Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Revoada: animação baiana mistura cangaço, steampunk e ficção científica

Filme estreia em festivais internacionais antes do lançamento comercial em 2026

  • Foto do(a) author(a) Saulo Miguez
  • Saulo Miguez

Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 08:00

Longa baiano mistura cangaço, ficção científica e animação
Longa baiano mistura cangaço, ficção científica e animação Crédito: Divulgação

Em meio à aridez sertaneja de um futuro retrô, as famigeradas tropas Volante do comandante Espingarda invadem o acampamento do bando de cangaceiros do temido Capitão. Desse embate de forças, dá-se início a uma luta que atravessa gerações e ganhou uma versão animada punk ficcional científica de tirar o fôlego.

Estamos falando do longa-metragem de animação Revoada - versão steampunk, obra baiana assinada pelo diretor Ducca Rios e que foi selecionada para o Festival de Cinema de Havana. O filme estreou na Mostra de São Paulo, principal festival do Brasil, passando pelos festivais de São Bernardo do Campo e o Buenos Aires Rojo Sangre.

Revoada: animação baiana mistura cangaço, steampunk e ficção científica por Divulgação

Segundo o próprio diretor, o projeto é uma obra de ação e reflexão. O filme é inspirado no longa-metragem Revoada, de José Umberto Dias, que foi primeiro mentor de Ducca na Sétima Arte, justamente na pós-produção da película.

“Desde que li o roteiro [de Revoada], achei que o filme casava bem com o gênero de animação. Pensei em fazer um quadrinho. Essa ideia então evoluiu para animação quando acabei o Meu Tio José [seu primeiro longa-metragem]”, disse em entrevista ao CORREIO.

A princípio, Umberto não aprovou a adaptação, sobretudo porque o título original, que demorou a ficar pronto, ainda estava sendo lançado. Com o tempo, a ideia foi assimilada e, em 2021, Ducca, Ana Claudia Caldas e Amanda Aouad deram início à adaptação do roteiro que mescla ficção científica às tradições nordestinas.

O filme inova por ser a primeira animação em longa-metragem sobre cangaço e também a primeira adaptação de um filme de ação real. A imagem do vaqueiro encourado levou Ducca à estética steampunk, daí a escolha pelo caminho da ficção científica retrô futurista.

Isso, naturalmente, fez emergir questões contemporâneas, como o uso da inteligência artificial. No filme, máquina e homem são colocados em oposição e a pergunta “O que é ser humano hoje?” surge espontaneamente.

Ao longo dos mais de 80 minutos de exibição, o cangaço é tratado como símbolo de resistência. Ducca destaca que o cangaceiro não é colocado como um herói, porém, na abstração do que era aquele movimento, inevitavelmente ele desponta na tela como uma reação ao coronelismo naquela quadra histórica em que o interior do Nordeste vivia em condição de anomia, onde faltava lei, governo e sobrava o desinteresse público. “É um processo que se assemelha muito à colonização do oeste norte-americano. Podemos dizer que é o nosso ‘Nordester’”, comparou.

De Chico a Tarantino

Ainda de acordo com o diretor, o filme vem recheado de referências como o cineasta Quentin Tarantino, famoso por carregar nas tintas e construir thrillers sempre muito dinâmicos, que prendem a atenção do início ao fim com muito sangue em cena. A principal influência de Ducca, por sua vez, é o revolucionário artista plástico e pioneiro no cinema de animação no Nordeste, Chico Liberato.

Ducca relembra o pulo que deu na cadeira quando, ainda adolescente, assistiu ao Boi Aruá na TV Educativa e descobriu que aquela obra havia sido feita na Bahia. “Chico Liberato foi a minha principal influência, porque até então, eu não sabia que era possível fazer cinema de animação na Bahia. O filme tem sim essa forte presença de Chico pelo tema e por estarmos falando de Sertão”, afirmou.

Já a trilha sonora, contou com a participação do músico pernambucano Lirinha, que já havia trabalhado com Ducca em Meu Tio José, cantando uma versão manguebeat de “Apesar de você”, de Chico Buarque. Desde então, eles ficaram amigos e estreitaram a parceria. Além de Lirinha e do próprio Ducca, Luciano Silva também assina a trilha.

“Foi uma imersão de cerca de três meses compondo, escrevendo versos, mandando pedaços de música um para o outro. Lirinha fez uma música muito bonita chamada ‘A luz da Revoada’, que é o tema do film”, disse. Ducca compôs “Lua Nova”, e, em parceria com Luciano Silva, “Eu e Tu”.

Ao todo, a produção de Revoada - versão steampunk envolveu cerca de 100 profissionais. A mobilização teve início em 2020, após a Origem Content, produtora de Ducca, ganhar um edital da Agência Nacional de Cinema (Ancine) e um complemento de verba através da Lei Paulo Gustavo.

