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Que país é esse? O Agente Secreto revisita a memória brasileira pelas mulheres nordestinas

Reconhecido no Oscar 2026, filme de Kleber Mendonça Filho evidencia papel das nordestinas na formação do Brasil

  • Foto do(a) author(a) Mariana Rios
  • Mariana Rios

Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 19:46

Longa de Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura, revela a memória da ditadura a partir das mulheres nordestinas
Longa de Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura, revela a memória da ditadura também a partir da visão de mulheres  Crédito: Reprodução

Quantas histórias O Agente Secreto pinça de nossos álbuns de fotografia, do noticiário local e de nossa própria formação como povo para mostrar ao mundo um retrato cru, doloroso e nem tão nostálgico assim dessa nação perversa. Sabemos muito de um povo a partir do tratamento que recebem mulheres e crianças.

As nordestinas - sábias, amorosas, usadas, invisibilizadas, exploradas, humilhadas. As crianças - em suas miudezas, de piolho a pesadelos - ainda protegidas na casa dos avós, com pais perdidos, mães que lutam para não esquecer.

Tânia Maria é Dona Sebastiana, uma mulher forte e acolhedora que abriga perseguidos políticos no Recife dos anos 1970. A atriz, que começou a atuar aos 72 anos e nunca tinha visto filmes antes, virou sensação nacional por Reprodução

São tantas camadas… A sessão de 18h25 no Shopping da Bahia estava lotada quase uma hora antes; restavam 40 minutos para seguir 10 km, no horário de pico, até uma única poltrona ainda disponível no Paralela.

Afinal, que país é esse que está sendo apresentado ao mundo e que queremos todos nos ver?

Entrei na sala um pouco atrasada - Wagner Moura já estava dentro de seu fusca amarelo.

Ao meu lado, um casal se pega nas reminiscências mostradas na tela e objetos comuns às casas na década de 70. ‘Olha a vitrola, amor! E os LPs’. E o filme segue um percurso comum a nós e expõe as cruezas de nossa formação - Wagner, em certa altura, procura um documento da mãe. ‘Nome de homem é mais fácil’, alerta o parceiro na cena.

E as mulheres nordestinas são atravessadas por tantos sentimentos. Se consegue reviver a aspereza masculina nas casas onde elas foram subjugadas e a alegria de ser como Sebastiana, porto seguro para quem busca refúgio. Sob o teto de uma nordestina, chamada a cuidar, tem fartura - acolhimento não falta.

De aberração a refugiado, são protegidos pelo altar diverso de uma senhora que pode te lembrar de alguém próximo - talvez até um cheiro venha do tecido florido que cobre o corpo franzino dessa mulher. Vibro por Wagner Moura, mas o que toca o coração é de nos vermos assim e de nos lembrar que toda a vida deve, sim, sempre ser respeitada.

O filme não pede absolvição nem indulgência. Ele exige memória. E memória, no Brasil, é um ato político. O Agente Secreto nos lembra que a violência não nasce do nada: ela é construída, naturalizada, herdada. Está nos silêncios familiares, nos documentos que não existem, nas mulheres que seguram tudo sozinhas enquanto o Estado falha, mais uma vez.

Há dor, mas não há miserabilismo. Há denúncia, mas também humanidade. O olhar lançado às nordestinas não é de pena — é de reconhecimento. Elas não são cenário; são estrutura. São quem sustenta, quem alimenta, quem protege, quem lembra. Mesmo quando tudo tenta apagá-las.

Talvez por isso o filme doa tanto. Porque ele nos devolve um espelho sem filtro, sem trilha heroica, sem redenção fácil. Um Brasil que insiste em sobreviver apesar de si mesmo, carregado nas costas de mulheres que nunca tiveram o direito de parar.

Tags:

Cinema O Agente Secreto Kleber Mendonça Filho Oscar 2026