Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Alan Pinheiro
Publicado em 2 de abril de 2026 às 05:00
Quando o pai de Gabriel (Gabriel Leone) morre, uma jornada de autodescoberta e superação do luto começa, o que vai despertar segredos enterrados e uma violência latente. Essa é a história de Barba Ensopada de Sangue, novo filme do diretor baiano Aly Muritiba, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (2). >
Com atuações de destaque do protagonista Gabriel Leone e de Thainá Duarte, o filme encontra sua força nas atuações comedidas de seus personagens, que ilustram o clima de penitência criado por Muritiba. O diretor, por sua vez, sabe como conduzir a tensão e o suspense em uma história que valoriza o silêncio.>
Barba Ensopada de Sangue já está nos cinemas brasileiros
Apesar da ambientação, o filme encontra o seu ponto fraco no roteiro, onde os conflitos se resolvem de uma forma fácil demais, além dos coadjuvantes da história pecarem em desenvolvimento. Em uma história onde o mistério é a força da narrativa, contexto e profundidade para além de seus protagonistas também é necessário para a ambientação do espectador.>
A ambientação, os temas abordados pelo filme e as atuações foram, inclusive, momentos da conversa do diretor baiano com o CORREIO.>
Como foi o processo para transformar Armação, essa cidade que se diz um paraíso na terra em um lugar frio, silencioso e que se assemelha a um lugar de penitência?>
Dentre alguns temas, é um filme sobre luto e sobre esse processo de superação do luto, sobre esse momento da vida em que a gente perde alguém que ama e fica quase que num estado de suspensão, esperando uma nova fase onde a gente questiona uma série de coisas. A morte de alguém querido coloca a gente diante desse fato inevitável, que é a morte. Contando a história desse personagem que está tentando se encontrar no mundo e tentando entender seu passado familiar, resolvemos criar uma espécie de purgatório para esse cara. Para que, nesse processo de purgação, ele pudesse encontrar uma maneira de seguir adiante. Como o filme se passa numa praia, no litoral, busquei fugir de uma praia muito tropical. Tentei imprimir no filme um clima muito mais subtropical. Quando se pensa no Brasil, se faz uma imagem bastante solar e o que eu fiz foi procurar o contrário disso, o espaço mais frio, cinza, gélido, sombrio.>
Sua formação em história influencia no seu jeito de filmar?>
Os meus filmes tem um caráter social muito forte. Eles, de alguma maneira, estão sempre conectados ao momento contemporâneo e sempre tentando promover algum tipo de reflexão acerca do que é estar no mundo. O Barba se insere nesse contexto também e acho que isso vem muito da minha formação como historiador. No caso do Barba, trago esse contexto histórico de que em certas regiões do Brasil a principal atividade econômica era a caça de baleias para se produzir óleo que era utilizado na iluminação pública. Acho que essa minha conexão com questões históricas ou com realidades do passado tem muito mais a ver com essa minha vontade de compreender a natureza humana no mundo contemporâneo. Eu acho que ela está muito conectada com nossa história. No caso do Brasil, com nossa história colonial, que hostilizava muito o que vinha de fora e tudo mais.>
O ressentimento, a raiva e o luto eram sentimentos que estavam rondando os diversos núcleos do filme. Esses sentimentos eram aqueles que você queria desenvolver como força motriz do filme?>
O filme começa com esse suicídio anunciado do pai do protagonista, mas antes ele conta toda uma história a respeito do avô e da forma violenta como esse avô morreu, mas também conta da relação permeada pela violência que havia entre o pai e o avô do Gabriel. As histórias que rondam esse rapaz são todas construídas sob o signo da violência. O personagem se desloca para essa região nova, não só para se afastar do luto, mas também para tentar entender o que aconteceu e ali ele começa a ser hostilizado e começa a ver sua existência colocada em risco. À medida que a história vai avançando, a gente vai observando ele se pacificando e a superação do luto acontecendo, mas sempre rodeada por uma violência. Ele está sempre ameaçado, se sentindo inseguro e indesejado nessa comunidade. É um cara que chega trazendo lembranças de um passado incômodo para aquela comunidade, que cometeu um gesto de extrema violência no passado e não quer refletir sobre isso. Então, o filme tece essa reflexão sobre qual o papel do passado, dos antepassados e lança algumas perguntas como se é possível a gente fugir do nosso passado, do luto ou se a gente efetivamente não precisa encarar de frente o passado para poder superá-lo.>
