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Wendel de Novais
Publicado em 11 de maio de 2026 às 09:40
Entre praias paradisíacas e áreas turísticas movimentadas, a cidade de Cabedelo, na Paraíba, passou a conviver com uma rotina marcada pelo avanço do crime organizado. Com pouco mais de 60 mil habitantes, o município entrou no radar da Polícia Federal e do Ministério Público após investigações apontarem que integrantes do Comando Vermelho (CV) passaram a controlar parte da cidade à distância, diretamente do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, a mais de 2 mil quilômetros dali. >
Segundo reportagem exibida pelo Fantástico, mais de dez operações já foram realizadas para combater esquemas de corrupção e a atuação da facção na cidade. As investigações indicam que o grupo criminoso conseguiu se infiltrar em setores estratégicos da prefeitura e transformar Cabedelo em uma espécie de base operacional no Nordeste.>
Enquanto turistas circulam pelas praias da cidade, moradores convivem com ruas sem infraestrutura, falta de coleta de lixo e regiões dominadas pelo silêncio imposto pelo medo. Em diversas áreas, pichações com siglas do CV e referências ao traficante Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka, marcam o território controlado pela facção.>
Comando Vermelho faz ameaças em todo o Brasil
Áudios e vídeos obtidos durante as investigações mostram que criminosos acompanham em tempo real a movimentação na cidade por meio de câmeras clandestinas instaladas em postes, árvores e até dentro de canos metálicos. Em uma das gravações, um integrante da facção afirma: “Tem 30 câmeras geral”. Em outro vídeo, um criminoso exibe o sistema de monitoramento e diz: “Oi, família. Minha visão de cria aqui. Só paz e tranquilidade”. Para investigadores, o esquema funciona como uma espécie de “home office do crime organizado”.>
O principal nome apontado pelas investigações é o de Fatoka, de 43 anos. Segundo a polícia, ele começou na facção Nova Okaida, na Paraíba, antes de fundar a Tropa do Amigão, apontada como braço do Comando Vermelho no Nordeste. Contra ele existem 13 mandados de prisão relacionados a tráfico de drogas, homicídios e organização criminosa.>
Fatoka chegou a ser preso em um presídio de segurança máxima da Paraíba, mas fugiu em 2018 durante uma fuga em massa que envolveu o uso de explosivos e 92 detentos. Recapturado posteriormente, conseguiu liberdade com uso de tornozeleira eletrônica em 2022. No mesmo dia em que recebeu o equipamento, rompeu o dispositivo e fugiu para o Rio de Janeiro, de onde continuaria comandando as ações criminosas.>
As investigações mostram que o controle da facção vai além do tráfico. Grupos armados circulam por bairros residenciais efetuando disparos para o alto e intimidando moradores. Em um dos vídeos analisados pela polícia, criminosos avisam moradores sobre a presença constante da facção: “Durante a madrugada, caso vocês escutem zoada nos seus quintal, passando na frente das suas casas, somos nós que estamos andando por dentro da favela, certo? Estamos numa guerra. Estamos presentes toda noite, toda madrugada”.>
A Polícia Militar da Paraíba realiza operações frequentes para localizar e remover os equipamentos usados pelo grupo. Segundo o tenente-coronel Luiz Antônio, os criminosos escondem as câmeras usando fita isolante entre fios dos postes ou dentro de estruturas metálicas para dificultar a identificação.>
Além do domínio territorial, a investigação aponta que o crime organizado também teria alcançado os bastidores da política local. Os últimos quatro prefeitos de Cabedelo são investigados em diferentes operações. Entre as suspeitas estão loteamento de cargos públicos, “rachadinhas” e desvio de recursos públicos por meio da empresa Lemon Terceirização e Serviços Ltda.>
De acordo com as apurações, o prejuízo aos cofres públicos pode chegar a R$ 270 milhões. A empresa teria sido usada para empregar parentes e aliados da facção dentro da prefeitura e da Câmara Municipal, além da manutenção de funcionários fantasmas com salários revertidos para atividades criminosas.>