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'A sensação de segurança de ser concursado já não existe', diz funcionário da Petrobras

Plano de demissão voluntária foi anunciado e deve ser implementado em outubro

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  • Gabriel Amorim

Publicado em 27 de setembro de 2019 às 06:00

 - Atualizado há um ano

. Crédito: Mauro Akin Nassor/Arquivo CORREIO

“É assistir ao fim de algo que eu nunca pensei que fosse acabar”. É assim, com essas palavras,  que um funcionário da Petrobras, após 22 anos de casa, começa a ver a desocupação Torre Pituba, a sede da empresa na Bahia, virar realidade. Nesta quinta-feira (26), a companhia lançou mais um Programa de Desligamento Voluntário (PDV), o terceiro deste ano, e confirmou o fim das atividades não só na Bahia, mas em todo o Nordeste.

O PDV mais recente é exclusivo para empregados que trabalham no segmento corporativo. Segundo a estatal, a medida tem o objetivo de “tornar a empresa mais sustentável, com uma gestão eficiente de pessoal”. Quem desejar assegurar os benefícios da medida terá um prazo de 45 dias para aderir, segundo informações do Sindicato dos Petroleiros da Bahia (Sindipetro-BA).

O anúncio vem justamente em meio a um cenário de crise. Nesta quarta-feira (25), o CORREIO revelou que a gerência da Torre Pituba, unidade em Salvador que deve ser desativada até 30 de junho de 2020, apresentou a funcionários a possibilidade de demissão de concursados. 

Nesta quinta, a notícia se confirmou assim que a estatal anunciou uma revisão de seu posicionamento estratégico em todo o país. O plano, que vale para o quadriênio de 2020 a 2024, indica que o foco da empresa será a exploração e produção de petróleo em águas profundas. O anúncio inclui saída integral da distribuição e transporte de gás, fim dos negócios de fertilizantes, de distribuição de GLP e de biodiesel. 

Entre os funcionários, a notícia intensificou o clima ruim que toma conta dos corredores. “O clima está horrível, há uma sensação de injustiça. As pessoas não conseguem entender o porquê dessa decisão. Internamente, todo mundo entende como uma decisão de cunho político-partidário. Escolher justamente esvaziar a Bahia, o Nordeste...”, comentou uma funcionária.

Regional Para o diretor de comunicação do Sindipetro-BA, Radiovaldo Costa, a decisão não leva em conta os impactos na economia baiana. As águas profundas onde a estatal decidiu atual referem-se à área do pré-sal - o que significa dizer que a Petrobras deixaria de ser uma empresa nacional integrada para se tornar uma empresa regional – no Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo.“A Petrobras oficializou tudo que a gente vinha dizendo. Ela decidiu, e afirma, no próprio documento, que vai focar no Sudeste. Vai sair de Candeias; vai sair do refino com a RLAM; vai sair dos fertilizantes, do biodiesel, movimentação de gás e derivados com a Transpetro; vai sair do petróleo e gás e ainda está saindo dos escritórios”, disse Costa.Medo Na Torre Pituba, quem parava para conversar com o CORREIO preferia o anonimato para contar suas histórias e compartilhar os medos com o futuro incerto. “Ninguém sabe muito bem o que fazer ainda. Nenhuma possibilidade que a empresa nos oferece é 100% satisfatória, então a gente não quer ficar expondo nossas escolhas antes de estar tudo certo”, disse um petroleiro.

As questões de quem trabalha na Bahia e enfrenta a notícia são variadas. Vão desde a necessidade de se separar da família, passando pela insegurança do novo posto, até ter que concorrer em uma seleção interna para conseguir a vaga em outro estado, além de custear a mudança.

Segundo funcionários, as regras do auxílio-transferência estão mudando. O CORREIO apurou que, em outros momentos, o funcionário que fosse se mudar teria direito a receber uma verba de transferência, além dos custos da mudança, passagens e uma ajuda mensal que variava de acordo com o custo de vida do novo local. Agora, funcionários falam em taxa única.

“Essa mudança nas regras é mais um ataque que a direção da empresa faz. Além do assédio, da pressão e da intimidação”, diz Costa. Até o fechamento desta reportagem, a Petrobras não respondeu ao CORREIO.

Dúvidas Uns preferem privilegiar a proximidade da família a se manter trabalhando na companhia.“A sensação de segurança de ser concursado já não existe mais, e eu fico pensando se vale a pena mudar a vida inteira pra se manter num emprego desses. Quem garante que daqui a um tempo não aconteça a mesma coisa numa outra cidade e eu seja prejudicado de novo?”, questiona um funcionário, que atua como advogado.Com 12 anos de casa, eletrabalha na área jurídica da Petrobras, mas preferiu não ter sua identidade revelada. “Eu tenho filho pequeno, ele acabou de entrar na escola, passou por um processo difícil de adaptação, teve questões de saúde, mesmo. Aí eu me mudo e tenho que fazer ele passar por tudo isso de novo. Não vale a pena”, explica.

Apesar de já estar praticamente decidido a aderir ao programa de demissão voluntária proposto pela empresa, o profissional se diz receoso quanto ao futuro com a mudança de trabalho. “O pagamento de um advogado em um escritório privado não chega nem perto do que a gente ganha aqui, com todos os benefícios. Além da dificuldade de encontrar o posto, ainda vou ter que  me adaptar a uma realidade de vida com um salário três ou quatro vezes menor”.

Na Petrobras, segundo o último edital de concurso que contratou advogados, em 2015, a remuneração mínima garantida para o setor era de R$ 8.866,74.

Questionada sobre as mudanças no benefício de transferência e sobre diversas outras questões relativas ao Plano de Demissão Voluntária, e a situação das atividades da empresa na Bahia e no Nordeste, a Petrobras não respondeu nenhuma das questões até o fechamento desta reportagem.  Aposentadoria Um outro caminho, escolhido por muitos daqueles com mais tempo de casa, é o da aposentadoria. “Eu só vou sair de Salvador se a empresa me indicar um posto, garantir um cargo. Eu não vou procurar, faltam dois meses para me aposentar, não vale a pena”, explica o funcionário que trabalha na empresa há 35 anos. “Eu nunca vi a Petrobras desse jeito, o clima é o pior possível”, completa.

Mas, a proximidade com a possibilidade de se aposentar faz com que alguns sacrifícios temporários sejam a escolha de outros"Tenho colegas com filhos que, por só faltarem dois ou três anos para se aposentar, estão preferindo ir sozinhos e deixar a família aqui, ficar separados esse tempo”, explicou uma funcionária.Segundo ela, manter a família separada tem sido a escolha de vários dos seus colegas. “A maioria dos que trabalham aqui tem 10 ou 15 anos de empresa, são carreiras que estão no começo, no meio, de pessoas que têm suas famílias constituídas aqui, com cônjuges que trabalham em outros lugares. É separar a família ou interromper a carreira”, pondera.        

Do outro lado da moeda, quem ainda está no começo da caminhada também não escapa de ter que tomar a decisão sobre os próximos passos da carreira. “Meus pais trabalharam aqui, sempre passaram uma imagem muito positiva e esse sempre foi um sonho pra mim. Então, quero continuar, espero encontrar uma vaga pra fazer o mesmo que eu faço aqui lá no Rio”, espera um engenheiro que trabalha na área de operações.      

*Com a supervisão da editora Mariana Rios