bancos de leite das UTIs neonatais pelo país, já que o leite se assemelha ao humano. Na Universidade do Agreste de Pernambuco (Ufape), em Garanhuns, cientistas trabalham para que, ainda este ano, o leite de jumenta possa ser utilizado com segurança em unidades de terapia intensiva pediátrica, graças ao seu potencial terapêutico. À frente do grupo de pesquisa, o professor Jorge Lucena explica que todo o processo segue um rígido controle sanitário e de produção. Mas, está bem avançado. >
“Tudo é desenvolvido com base nas boas práticas. Temos um rebanho controlado, vacinado contra as principais enfermidades, além das boas práticas de ordenha e da pasteurização do leite”, diz. Segundo ele, a expectativa é que os testes finais em humanos sejam concluídos em breve, possibilitando o uso do alimento em UTIs neonatais de hospitais pernambucanos ainda no primeiro semestre. >
Leite de Jumenta
O leite de jumenta apresenta baixo teor de gordura e calorias, alto teor de lactose e whey proteins, que são proteínas solúveis que facilitam a digestão, além de uma baixa proporção de caseína, a principal responsável pelas reações alérgicas ao leite de vaca. Essa combinação explica porque, em diversos estudos clínicos, entre 82,6% e 98,5% das crianças com alergia à proteína do leite de vaca toleram bem o consumo do leite de jumenta. >
Esse perfil nutricional faz dele um candidato valioso como alternativa para indivíduos com alergias alimentares e sensibilidades digestivas, em especial crianças pequenas que não toleram o leite bovino e precisam de uma fonte de nutrientes de fácil digestão. Pesquisas apontam ainda que o leite de jumenta pode modular o microbioma intestinal, aumentar a defesa antioxidante e exercer efeitos anti-inflamatórios, embora a maior parte desses efeitos ainda esteja sendo estudada em modelos experimentais e ainda precisem de ensaios clínicos em larga escala para confirmar benefícios terapêuticos amplos. Mas, convenhamos, é um avanço. >
O leite de jumenta também é um bom produto para a confecção de cosméticos, sendo benéfico em outro aspecto: não precisa abater o animal, como ocorre atualmente e está dizimando a espécie na região Nordeste. >
Os pesquisadores destacam ainda que essa experiência já é realidade em países como a Itália, que serviu de inspiração para o modelo adotado por aqui. “Além do consumo direto, o leite pode ser transformado em derivados cosméticos e alimentos funcionais, contribuindo para o desenvolvimento de cadeias produtivas locais e para a geração de renda complementar aos produtores rurais”, afirma o professor de veterinária Gustavo Carneiro, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). >
O leite de jumenta é rico em vitaminas (incluindo C e diversas do complexo B) e minerais, e os estudos apontam que esses constituintes podem favorecer hidratação, elasticidade e reparação cutânea (cicatrização), razão pela qual já é ingrediente de cremes, sabonetes e máscaras faciais usados especialmente no mercado europeu e asiático. >
Nas plataformas de comércio eletrônico, o leite de jumenta começa a ganhar espaço no nicho fora do país. Consumidores interessados em versões liofilizadas (em pó) ou embaladas para consumo direto já encontram opções em marketplaces globais e em sites especializados em produtos naturais, embora a oferta ainda não é continuada e frequentemente envolve importação. >
O interesse crescente também alimenta uma revalorização da asinocultura, a criação de jumentos voltada para produção de leite, como componente de uma economia rural mais diversificada. Com a possibilidade de transformar não apenas o leite, mas também subprodutos como colágeno, gelatina, queijos e biofármacos, a cadeia produtiva associa sustentabilidade, inovação e geração de valor agregado aos pequenos produtores. E, repetimos, preservando a espécie, que não precisa ser abatida - as principais causas para o abate da espécie são a exportação de pele e o desuso do trabalho do jumento no campo por causa da mecanização. >
Segundo o zootecnista Alex Bastos, responsável técnico da Nordeste Pecuária, essa mudança de cenário remodela a importância do animal que, apesar de ser um símbolo do Nordeste, é oriundo da África, mais precisamente, da região da Etiópia. “Sem valor econômico e social, o animal doméstico tende ao abandono. Quando passa a ser valorizado, recebe cuidado, manejo adequado e passa a integrar um ciclo produtivo sustentável. O clima, a vegetação da caatinga e a rusticidade do animal formam uma combinação altamente favorável. Com manejo zootécnico adequado, o semiárido se torna uma região extremamente competitiva para a asinocultura”, pondera. >
O Brasil pode estar diante de uma nova fronteira na alimentação funcional e na saúde pública, com o leite de jumenta desempenhando um papel que vai muito além da curiosidade histórica de Cleópatra. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, já cantava a importância do animal: “O jumento sempre foi o maior desenvolvimentista do sertão! O jumento é nosso irmão”. Tomando como base que nosso leite se assemelha ao deles, Gonzagão estava certo mesmo.>