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Pilar del Río relembra pânico de Jorge Amado em voo e celebra laço com Saramago

Jornalista se encontrará com Paloma Jorge Amado no dia 18 de abril

  • Foto do(a) author(a) Alan Pinheiro
  • Alan Pinheiro

Publicado em 26 de março de 2026 às 05:00

Pilar del Río, jornalista e presidente da Fundação José Saramago
Pilar del Río, jornalista e presidente da Fundação José Saramago Crédito: Divulgação

Literatura, memória e reencontros. A Bienal do Livro Bahia, que acontece de 15 a 21 de abril no Centro de Convenções Salvador, deste ano vai contar com a presença da jornalista espanhola Pilar del Río, viúva do escritor português José Saramago, como uma das atrações mais esperadas do evento.

No dia 18 de abril, a presidente da Fundação José Saramago se encontrará com Paloma Jorge Amado, filha de Jorge Amado e Zélia Gatai. Antes do início do evento, a jornalista conversou com o CORREIO sobre a amizade literária entre Amado e Saramago, as trocas culturais Salvador-Lisboa e os projetos de memória que cada uma dirige em torno desses dois grandes nomes da literatura mundial.

Pilar del Río e José Saramago com Zélia Gatai e Jorge Amado por Divulgação

A senhora e Paloma Amado dividem a missão de preservar o legado de dois gigantes da literatura. O que existe de comum no desafio de gerir essa memória?

A literatura. Eles escreveram, nós agora mantemos o legado deixado. O que nos une é a possibilidade de compartilhar as obras e também o processo de criação, coisa que a Paloma é mestra em fazer porque foi companheira de vida do seu pai. Leio as crônicas de Paloma e entendo os livros de Jorge Amado como se ele estivesse lendo-os com a sua acolhedora voz, cheia de tonalidade, como se estivesse sempre sorrindo e, ao mesmo tempo, em permanente assombro.

Como jornalista e escritora, quão importante a senhora acha que é a manutenção do diálogo sobre as obras de Saramago hoje?

As feiras de livro, a Bienal, os encontros literários têm um papel importante, sobretudo, para os leitores. Os autores já escreveram os seus livros e lançaram-nos ao mundo, cumpriram a sua parte. Agora, nós devemos manter viva essas obras, é nosso direito e ao mesmo tempo nosso dever. Com tantos leitores e tanta paixão envolvida, a Bienal é um ponto muito importante nas cerimônias de encontros.

Como era a relação entre vocês dois, Jorge Amado e Zélia Gatai? Vir para Salvador te faz lembrar de alguma história? Como é a sua relação com Paloma?

A relação com a Paloma é extraordinária: sempre que estamos uma na cidade da outra, nos visitamos. Com Zélia e Jorge a comunicação era franca e contínua, por telefone e por fax. E, claro, pessoalmente: na Bahia, obviamente, e também em Paris, em Roma, Madri, Santiago...

Existe alguma memória pessoal ou história de bastidor dos encontros entre Saramago e Amado que gostaria de compartilhar?

Recordo que não se podia comer na mesa de jantar da casa de Zélia e Jorge em Paris porque estava sempre cheia de correspondências que eles juravam que um dia responderiam. Um dia descobrimos que eu e Jorge compartilhamos o mesmo medo, o de voar. Em uma viagem à França, o avião teve um problema e foi anunciado que fariam um pouso de emergência. No meio do caos, Jorge começou a gritar pedindo os jornais porque “não queria morrer sem saber o que estava acontecendo no mundo”. Quando tive que dizer algumas palavras de despedida a José, no cemitério em Lisboa, lembrei dessas palavras de Jorge. Disse que se José Saramago quisesse saber o que tinha sucedido no mundo no dia em que morreu, saberia o que contou os jornais: que um homem bom tinha morrido. Lembrei de Jorge nesse dia.

A senhora sempre teve uma voz ativa no feminismo e nas questões sociais. Como entende o papel das mulheres na liderança de grandes instituições?

Como uma liderança diferente. Repara que não uso qualificativos, não digo que seja melhor nem pior, porque isso dependerá de muitas coisas. Repito, é uma liderança distinta. Não acho que uma líder feminina e feminista ordene matar, por exemplo, colocando uma bandeira à frente dos seus filhos. Não acho que o poder estaria diante da felicidade daqueles que parimos, que os filhos de outras mulheres não nos importariam. Para as grandes lideranças femininas e feministas, cuidar é um dever e uma honra. Não nos importa o heroísmo da guerra, preferimos sentir com outros: empatia e simpatia. E não me diga que não há mulheres que governem assim, responderei que há, sim. E que houve mulheres que não tiveram outro remédio a não ser governar dentro do esquema patriarcal e por isso sofreram o que não está escrito. Também te digo que há homens que saíram do padrão, que por cima dos seus egos e palcos colocaram a obrigação de cuidar. Vio-o no Papa e em governantes que dizem, de forma rotunda: esta guerra não é minha, queremos paz.

Jorge Amado dizia que a Bahia era uma "Roma Negra", e Saramago tinha uma relação muito particular com a lusofonia e o Brasil. Como a senhora descreveria essa "ponte" cultural?

Uma ponte com bases sólidas, claras e visíveis. Feita de respeito, consideração, amor e lealdade. Saramago reivindicava o acordo ortográfico respeitando, obviamente, as características linguísticas. Impôs que os seus livros fossem editados no Brasil da forma como ele os escrevia. E dizia: “Quero ler Jorge Amado como ele escreveu, não quero adaptações”. Defendiam esse idioma que, com características distintas, une continentes, e com os seus livros, trabalhos e sonhos, tornaram-se universais.