Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Saulo Miguez
Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 05:00
Lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, túlio, érbio, itérbio, lutécio, escândio e ítrio. A princípio, esses 17 elementos da tabela periódica parecem meros desconhecidos com nomes estranhos e sem a grife do ouro, prata, platina e gases nobres. >
Por detrás dessas nomenclaturas esdrúxulas, no entanto, está o conjunto das chamadas terras raras, o novo elixir da economia global, que tem sido o fiel da balança em alguns dos principais movimentos orquestrados pelos mais influentes líderes políticos da contemporaneidade e provocado uma verdadeira corrida dourada envolvendo governos, mineradoras e empresas de tecnologia. >
Curiosamente, as terras raras não são terras, nem tão pouco raras. Segundo o gerente de Geologia Básica e Aplicada da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), o geólogo Williame Medeiros, convencionou-se chamar esses elementos assim por, no passado, acreditar que eles fossem difíceis de se encontrar. >
Com o tempo, descobriu-se que os minérios são comuns, sobretudo quando comparados a metais tradicionalmente mais valiosos, como o ouro. “As terras raras estão presentes em pequenas quantidades em rochas graníticas. O que não é comum é a formação de depósitos com concentração suficiente para extração e beneficiamento. O foco hoje é encontrar esses grandes depósitos”, afirmou Medeiros. >
Esses minerais estão na lista dos chamados elementos críticos ou estratégicos, cuja demanda aumenta com o avanço tecnológico. As maiores reservas mundiais estão na China, país que detém praticamente toda cadeia de beneficiamento, conseguindo não apenas extrair os minérios, como também separá-los, processá-los e fazer produtos a partir dos componentes isolados. >
O Brasil, apesar de contar com a segunda maior reserva do mundo, ainda produz pouco. Atualmente, o país tem uma única mina ativa, a Serra Verde, localizada em Goiás, que faz a extração e condensação em composto único. “É feita uma massaroca de terras raras que é vendida para a China, país com a tecnologia de separar cada elemento”, detalhou o geólogo.>
De acordo com o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Raul Jungmann, o Brasil tem a ambição de controlar todas as etapas do processo. “É importante que não fiquemos apenas na extração. A questão são as etapas seguintes - separação e refino - para que os minérios possam ter emprego no automobilismo, fabricação de radares, aços especiais, ímãs permanentes, aerogeradores e assim por diante”, explicou.>
Energia limpa e geopolítica>
A mudança na matriz energética global está diretamente ligada à busca por essa matéria-prima. Hoje, a maior parte dos tão cobiçados 17 elementos químicos é utilizada sobretudo na produção dos chamados super ímãs, ou ímãs de alta performance, essenciais para o funcionamento de motores elétricos dos carros, aerogeradores de energia eólica, além de chips e pequenos motores responsáveis pela vibração dos smartphones.>
De acordo com Raul Jungmann, não há como migrar de uma economia de base fóssil para uma economia renovável sem o uso dos minerais críticos e estratégicos. Ele conta que o Ibram tem sido procurado por diversas representações, embaixadas e empresas dos quatro cantos do mundo em busca de desenvolvimento da produção de terras raras. >
“Esses números, sem a menor sombra de dúvida, vão crescer, até porque o Brasil é uma espécie de anomalia geológica. Nós temos praticamente todos os minerais considerados críticos e estratégicos”, afirmou o presidente da entidade.>
Segundo Williame Medeiros, a China, frequentemente, usa o fator terras raras como moeda de barganha. “Depois da pandemia, o mundo viu como era dependente da China, então outros países, como os Estados Unidos, estão tentando se afastar disso”, afirmou.>
A saída para o Brasil em meio a esse cenário, como aponta Júlio Nery, diretor de Assuntos Minerários do Ibram, é também reconhecer as suas reservas minerais como um grande trunfo geopolítico. >
Ele cita o acordo costurado entre Austrália e EUA, onde o país da Oceania irá receber investimento norte-americano para desenvolver novas minas e tecnologia para avançar na cadeia produtiva. “Esse é o tipo de negociação que o Brasil pode fazer e que seria bem eficiente”, destacou.>
Atualmente, há no Brasil uma série de companhias canadenses, australianas e norte-americanas próximas de iniciar atividades. Na Bahia, além da CBPM que, a partir dos dados coletados ao longo de 50 anos, selecionou uma área promissora na região de Jequié e Poções, há duas mineradoras da Austrália desenvolvendo estudos.>
Investimento e recuperação tecnológica>
Segundo dados do Ibram, a previsão de investimento no setor da mineração brasileira até 2029 é de US$ 68,4 bilhões, um aumento de 6,6% em relação à previsão do período de 2024-2028. Desse total, US$ 2,169 bilhões serão destinados às terras raras. O valor é superior, por exemplo, às previsões de investimentos em ouro, lítio e titânio.>
Para Julio Nery, o que justifica esse incremento é a expectativa de demanda em relação aos minérios. Estudos da Comunidade Europeia, Estados Unidos e outros países apontam projeções de demandas elevadas para as próximas décadas. Ele lembra ainda do sucesso da operação de terras raras em depósitos de argilas iônicas no estado de Goiás. “Isso também impulsionou o interesse porque essa mesma argila foi identificada em outros estados, como Minas Gerais e Bahia”, disse.>