A barba do Gabriel muda algumas vezes durante o filme. Significa apenas passagem do tempo ou outra coisa?>
Tem uma passagem de tempo, uma elipse bem marcada na história. A barba fica mais densa mesmo. Pela metade do filme tem uma elipse, porque esse cara decide ficar um pouco mais de tempo do que queriam que ele ficasse, quase como num gesto de afirmação de 'eu tô com as rédeas do meu destino, eu decido as coisas'. Obviamente, na montagem existem cenas que estão previstas para serem, sei lá, a cena 90 e depois vira a cena 9. Às vezes isso acontece nos filmes e aí no Barba aconteceram em dois momentos que, se você repara, parece que a barba cresceu e depois diminuiu.Na hora de montar eu me deparei com essa questão de continuidade e falei: "acho que o espectador vai estar muito mais ligado na trajetória emocional do personagem e menos nessa questão estética física né?">
O que você trouxe da sua carreira para Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, e o que você leva para o restante da sua carreira?>
O Barba se conecta com algumas histórias que eu tinha feito no passado, que são histórias com personagens masculinos, perturbados, tentando de alguma maneira se entender e superar certos traços patriarcais. Ele está muito relacionado assim com Para Minha Amada Morta, Ferrugem e Deserto Particular. Acho que os quatro filmes formam uma tetralogia do homem solitário. Isso que me atraiu no livro do Daniel Galera, a possibilidade de continuar essa minha investigação sobre o homem solitário contemporâneo aqui no Brasil. Deserto fala disso lá no Nordeste, o Barba fala disso no litoral catarinense. O personagem do livro é muito mais sociável. O meu é mais quieto, mais taciturno. Essa coisa que me move de tentar entender o quanto o que somos é determinado pelo meio social ou é determinado por nossos traços ancestrais, é algo que eu maximizei no filme. O Barba é um filme grandioso, com cenas na natureza muito complexas de serem feitas. Acho que trouxe para mim um senso de como filmar grande, mas mantendo esse espírito simples. Muito embora tenha cenas muito grandiosas, elas são cenas filmadas de maneira simples. Acho que eu consegui encontrar um equilíbrio muito fino entre aquilo que chamam de valor de produção e uma assinatura que é muito minha.>
Como foi trabalhar com o Gabriel Leone e a Thainá Duarte nesse projeto?>
Foi ótimo. Eu já tinha trabalhado com a Thainá antes no Cangaço Novo. Logo que terminamos oa série, viemos fazer esse filme juntos. Já tinha uma parceria estabelecida, uma confiança construída. Ela era meio que um ponto de segurança no processo. E o Gabriel era a primeira vez que trabalhávamos juntos, mal nos conhecíamos. Ele é um ator desses muito estudiosos, muito disciplinado, muito disponível. Foi muito legal trabalhar com esses dois jovens atores brasileiros que à época estavam despontando como grandes talentos e agora já são confirmados grandes talentos da atuação aqui no Brasil. Foi uma troca muito instigante.>
Qual é o diferencial de Barba Ensopada de Sangue? Por que o público deve assistir ao filme?>
O Barba Ensopada de Sangue é um thriller, um filme de suspense brasileiro com muita tensão. O suspense está impregnado no filme de tal maneira que você vê uma cena ansiando para ver a próxima, para saber onde é que essa história vai dar, onde é que o personagem vai chegar, o que é que vai acontecer com ele, se ele será ou não morto, se ele será ou não expulso. Então, acho que o espectador que sentar na sala de cinema para ver, além um filme esteticamente muito lindo, acho que vai ficar grudado na cadeira.>
