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'Fantasia e ficção científica funcionam como espelhos políticos e históricos', diz escritora bestseller

Hayley Gelfuso acaba de lançar O Livro das Horas Perdias no Brasil; obra já foi publicada em mais de 20 países

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 13 de maio de 2026 às 06:00

Hayley Gelfuso, autora de O Livro das Horas Perdidas (Intrínseca)
Hayley Gelfuso, autora de O Livro das Horas Perdidas (Intrínseca) Crédito: Divulgação

A imagem de uma biblioteca onde os mortos falam com os vivos e as memórias têm o poder de mudar o mundo foi uma das primeiras ideias que surgiu na mente da escritora Hayley Gelfuso, enquanto lia um livro justamente sobre a história das bibliotecas. Aquele insight foi justamente um dos pontos de partida para o que, anos depois, viria a ser O livro das horas perdidas, seu romance de estreia, que chegou às livrarias brasileiras no mês passado, pela Intrínseca.

Publicado em mais de 20 países, a obra mescla ficção científica, aventura e romance histórico, em meio a uma ambientação que vai de pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial até a Guerra Fria. Na trama, a protagonista Lisavet percebe que está presa em uma biblioteca onde as memórias dos mortos estão armazenadas em livros, mas há pessoas entrando para queimar alguns dos exemplares - o que mudaria o passado.

“Fantasia e ficção científica têm uma longa tradição de funcionar como espelhos políticos e históricos", diz Hayley, em entrevista exclusiva ao CORREIO. “Ao deslocar acontecimentos familiares para cenários ou linhas do tempo alternativas, a fantasia cria uma espécie de ‘distância segura’, que permite aos leitores se conectarem de forma mais aberta com histórias difíceis", acrescenta a autora.

O livro das horas perdidas, de Hayley Gelfuso (Intrínseca)
O livro das horas perdidas, de Hayley Gelfuso (Intrínseca) Crédito: Reprodução

Poeta e escritora, Hayley Gelfuso vive em Chicago e trabalha no setor sem fins lucrativos, em uma entidade ambiental. Ao jornal, ela falou sobre o processo de escrita, a mistura de gêneros na obra e a relação com o Brasil.

Confira a entrevista na íntegra 

Como você apresentaria sua história a novos leitores?

O Livro das Horas Perdidas conta a história de uma jovem chamada Lisavet Levy que se vê presa no espaço tempo, uma biblioteca interdimensional onde todas as memórias dos mortos estão armazenadas em livros. Ela percebe que pessoas conhecidas como guardiões do tempo estão entrando no espaço tempo para queimar alguns dos livros, alterando o passado, e decide impedi-los. Suas ações chamam a atenção de um guardião do tempo americano chamado Ernest Duquesne, que foi designado para impedir que ela interfira. O que acontece entre eles muda tanto suas próprias vidas quanto o curso da história para sempre.

Este é o seu romance de estreia. Como a ideia surgiu e como foi o processo de escrita?

A ideia surgiu enquanto eu lia um livro sobre a história das bibliotecas, quando me deparei com um poema que termina com a frase: “aqui estão os mortos que falam com aqueles que trabalham”. Isso imediatamente despertou em mim a imagem de uma biblioteca onde os mortos falam com os vivos e onde as memórias têm o poder de mudar o mundo. As primeiras versões desse livro foram bastante exploratórias, com esboços longos e cheios de desvios, além de tramas e personagens inteiros que acabaram não entrando na versão final. Levei cerca de dois anos para finalmente ‘descobrir’ sobre o que a história realmente era.

A ex, de Freida McFadden (Arqueiro). Um suspense psicológico que mostra como é difícil deixar certas coisas para trás. Principalmente quando nos fazem mal. A jovem Cassie Donovan, de 26 anos, ganha a vida administrando, junto com uma amiga, a livraria que herdou dos avós. Até que Joel Broder entra na loja. Existe apenas um porém: a ex-namorada perfeita dele, Francesca, uma mulher linda, brilhante e adorada por todos os amigos de Joel. Lançado no dia 5. por Reprodução

Estamos vivendo um momento em que mais leitores parecem abertos a explorar diferentes tipos de fantasia. Como você enxerga essa mudança e de que forma ela impactou o seu trabalho? Na sua opinião, o que explica essa tendência nos últimos anos?

Sempre me senti atraída por escrever histórias que não se encaixam confortavelmente em um único gênero, então essa abertura atual para formas híbridas tem sido muito significativa para o meu trabalho. Isso é uma grande parte do motivo que fez com que O Livro das Horas Perdidas se conectasse com tantos leitores. Hoje existe um interesse maior por histórias que misturam fantasia, história e outros estilos sem a necessidade de serem rigidamente categorizadas.

Desde a pandemia, também parece existir um desejo coletivo mais forte por escapismo e a fantasia é uma das maneiras mais expansivas de sair da realidade imediata enquanto ainda processamos tudo isso de forma indireta. Ao mesmo tempo, acredito que os leitores passaram a priorizar os personagens acima de qualquer outra coisa. Os elementos de gênero podem ser elaborados ou até estranhos, mas o que realmente fica com os leitores é a verdade das emoções, como relacionamentos, luto, desejo, identidade. A fantasia é especialmente eficaz em destacar essas experiências humanas, porque seus mundos conseguem externalizar conflitos internos de uma forma que o realismo, às vezes, não consegue.