Por incrível que pareça, o Brasil já dominou a tecnologia para separar os elementos que formam as terras raras. Segundo o geólogo Williame Medeiros, as Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que explora uma mina de urânio na cidade de Caetité, no Alto Sertão baiano, já processou esses minérios entre as décadas de 1970 e 1980 e chegou a desenvolver uma rota de separação. >
O trabalho, por sua vez, foi interrompido após a China descobrir as suas reservas e passar a controlar o preço do produto. “Como baixou bastante o preço, ficou mais difícil de explorar. Porque existe um custo a ser pago e o Brasil não investiu para aumentar a competitividade, assim essa rota foi sendo esquecida”, disse Medeiros. >
Agora o país está em busca de recuperar a tecnologia e o tempo perdidos. “Todas as empresas que exploram terras raras têm como um dos principais objetivos descobrir como separar os elementos, avançar um pouco mais no beneficiamento e não entregar os sem a separação”, completou.>
Entre as iniciativas de pesquisa, está a planta piloto desenvolvida pelo SENAI Cimatec, em parceria com a Mineradora Tabuleiro e a Brazilian Rare Earths, na cidade de Camaçari. O projeto foi inaugurado com o objetivo de um dia replicar em escala industrial o que é feito em laboratório. O Centro de Tecnologia Mineral (CETEM) também vem desenvolvendo trabalhos com capital público e o CBPM investe em pesquisa para tentar entender o melhor beneficiamento destes materiais.>
Espera-se que esse investimento retorne como receita econômica. Além do ganho tributário com os royalties da mineração, os aportes trarão uma melhoria de qualidade do material, pois a cada etapa de beneficiamento alcançada o preço do minério no mercado internacional sobe. >
Atualmente, a CBPM tem priorizado projetos que tragam a verticalização do processo. Ou seja, que estejam focados não apenas em retirar o material e vender com baixo beneficiamento, mas que contemplem formas de processá-lo.>
A ideia da entidade é que o beneficiamento das terras raras na Bahia siga o caminho da exploração de sílica na cidade de Belmonte. Hoje, o material é usado na produção de pedra para revestimento, mas, graças a uma parceria com uma mineradora canadense, está em curso a implantação de uma fábrica de placas solares utilizando o mesmo minério. >
Com isso, uma commodity de baixo valor agregado dará lugar a uma peça de alta tecnologia, o que vai refletir em aumento na arrecadação de impostos, qualidade de empregos e desenvolvimento econômico do local.>
Legislação e responsabilidade socioambiental>
Assim como acontece em outras atividades mineradoras, a exploração de terras raras levanta uma série de questões em relação à segurança ambiental. Williame Medeiros ressalta que é legítima a preocupação, sobretudo por conta de episódios como os ocorridos em Brumadinho e Mariana. No entanto, o especialista alerta que eventos catastróficos não podem ser tratados como uma média. >
“A mineração deve ser responsável e inclusiva. Não basta apenas explorar a região. Se a população diretamente impactada por aquela mina não for beneficiada, a mineração não está sendo eficiente”, disse.>
Atualmente, tramita no Congresso Brasileiro a Política Nacional de Minerais Estratégicos. A proposta já teve a urgência aprovada pela Câmara e visa criar um marco regulatório moderno para fomentar a pesquisa e a produção de minerais essenciais à transição energética e à economia verde, como lítio, nióbio e terras raras. >
Em outubro de 2025, foi instalada no Senado Federal a Frente Parlamentar em Defesa das Terras Raras Brasileiras, cujo objetivo é debater estratégias para a exploração sustentável desses minerais no país, fortalecer a soberania nacional, incentivar a cadeia produtiva e propor um marco regulatório moderno para o setor, além de monitorar sua implementação.>
Em 2023, o Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) passou por uma readequação para aprimorar seu papel de assessoramento à Presidência da República na formulação de políticas e diretrizes para o desenvolvimento do setor mineral brasileiro. Dentre as responsabilidades do Conselho destacam-se a formulação de políticas sustentáveis para os diversos segmentos que compõem o setor, incluindo a segurança de barragens, o alinhamento de programas e ações com outras políticas públicas setoriais e a integração da mineração com a estratégia nacional de transição energética.>
Salvador sediou maior evento de mineração do país >
Em 2025, a Expo & Congresso Brasileiro de Mineração (Exposibram) desembarcou em Salvador. Organizado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o evento abrange oportunidades de investimento e negócios no Brasil. A edição, que aconteceu no Centro de Convenções Salvador, reforçou o protagonismo da Bahia e do Nordeste no cenário mineral. >
O evento reuniu as maiores mineradoras em atuação no Brasil e no mundo, fornecedores de equipamentos e tecnologia, universidades, autoridades, entidades de classe e representantes de comunidades nacionais e internacionais. A programação técnica abordou temas como inovação, ESG, mineração em novas fronteiras, diversidade, inclusão, responsabilidade social e ambiental, e muito mais. >