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Alan Pinheiro
Publicado em 3 de abril de 2026 às 05:00
A Bahia enfrenta um cenário de contrastes e desafios significativos na imunização de crianças e adolescentes contra o papilomavírus humano (HPV). Mais de 500 mil jovens entre 9 e 14 anos ainda não receberam a proteção vacinal, o que representa uma cobertura de 58,4% no estado. Os dados do Ministério da Saúde em 2026 escondem disparidades alarmantes quando o foco se volta para a capital baiana, para a divisão por faixas etárias e para as realidades de diferentes municípios do interior. >
Em Salvador, a situação exige um alerta vermelho. A capital apresenta uma cobertura vacinal de apenas 48%, número inferior à média do estado. De uma população de 170.811 jovens nascidos entre 2012 e 2017 residentes no município, mais da metade estão sem a vacina. Exatamente 88.703 pré-adolescentes e adolescentes não estão vacinados.>
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Quando se observa a adesão por idade na capital, o cenário ganha contornos de preocupação extrema logo no início do ciclo vacinal. Apenas 8% das crianças de 9 anos foram imunizadas. Outro dado que chama a atenção em Salvador é a queda abrupta na faixa dos 11 anos, que registra apenas 27,2% de cobertura, antes de voltar a subir e atingir seu melhor índice aos 13 e 14 anos, com quase 66% de jovens protegidos.>
De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), os papilomavírus humanos (HPV) são vírus da família Papillomaviridae, capazes de induzir lesões de pele ou mucosa, as quais mostram um crescimento limitado e habitualmente regridem espontaneamente. Existem mais de 200 subtipos diferentes de HPV, entretanto, somente os subtipos de alto risco estão relacionados a tumores malignos.>
Os vírus de alto risco (HPV tipos 16, 18, 31, 33, 45, 58 e outros) têm probabilidade maior de persistir e estar associados a lesões malignas. Além do câncer de colo do útero, o HPV pode causar outras complicações, como câncer de vulva e vagina, câncer anal, câncer de orofaringe, câncer de pênis e verrugas genitais.>
A dificuldade na cobertura não é uma exclusividade da capital, refletindo-se também nos números gerais da Bahia. Em todo o estado, a idade de 9 anos é, de longe, a que menos se vacina, amargando uma cobertura de apenas 6,3%. A adesão estadual só ganha força a partir dos 10 anos, saltando para 64%, e atinge seu pico de cobertura nos jovens de 12 anos, quando quase 74% do público-alvo baiano está com a vacina em dia. >
O município de Vera Cruz, na Região Metropolitana, registra a menor taxa de vacinação do estado, com uma cobertura crítica de apenas 32%. A situação também é de grande vulnerabilidade em Umburanas, que tem apenas 37,7% do seu público-alvo vacinado, e em Santo Amaro, no Recôncavo, que não passa dos 38,8%. >
Se por um lado existem cidades que lutam para alavancar seus números, o interior do estado também apresenta realidades opostas. No topo do ranking de proteção, pequenos municípios dão o exemplo. A cidade de Gongogi, no sul do estado, ostenta o melhor desempenho da Bahia, alcançando a marca de 93% de cobertura vacinal entre seus jovens. Logo atrás, o município de Piripá também se destaca com mais de 92% de vacinados, seguido por Nova Ibiá, com 89%.>
63,47% das meninas baianas dentro do grupo alvo estão vacinadas, enquanto apenas 53,68% dos meninos se vacinaram. Os números ainda são motivo de preocupação para a médica ginecologista Ana Verena, que destaca a importância de se prevenir contra o vírus.>
“A vacinação contra o HPV é uma das maiores conquistas da medicina preventiva. Ela protege contra os principais tipos do vírus responsáveis por cerca de 90% dos casos de câncer de colo do útero e também contra tipos que causam verrugas genitais. Mais do que prevenir uma infecção, a vacina evita doenças graves ao longo da vida, incluindo cânceres que podem ser silenciosos por anos”, afirma.>
Um dos principais fatores associados à não vacinação contra o HPV é a desinformação. A ginecologista conta que é frequente precisar quebrar alguns mitos. Entre os relatos mais comuns, as pacientes ou familiares delas chegam com a ideia de que “a vacina estimula início precoce da vida sexual”, “vacinar só é preciso se a vida sexual ainda não começou”, “a ausência do vírus em exame exime a necessidade de vacinação” e “HPV só dá em quem tem muitos parceiros”.>
Em relação aos homens, o médico urologista Hiron Rodrigues acrescenta que a baixa cobertura vacinal tem relação com a forma do homem cuidar de sua saúde. “Tem um fator um pouco mais cultural envolvido. Não só nisso, mas na saúde do homem, como um todo. Mesmo sendo mais jovem e tendo um pouco da saúde relacionada ao cuidado materno e paterno, é comum os meninos terem uma cobertura vacinal menor, infelizmente”, diz.>
“Se tornou mais comum combater a desinformação, desmistificar algumas crenças. Há um tempo atrás, a gente não tinha esse problema, mas temos que passar a reforçar e reforçar sempre, principalmente esse cuidado de reforço, tanto para os meninos quanto para as meninas”, complementa.>
O uso da camisinha diminui a possibilidade de transmissão na relação sexual, apesar de não evitar totalmente. Por isso, é recomendado o uso do preservativo em qualquer tipo de relação sexual, mesmo entre casais estáveis. A ginecologista Ana Verena também cita a realização periódica do Papanicolau (para as mulheres), a redução de múltiplos parceiros e a realização do teste de HPV quando indicado, além de uma boa educação sexual e orientação sobre ISTs. >
O foco principal é a prevenção e o tratamento precoce, já que não existe um tratamento específico que elimine diretamente o vírus. O tratamento realizado é direcionado às lesões causadas por ele. Verrugas podem ser tratadas com ácido, cauterização, laser ou cirurgia. Já lesões precursoras com acompanhamento ou remoção com laser ou biópsia. Na maioria dos casos, o próprio organismo elimina o vírus espontaneamente.>
“O HPV é extremamente comum e estima-se que em torno de 85% das mulheres sexualmente ativas em algum momento da vida terão algum contato com o vírus. A diferença das possíveis evoluções está em quem se protege e do sistema imunológico de cada uma. Prevenir é sempre mais simples, menos invasivo e mais seguro do que tratar”, complementou a ginecologista.>
Já para os meninos, a importância de se vacinar está justamente no plano de prevenção da contaminação. “Você cria uma resistência para que, se por um acaso, o paciente se contamine quando iniciar a vida sexual, ele não se contamine, não tenha a lesão e não transmita”, explicou o urologista Hiron Rodrigues.>
A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de Salvador destacou que “a baixa cobertura vacinal é um cenário observado em todo o país e medida como o resgate de não vacinados entre 15 e 19 anos, foi estabelecida em 2025 para fortalecer a adesão nacional. A SMS reforça que a participação dos pais e responsáveis é fundamental, sendo essencial que levem crianças e adolescentes para a atualização da caderneta vacinal”, diz em nota.>
O órgão também informou que desenvolve ações contínuas para ampliar a cobertura vacinal contra o HPV, por meio de campanhas de conscientização, mobilização social e estratégias de incentivo à imunização, além de ações de vacinação em escolas. A vacina está disponível gratuitamente nas unidades de saúde do município, com oferta regular e acessível para a população. >
A Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) foi procurada pela reportagem em mais de uma oportunidade e questionada sobre um posicionamento, mas não houve retorno do órgão até a publicação. O espaço segue aberto.>