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Ronaldo Jacobina
Publicado em 28 de março de 2026 às 11:00
Em uma cidade que se orgulha de suas histórias visíveis — igrejas centenárias, casarões coloniais, ladeiras conhecidas no mundo inteiro — há também uma Salvador mais discreta, quase secreta, feita de achados que escapam ao olhar apressado até mesmo dos soteropolitanos. No embalo das celebrações do aniversário da cidade, que domingo (29) completa 477 anos, trago aqui o Casa Tua, um bistrô discreto, localizado no Caminho das Árvores. >
Sem fachada chamativa ou movimento de rua que denuncie sua presença, o restaurante funciona dentro de uma loja de decoração, que tem o mesmo nome do restaurante, e é quase como um segredo compartilhado entre poucos. Entrar ali é, antes de tudo, um gesto de curiosidade. Sair, a certeza de que foi muito feliz à mesa e de que logo voltará.>
O bistrô Casa Tua opera no limiar interessante entre loja e restaurante, onde os limites se dissolvem com naturalidade. Não há ruptura brusca entre um ambiente e outro — tudo parece fazer parte de uma mesma narrativa estética e sensorial. A mesa pode ser, literalmente, a que está à venda; assim como o quadro na parede, também. E isso reforça a sensação de estar em uma casa, não apenas em um endereço gastronômico.>
Esse caráter híbrido não é apenas um conceito bem executado, mas também um reflexo direto da trajetória de seus criadores. À frente do bistrô, estão os chefs Erika Peleteiro e Helder Dantas, casal que construiu uma história conjunta na cozinha e fora dela. Depois de temporadas exigentes na França — incluindo passagens por cozinhas estreladas — voltaram à Bahia com a intenção de traduzir técnica em acolhimento, sem perder a identidade.>
O resultado aparece com clareza no menu que marca o primeiro ano da casa. Há ali um equilíbrio bem resolvido entre repertório clássico e sotaque local, sem excessos nem afetação. Entradas como o croquete de cupim revelam esse desejo de dialogar com a memória afetiva, enquanto preparações como o clássico tartare de boeuf apontam para uma base técnica sólida.>
A cozinha aberta reforça a proposta de proximidade. Não há encenação: o serviço acontece à vista, criando uma dinâmica mais direta entre quem cozinha e quem experimenta. Situação propícia pra você não se ater ao cardápio e pedir ao chef que sugira o que você vai comer. Foi o que fiz e deu muito certo. Além das entradas acima, ele me trouxe um Peixe com Ratatouille e Nhoque grelhado, e um Filé Grelhado com declinação de cenouras, que adorei. Um detalhe que, embora discreto, contribui para a sensação de pertencimento — como se o cliente fosse, de fato, recebido em casa. >
E se você tiver a sorte do casal de chefs estar num dia mais tranquilo, não deixe de chama-los para uma prosa. A conversa é daquelas tão boas que difícil é ir embora. Ainda mais se a pequena Sophie, filha do casal nascida na França, já estiver saído da escola. É aí que você vai achar que a Casa é Tua mesmo. >
Em uma cidade como Salvador, que carrega camadas de história, cultura e reinvenção, são esses espaços menos explícitos e cheios de afetos que ajudam a contar uma narrativa mais rica. Lugares que não estão necessariamente no roteiro de todo mundo, mas que dizem muito sobre o espírito da cidade. Descobri-los é quase um privilégio. Voltar, uma escolha natural.>
Serviço:>
@bistrocasatua>
Alameda das Seringueiras, 42, Caminho das Árvores>
Reservas: 71 3039 1575>