A construção dos personagens, adaptação do roteiro, montagem de storyboard e animatic levou cerca de um ano. Mais 12 meses de trabalho foram consumidos finalizando os cenários, planejando cenas de luta, que são muitas, e alinhando outros detalhes da produção. Esse período, somado ao tempo de animação das cenas, totalizou cerca de quatro anos.

Ducca conta que ficou bastante satisfeito com o resultado, mas que ainda tem vontade de mexer no filme. A produtora executiva, Maria Luiza Barros, por sua vez, que também é esposa do diretor, determinou que a obra está pronta.

Estreia em 2026

Ainda rodando os festivais pelo mundo, Revoada - versão steampunk deverá chegar às salas de cinema comerciais até outubro de 2026. A expectativa dos realizadores é que a produção ocupe diversos horários e faça bastante barulho.

“A gente geralmente faz o filme e começa a rodar os festivais. Dependendo da performance, ficamos entre seis meses e um ano rodando e, em seguida, planejamos o lançamento comercial”, descreveu Ducca.

As empresas Pipa e Tucumã Filmes estão trabalhando em parceria com a Origem Content para viabilizar o lançamento. A Tucumã, parceira antiga da Origem, foi responsável pela distribuição de Meu Tio José e conseguiu feitos importantes, como licenciar o longa-metragem para a Sony Pictures exibir nos Estados Unidos e América Latina.

“Estamos buscando recursos para fazer campanhas que atraiam as pessoas para as salas. Afinal, os exibidores precisam de público para manter o filme em cartaz. Há uma boa expectativa porque o filme tem conseguido boas críticas em festivais importantes”, disse.

Com base nas experiências de exibição do seu primeiro longa-metragem, Meu Tio José, as expectativas de recepção para o próximo filme são as melhores possíveis. Em 2024, Meu Tio José foi o filme homenageado do Festival Animaí. Na sessão de encerramento, com a sala lotada, o público em êxtase aplaudiu de pé. Situação muito parecida aconteceu em outras oportunidades, como no Festival de Annecy, na França.

“Sempre que exibo Meu Tio José, fico emocionado por ser uma história da minha família. Ver muitas pessoas compreendendo aquilo me deixa muito contente, porque a mensagem foi passada e as pessoas entenderam, tanto as daqui quanto as de fora, tanto os jovens quanto os mais velhos”, concluiu Ducca.

Conheça mais sobre Ducca Rios

O cinema de animação da Bahia fez história ao ter três obras da mesma produtora selecionadas para o Festival de Havana, um dos mais icônicos da América. A alegria triplicada se deve ao trabalho da empresa Origem Content e representou também um marco na cinematografia brasileira.

A Origem esteve representada com o longa-metragem Revoada - versão steampunk, o projeto de longa metragem O Circo de Zuri, e a co-produção Brasil-México La Marca Del Jaguar, dirigida por Victor Mayorga.

O diretor e sócio da Origem Ducca Rios lembra que o contato com os produtores mexicanos nasceu a partir dos encontros no Festival Ventana Sur, na Argentina, onde conheceu Victor Mayorga. Em 2023, o projeto foi convidado para o festival de Annecy, na França, onde foi apresentado para captação de mais recursos.

A Origem, que começou como co-produtora minoritária, virou majoritária do La Marca Del Jaguar e detém hoje 51% do projeto. “Com isso, vem também mais responsabilidades e mais decisões a serem tomadas. A gente acabou finalizando o filme por nossa conta, ele foi todo animado aqui no Brasil, com direção de animação de Aida Queiróz, que é uma das fundadoras do Anima Mundi”, contou Ducca.

Ducca, que desenha desde os seis anos e é músico desde os oito, entrou na Faculdade de Comunicação Social - Publicidade e Propaganda, porque à época não havia Escola de Cinema em Salvador.

Ainda na graduação, se aproximou da Direção de Arte e criou a sua empresa, então uma agência de publicidade, ao lado da sócia e esposa Maria Luiza, em 1995. Com o tempo, a agência tornou-se produtora de cinema de animação.

Ducca fez pós-graduação em Computação Gráfica e mestrado em Políticas Sociais, área que diz estar relacionada à sua visão de mundo, mas que também dialoga com o seu trabalho, uma vez que seus filmes estão imersos em questões sociais e políticas.

Seu primeiro longa-metragem, Meu Tio José, narra a história do José Sebastião Rios de Moura, que era de fato tio de Ducca. A obra recebeu diversos prêmios e, até hoje, é o único filme do gênero das regiões Norte, Nordeste e Centro-oeste selecionado para o Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, na França.

A partir desse trabalho, a Origem Content galgou um espaço mais relevante no cenário nacional e internacional. Atualmente, a empresa está entre as 20 mais importantes do país, segundo o ranking da Agência Nacional de Cinema (Ancine). A produtora é pioneira na criação do núcleo criativo com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), sendo a primeira do Brasil totalmente dedicada à produção de projetos de animação.