O que parece diferente agora é que os leitores estão mais dispostos a acompanhar um livro por onde quer que ele vá, tanto emocionalmente quanto estruturalmente, em vez de esperar que ele permaneça dentro de limites já estabelecidos. Essa liberdade abriu espaço para narrativas mais complexas, que misturam gêneros e rompem fronteiras tradicionais.

Seu livro entrelaça diferentes linhas do tempo conectadas a eventos históricos, como a Segunda Guerra Mundial. De que forma a fantasia pode ajudar os leitores a se envolverem ou a compreenderem melhor realidades políticas e históricas?

Fantasia e ficção científica têm uma longa tradição de funcionar como espelhos políticos e históricos. De Margaret Atwood a Ursula K. Le Guin, passando por autores mais antigos como J.R.R. Tolkien, esses gêneros frequentemente utilizam mundos inventados para examinar sistemas reais de poder, guerra e escolhas morais, sem as limitações ou resistências que podem surgir com o realismo direto. Ao deslocar acontecimentos familiares para cenários ou linhas do tempo alternativas, a fantasia cria uma espécie de “distância segura”, que permite aos leitores se conectarem de forma mais aberta com histórias difíceis.

No caso de narrativas inspiradas na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, adicionar uma camada de fantasia pode ajudar os leitores a sentir a lógica emocional dos acontecimentos históricos sem exigir um conhecimento acadêmico prévio sobre o período. Isso torna grandes realidades políticas mais imediatas e humanas. Ao reinterpretar a realidade por meio da metáfora e da invenção, a fantasia convida o leitor a perguntar não apenas “o que aconteceu?”, mas também “como o poder funciona e como é viver dentro dele?”.

Como foi o processo de construir um universo centrado no conceito de tempo?

Para mim, o primeiro passo foi decidir o que o ‘tempo’ realmente faz nesse mundo. Ele é linear, ramificado, composto por camadas, frágil? Assim que defini que o tempo poderia ser manipulado, armazenado ou até perdido, precisei pensar nas implicações emocionais e éticas disso. Se memórias podem ser extraídas do tempo, a quem elas pertencem? Se momentos podem ser revisitados ou alterados, o que acontece com o luto, o arrependimento ou a responsabilidade?

A partir daí, me concentrei em ancorar esse conceito em teorias científicas do mundo real. Claro que nenhuma das ciências presentes no livro é ‘real’ propriamente dita, mas eu queria criar uma estrutura baseada em teorias concretas. A teoria de Hermann Minkowski sobre o tempo como a quarta dimensão, por exemplo, ou conceitos da física quântica que começavam a surgir nas décadas de 1950 e 1960. Os mecanismos de viagem no tempo ou de acesso ao tempo podem se tornar muito abstratos rapidamente, então tentei construir esse sistema em torno de ideias que parecessem mais acessíveis ao leitor.

Por fim, pensei no custo histórico. Qualquer sistema que trate o tempo como um recurso precisa ter consequências, caso contrário ele deixa de parecer significativo. Por isso, toda interação com o tempo nesse universo carrega um peso: o que é ganho, o que é apagado, o que não pode ser recuperado. Essa tensão entre possibilidade e perda é o que sustenta todo o mundo da história.

Seu livro mistura fantasia com elementos de outros gêneros. Você acredita que os autores contemporâneos estão mais inclinados a ultrapassar fronteiras entre gêneros ou isso sempre fez parte da narrativa?

Acho que essa mistura de gêneros sempre fez parte da forma de contar histórias. É mais sobre os rótulos usados em diferentes momentos da história da publicação. Mitos, folclore e as primeiras obras de ficção especulativa já combinavam o que hoje chamamos de fantasia, horror, romance e narrativa histórica muito antes de essas categorias serem formalizadas.

O que parece diferente no cenário contemporâneo não é exatamente a existência dessas narrativas híbridas, mas a abertura em torno delas. Leitores e escritores parecem menos interessados em impor limites rígidos entre gêneros e mais interessados no que uma história provoca emocionalmente ou transmite tematicamente. Essa mudança cria espaço para livros que transitam livremente entre gêneros sem precisar justificar essa mistura.

Você imaginava que seu livro chegaria aos leitores do Brasil? Quais são suas expectativas em relação aos leitores brasileiros?

Nem nos meus sonhos mais ousados imaginei que este livro chegaria a tantos lugares ao redor do mundo. Na faculdade, cursei várias disciplinas em português e história do Brasil como parte do meu programa de estudos (obrigado, Professora Gândara), então sempre tive uma grande admiração pela cultura brasileira e pela resiliência do seu povo ao longo da história.

Mais do que qualquer coisa, espero que os leitores brasileiros sintam que a história dialoga com suas próprias formas de compreender história, memória e sobrevivência. Cada leitor leva para um livro sua própria bagagem cultural e emocional, e tenho plena consciência de que o Brasil possui uma tradição literária riquíssima, além de uma experiência histórica complexa e profundamente multifacetada. Se o livro conseguir encontrar os leitores brasileiros não como algo externo ou estrangeiro, mas como algo em que eles possam entrar e ao qual possam responder, isso teria um significado enorme para mim. Minha expectativa não é que o livro seja recebido de uma única maneira, mas que seja lido através de diferentes perspectivas, inclusive algumas que eu jamais poderia prever.