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Thais Borges
Publicado em 16 de março de 2026 às 05:00
Quanto mais jovem for a pessoa compradora do imóvel, mais provável que ela priorize as áreas de lazer e espaços para atividade física, como academia e quadras de esporte, na hora de buscar um empreendimento para morar. Nos estados do Nordeste, o peso da academia na decisão de comprar um apartamento ou uma casa só fica atrás da importância das piscinas, independente da idade: enquanto a academia é importante para 69%, as piscinas são imprescindíveis para 89% dos moradores da região, segundo um estudo da Brain Inteligência Estratégica divulgado no ano passado. >
A demanda tem exigido do mercado imobiliário ainda mais criatividade para implementar espaços que vão além da academia tradicional. Isso porque a geração Z - ou seja, nascidos entre 1995 e 2010 - dá um peso ainda maior a esses ambientes que promovem um estilo de vida ativo, especialmente por ser uma faixa etária mais acostumada com o trabalho híbrido ou remoto. >
“Os clientes da geração Z, que estão em busca do seu primeiro imóvel, prezam muito mais por segurança, bem-estar, conforto, lazer e comodidade. Essa geração está muito ligada na saúde, no bem-estar físico e emocional", diz o superintendente da Direcional Engenharia, Rodrigo Raynal. A construtora atua com empreendimentos do programa Minha Casa, Minha Vida e, segundo Raynal, é possível implementar espaços com esse objetivo mesmo nos empreendimentos populares. >
A partir desses anseios dos clientes, eles analisam o que pode ser implementado em cada lançamento. “Observamos que a calistenia hoje é uma das atividades físicas que estão bastante em voga e colocamos no Conquista Boulevard Park, em Camaçari, uma academia ao ar livre e nossos equipamentos são bastante completos. Mas não só isso. Temos o bicicletário e, em alguns empreendimentos, com o sistema de bicicleta compartilhada. No Conquista Lauro de Freitas, que é um lançamento, temos o futmesa. Para quem quer cuidar da saúde mental, oferecemos dentro de um Minha Casa, Minha Vida, espaço zen, espaço yoga", cita. >
Mercado de luxo >
No segmento de alto padrão, empreendimentos passaram a oferecer, além da piscina e da academia, comodidades como quadras de squash e tênis, sala de pilates, sala de massagem e sport bar. Esse é o caso do Legacy, no Caminho das Árvores, da OR, braço do grupo Novonor. Essas mudanças nos empreendimentos se intensificaram após a pandemia da covid-19, de acordo com o diretor superintendente da OR na Bahia, Daniel Sampaio.>
Foi naquele período que, segundo ele, houve uma ressignificação do ar - a casa deixou de ser apenas um espaço de descanso e passou a concentrar trabalho, lazer, saúde e convivência. “Isso impactou diretamente as demandas por áreas comuns mais qualificadas e funcionais. Observamos uma valorização crescente das atividades físicas e ambientes voltados para o bem-estar. Ao mesmo tempo, cresceram as demandas por áreas de convivência mais acolhedoras, pensadas para receber família e amigos", conta. >
Ter uma academia bem equipada, nesses imóveis, não é um diferencial. O que conta para conquistar clientes é a curadoria, além da possibilidade de uso personalizado. Um dos exemplos citados por Sampaio é o espaço multiuso, chamado Self-Training, onde é possível fazer treinos exclusivos e de diferentes modalidades. As demandas desses novos moradores estão mais próximas do padrão de clubes e hotéis de alto padrão. >
A tendência nos próximos anos é ampliar mais as práticas esportivas dentro dos próprios empreendimentos, com incorporação de novas modalidades, na avaliação de Sampaio, que cita também o peso dos espaços dedicados a relaxamento, meditação e terapias integrativas. >
“Outro vetor importante é a tecnologia aplicada ao bem-estar. Acreditamos em empreendimentos cada vez mais conectados, com sistemas inteligentes e gestão dos espaços, personalização de ambientes e soluções que tornem a experiência do morador mais prática e eficiente". >
Efeitos >
Até o momento, a recepção dos clientes tem sido positiva. Na Direcional Engenharia, o superintendente Rodrigo Raynal conta que os atrativos oferecem um diferencial competitivo em muitas negociações com compradores. “E o perfil de nossos clientes é justamente esse, de famílias que buscam um bom lugar para morar, que seja perto de tudo, e que ofereça qualidade de vida”.>
Ter acesso facilitado a esses espaços de atividade física tende a produzir efeitos positivos na saúde mental, uma vez que reduz barreiras logísticas e econômicas, na avaliação do psicólogo Jonatas Tourinho, coordenador do curso de Psicologia da Afya Salvador. Entre as barreiras citadas por ele, estão os custos, tempo de deslocamento, insegurança urbana, disponibilidade de horários e cansaço pela rotina de trabalho e estudo. >
“Ao diminuir esses obstáculos, aumenta-se a probabilidade de prática regular, fator central porque os benefícios psicossociais e neurobiológicos da atividade física dependem, em grande medida, de frequência e continuidade. Já do ponto de vista científico, há evidências consistentes de que a atividade física se associa a menor risco de desenvolvimento de depressão ao longo do tempo, inclusive com efeito protetor”. >
No caso específico da geração Z, Tourinho acredita que essa demanda mais forte tem a ver com fatores culturais, comportamentais e psicossociais, inclusive por se tratar de um grupo muito fortemente exposto a telas e a longos períodos de sedentarismo. Ter ambientes de práticas de exercícios em um condomínio favorece a socialização, a construção de pertencimento e rotinas coletivas. Além disso, trata-se de uma faixa etária em que a adesão muitas vezes tem a ver com identidade e grupo, o que torna a atividade física uma experiência social. >
Assim, não é de se surpreender que ambientes que combinem conveniência, segurança e interação sejam mais atrativos para os jovens. “Mas a efetividade desses espaços depende também de regras de convivência e mediação institucional, com foco em respeito às diferenças, tolerância e uso compartilhado. Ambientes potencialmente conflituosos ou excludentes reduzem o potencial de benefício e podem, ao contrário, produzir estresse e afastamento", analisa.>
No entanto, nem todo mundo que pratica atividade física no condomínio onde mora tem acompanhamento profissional, o que pode provocar lesões. Isso pode ocorrer não apenas ao executar um exercício específico, mas também ao manipular os aparelhos, por risco de queda, como alerta o educador físico Emerson Villares, do Hospital Ortopédico da Bahia, unidade administrada pelo Einstein Hospital Israelita. >
De acordo com ele, o mais comum é encontrar exercícios executados de forma errada e compensatória. Dessa forma, ao invés de fortalecer a região do corpo, o movimento pode trazer prejuízos. Por isso, o primeiro passo é buscar um médico para fazer avaliações e exames iniciais, com o objetivo de buscar um treinamento mais personalizado. >
Existem exercícios que podem ajudar a proteger de lesões musculares e ortopédicas, especialmente aqueles para a cadeia posterior. “Posso dar um exemplo bem simples: em qualquer lugar que tenha degrau você pode subir e descer, dessa forma você estará trabalhando de uma forma bem simples e útil funcionalidade e mobilidade para todos os seus membros inferiores”.>