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Wendel de Novais
Publicado em 4 de junho de 2026 às 08:36
O sequestro de um motorista de aplicativo resultou em uma operação contra crimes de homicídio, tortura, extorsão, cárcere privado e ocultação de cadáver em Eunápolis, no extremo sul da Bahia. A Operação Libertatis, realizada na manhã de terça-feira (2), teve como alvo integrantes do grupo apontado como responsável por manter um verdadeiro “tribunal do crime” na cidade. >
O grupo, de acordo com informações de policiais ouvidos pela reportagem, tem como uma de suas categorias sob mira os motoristas de aplicativo. Registrado no dia 6 de março, o último caso em que um profissional foi alvo dos criminosos no município ocorreu após ele aceitar uma corrida com destino ao bairro Parque da Renovação, chegar ao local e ser rendido.>
Motorista de aplicativo é sequestrado e torturado em Eunápolis
Segundo a Polícia Civil, o homem foi levado para uma área de mata utilizada pela organização criminosa, onde permaneceu em cárcere privado e sofreu agressões físicas e psicológicas. Após diligências realizadas pelos investigadores, o cativeiro foi localizado e a vítima foi encontrada ainda com vida.>
Durante a ação de resgate, os suspeitos teriam atirado contra os policiais antes de fugir por uma extensa área de vegetação. A partir da identificação dos envolvidos, a investigação chegou à operação desta terça-feira (2). Na ação, um dos alvos foi localizado e outros quatro seguem foragidos.>
Na mira>
O delegado e coordenador regional da 23ª Coorpin, Moabe Lima, explica que, apesar de a categoria ser formada por trabalhadores, alguns motoristas de aplicativo acabam sendo cooptados por facções criminosas e, por consequência, passam a ser alvo ao circular por áreas ocupadas por grupos rivais.>
“Vou te dar um exemplo: tem estelionatário praticando golpes que está desviando a nossa possibilidade de localizar os IPs das máquinas que eles utilizam. Eles colocam o equipamento no carro de um motorista de app e pagam o motorista. O motorista continua fazendo as corridas dele, mas com o equipamento no carro”, explicou o delegado.>
Segundo ele, parte dos crimes envolvendo motoristas de aplicativo tem relação indireta com a dinâmica do tráfico de drogas e das facções criminosas. Ele afirma que alguns profissionais acabam se envolvendo em atividades ligadas a grupos criminosos e, quando essa ligação se torna conhecida por facções rivais, podem passar a ser alvo de violência, incluindo ameaças, sequestros e homicídios.>
“Aqui já teve facção que pagou um motorista de aplicativo para transportar restos mortais de uma vítima que foi decapitada. Em outro caso, no dia do ataque ao diretor do presídio, um motorista foi pago para levar um dos envolvidos para fora da cidade. Os caras sabem o que estão fazendo. O problema é que muitos enxergam isso como um dinheiro fácil e acreditam que não vai acontecer nada. Mas acontece”, completa Lima.>
Weverton era motorista de app e foi morto por engano
Inocente esquartejado>
O delegado ressalta que nem todos os casos envolvendo motoristas de aplicativo vítimas de violência estão ligados ao transporte de criminosos ou à atuação de facções. Segundo ele, há ocorrências motivadas por outras circunstâncias, como suspeitas de colaboração com as forças de segurança.>
Em um dos casos citados, um motorista foi assassinado após ser apontado por integrantes do crime organizado como alguém que repassava informações à Polícia Militar, o que não se comprovou, já que a vítima era apenas amiga de PMs e também atuava como segurança em eventos particulares.>
O motorista de aplicativo em questão é Weverton Antônio dos Santos, 25 anos, que foi morto e esquartejado por traficantes no ano passado. Weverton morava com os pais no centro de Eunápolis, mas no dia 13 de maio de 2025 saiu de casa e não voltou mais.>
“A gente viu que ele não voltou, mas meu filho trabalhava de motorista de app e rodava muito. Alguns dias, dormia com a namorada. De manhã, o meu outro filho me ligou e disse que tinha recebido vídeo dele todo cortado. Eu logo achei que era um acidente, que eu iria ao hospital, mas fui para a delegacia”, contou Nalva Ramos, 48, mãe da vítima, em entrevista ao CORREIO à época.>
Weverton passou a frequentar o bairro Alecrim, uma localidade periférica marcada pela atuação de uma facção. Ele foi capturado, teve o celular vasculhado pelos criminosos, que encontraram contatos de policiais militares em sua agenda. O vídeo da vítima após o esquartejamento foi enviado a policiais com a frase: “tome aí seu x9”.>
Outro caso>
Meses antes, outro registro: o sequestro e execução de Athus Alves Bernado, motorista de aplicativo morto em fevereiro de 2025 em Eunápolis. Os criminosos integravam uma facção conhecida como Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), que foi incorporada ao Comando Vermelho (CV) com a chegada do grupo criminoso na cidade.>
Athus foi capturado, interrogado e morto após os traficantes suspeitarem que ele seria informante do Bonde do Maluco (BDM). A ligação da vítima com o crime nunca foi comprovada, mas a participação dos indiciados no homicídio, sim. Os envolvidos na execução foram identificados como Loran Matheus Mota Pereira, o “Alongado”, Iago Souza Santos, o “Capetinha”, Anderson Oliveira de Souza, o “Andinho”, Cauan Araújo dos Santos, o “Biscoito”, e Aldo Henrique Ferreira de Souza.>
Todos eles eram velhos conhecidos da polícia local por acumularem uma série de prisões, por tráfico, roubo e outros crimes letais contra a vida. Athus foi submetido a um julgamento clandestino em um “tribunal do crime”, mantido em cativeiro, interrogado e morto, tendo o corpo posteriormente ocultado. O veículo dele foi encontrado pela polícia em uma área de mata, onde havia sido abandonado pelos criminosos.>
Motorista foi encontrado morto e carro localizado em área de mata