Você é baiano de Mairi e já explorou cenários do interior baiano, como Juazeiro, Sobradinho e vem por aí Andaraí. Como é que a Bahia toca você como cineasta?>
Completamente. Inclusive, eu acho que os filmes subtropicais que eu faço, os filmes que eu faço no sul do Brasil, eu só os faço do jeito que faço por ser um estrangeiro nessa região. Só os faço do jeito que faço por ser de onde eu sou. Então, mesmo quando eu não filmo na Bahia, sou eu, um baiano filmando fora da Bahia. É o meu olhar, é a minha irreverência, meu humor, meu olhar curioso sobre o outro. Tenho muitas outras histórias para contar na Bahia também. Assim, devo voltar em breve para fazer Renascença, que se passa em Andaraí. Tem uma outra que está sendo escrita agora que vai se passar no sertão.>
Jenipapo Western, Renascença e Nova Éden são outros dos seus futuros projetos. Em que pé estão eles?>
O Nova Éden eu estou terminando a pós-produção nas próximas semanas, tá ficando pronto. Em breve ele vai pro mundo. O Jenipapo, que é a adaptação de um livro de mesmo nome, está em fase de captação de recurso. Devo filmar ano que vem na Bahia. O Renascimento ainda está sendo escrito. São três projetos em estágios distintos.>
O cinema brasileiro nestes últimos dois anos está em alta, mas ainda não vimos a indústria cinematográfica crescer em termos de distribuição. Como que você encara a distribuição dos filmes nacionais hoje?>
É muito difícil distribuir um filme no Brasil. A gente é um país continental de mais de 200 milhões de habitantes que tem pouco mais de 3.000 salas de cinema. Primeiro, faltam salas. Segundo, os ingressos não são baratos. Terceiro, a maior parte das salas de cinema estão em shopping centers, o que torna o consumo do cinema mais caro ainda. Então, é uma forma artística ou de entretenimento relativamente cara. E, por isso, os donos de salas de cinema, que são capitalistas, privilegiam filmes que possam dar retorno, possam dar resultado e acabam privilegiando o cinema norte-americano. Botar um filme na sala de cinema já é um milagre. Trazer o espectador brasileiro, para ver o filme brasileiro na sala de cinema é um segundo milagre. Manter os filmes na sala de cinema por mais de uma semana é um terceiro milagre. Então, é muito complexo, é muito difícil. O Agente Secreta, Ainda Estou Aqui, Homem com H são exceções, infelizmente ainda são exceções. Mas exceções que apontam para o fato de que o público brasileiro quer sim se ver na tela e quer sim escutar sua língua na tela, escutar seus sotaques, ouvir suas músicas. São indícios que talvez apontem para os donos de sala de cinema e para os distribuidores que vale a pena investir em cinema nacional e programar cinema nacional. Quando se investe direito, o retorno vem.>
E esses indícios de que o público brasileiro quer se ver representado na tela muda alguma coisa em você como diretor?>
Não. Eu sempre fiz filme pensando no público. Tem gente que fala: "Ah, mas seus filmes às vezes são tão parados". Falo: sim, eu tô convidando o público a um momento de atenção plena, de atenção completa. Eu não quero fazer novela vertical, não quero fazer TikTok. Tem gente que faz isso muito melhor do que eu jamais faria. Eu tô convidando o público para viver uma experiência cinematográfica, então não muda nada. Eu sempre fiz filme pensando no público. Se você parar para pensar, meu primeiro filme é uma história de corno. Tem coisa mais popular do que chifre? Meu segundo filme de ficção é uma história de cyberbullying. Tem coisa mais contemporânea e popular do que bullying e exposição da vida íntima na internet? Meu terceiro filme de ficção é uma história de amor. Porra, a coisa mais popular do mundo é o amor. Chifre, amor, sexo. Meu cinema é popular, pô.>
Pode mandar uma mensagem para os jovens cineastas baianos?>
A coisa que distingue um diretor do outro é o olhar. É o lugar de onde você fala. Vão todo o tempo tentar te convencer, jovem cineasta, de que eles sabem o que vai dar certo, de que eles, os outros, sabem o que vai dar público, de que eles, os outros, sabem o que vai dar resultado. Não acredite neles. Acredite no seu olhar.>