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Donaldson Gomes
Publicado em 10 de junho de 2023 às 14:00
- Atualizado há 2 anos
Os produtores agrícolas baianos deverão ter em breve um retrato claro das condições logísticas do estado para o escoamento da produção e uma visão a respeito dos melhores caminhos para o desenvolvimento da infraestrutura de transportes do estado. Um amplo estudo de modelagem sobre as principais necessidades do agronegócio para o escoamento de safras e a recepção de insumos deverá ser iniciado em breve por um grupo de entidades representativas do setor. >
Completo, o estudo vai apontar a necessidade de investimentos tanto nos modais rodoviários, envolvendo estradas vicinais, rodovias estaduais e federais, o modal ferroviário e também a infraestrutura portuária. A expectativa é de que os primeiros resultados do estudo sejam conhecidos dentro de quatro e seis meses. >
Segundo o produtor rural Moisés Schmidt, vice-presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) e diretor regional da Federação da Agricultura da Bahia (Faeb) no Oeste, o conteúdo deverá reunir as principais necessidades de infraestrutura logística do setor. “Este trabalho nos dará uma visão muito clara do que precisa ser feito para que sejamos capazes de utilizar todo o potencial agrícola que nós temos”, acredita. Moisés Schmidt acredita que mapeamento vai demonstrar melhores alternativas para escoar produção agrícola baiana (Foto: Divulgação) Segundo ele, trata-se de um projeto cujos benefícios devem se estender para além das fronteiras do Oeste da Bahia. “Este mapeamento será muito importante para a agricultura brasileira”, acredita Schmidt. O produtor rural lembra a estrutura para o transporte de cargas esteve no centro das conversas do setor com representantes da Política na última semana, durante a Bahia Farm Show, de 6 a 10 de junho, em Luís Eduardo Magalhães. >
“Para ter uma agricultura forte, quando falamos da porteira das fazendas para fora, a logística é o principal fator crítico para agregar valor”, ressalta Schmitd. Ele lembra que algumas culturas de maior valor agregado podem suportar condições distantes do ideal, entretanto há outras que só se viabilizam com boas condições de escoamento, a exemplo do milho, sorgo e milheto. “Tem culturas agrícolas fundamentais para nós cuja lucratividade pode ser perdida simplesmente por conta de uma estrada de chão, ou 100 quilômetros (km) a mais percorridos”, conta. >
De modo geral, as boas práticas na área logística recomendam que cargas transportadas em distâncias iguais ou inferiores a 500 km sejam movimentadas por rodovias. Entre 500 km e 1 mil, por ferrovias. E acima de 1 mil, por hidrovias. “As culturas que são plantadas no Oeste da Bahia têm potencial para uma verticalização, para abastecer agroindústrias, mas precisam de rodovias em condições para um percurso de 400 km, essas são as vicinais”, explica o produtor. Essas vias levam o produto do campo até um distrito industrial ou mesmo a uma cidade. >
Apesar da importância das vias vicinais, a maior demanda logística se concentra no transporte dos produtos agrícolas para os portos, explica Moisés Schmidt. “A Bahia exporta hoje quase 7 milhões de toneladas de soja, milho e algodão, mas temos potencial para mais do que isso. Tudo o que nós precisamos é fazer as cargas chegarem aos portos”, acredita. “Nós estamos a menos de 1 mil quilômetros do Porto de Salvador”, ressalta. >
Hoje o acesso das cargas do Oeste à Baía de Todos os Santos depende da BR-242, que carece de mais áreas com terceiras faixas, defende o produtor, mesmo reconhecendo que o cenário ideal seria o da duplicação da rodovia. “No melhor dos mundos, teríamos o trecho entre Salvador e Luís Eduardo Magalhães totalmente duplicado, mas reconhecemos que ainda não há viabilidade”, diz. >
O produtor lembra ainda sobre a importância de se pensar numa conexão entre a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) também com a Região Metropolitana de Salvador (RMS). “Temos na Baía de Todos os Santos as melhores condições para a operação portuária do mundo”, diz, lembrando que a área já abriga diversas estruturas portuárias. “A Baía de Todos os Santos está no centro do litoral brasileiro, nós temos potencial de ter o maior porto do país”, defende. >
Na outra ponta dos trilhos, Moisés Schmidt defende que o setor produtivo baiano e as forças políticas se unam para que a ligação da Fiol com o Centro-Oeste do Brasil aconteça em Mara Rosa, no estado de Goiás, e não em Figueirópolis (TO), já que isso poderia fomentar a fuga de cargas dos portos baianos. >
Para Moisés Schmidt, o importante agora é sensibilizar a sociedade de que os investimentos nas melhorias necessárias trarão retorno para todo o país, e não apenas para o campo. “O mais difícil para viabilizar investimentos em infraestrutura de transportes já existe, que é a carga. A movimentação adequada dela vai gerar desenvolvimento, empregos e renda”, acredita. >
Por outro lado, o custo da inércia também já pode ser notado, na medida em que atualmente 25% da produção de soja baiana é escoada por um terminal fora do estado, no Porto de Itaqui (MA). >
Pedidos do campo Em sua passagem por Luís Eduardo Magalhães, na abertura da Bahia Farm Show, na última terça-feira (dia 06), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ouviu representantes de produtores rurais da região Oeste sobre os desafios da região em relação a melhorias na infraestrutura rodoviária e sobre a importância da conexão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste com o município de Mara Rosa (GO). Odacil Ranzi (com microfone) fez balanço parcial da Bahia Farm Show para jornalistas (Divulgação) Segundo o produtor rural Odacil Ranzi, presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Lula se comprometeu com a duplicação da BR-020, que liga os municípios de Luís Eduardo Magalhães e Barreiras, além de um trecho da BR-135, "que nunca saiu do papel". Em relação à Fiol, Ranzi disse nesta sexta-feira, durante o balanço da feira, que o presidente se comprometeu em estudar a ligação com Mara Rosa.>
Odacil Ranzi ponderou que as instituições empresariais não possuem qualquer tipo de alinhamento político com qualquer governo. Ele avaliou a presença de dois presidentes nos últimos dois anos – Jair Bolsonaro em 2022 e Lula em 2023 – como um reflexo da relevância do campo para o país, além de uma oportunidade para apresentar os pleitos do campo. >
"Todos os anos em que realizamos esta feira, o presidente da República foi convidado. Aconteceu de virem duas vezes, nas últimas edições, e nós esperamos que isto se torne uma tradição, independente de quem estiver ocupando o cargo", ressaltou. Segundo ele, Lula demonstrou interesse nos três estandes por onde passou, pedindo informação sobre as máquinas rurais que viu. "Nós aproveitamos para apresentar nossas demandas para ele, que se mostrou bastante interessado por tudo, ouviu bastante e acenou com o desejo de criar uma ponte com agro", contou Ranzi. >
* O jornalista Donaldson Gomes viajou a Luís Eduardo Magalhães a convite da Bahia Farm Show.>