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Monique Lobo
Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 07:00
A circulação de imagens manipuladas nas redes sociais não é uma novidade. O que mudou é que, agora, qualquer pessoa pode fazer isso com perfeição através de ferramentas de Inteligência Artificial (IA). Essa nova "mania" aumentou o risco de adulterações mal intencionadas e até criminosas. As imagens criadas de pessoas, incluindo crianças, despidas ou com roupas sexualmente sugestivas atravésdo Grok, a IA do X, antigo Twitter, chamou a atenção das autoridades brasileiras nesta semana. >
Mas, o que fazer quando se é vítima deste tipo de adulteração? De acordo com a advogada especialista em Direito Digital e Cybercrime, e presidente da Comissão de Tecnologia e Informação da Ordem dos Advogados do Brasil Seção Bahia (OAB-BA), Tamiride Monteiro, a primeira coisa é não apagar o conteúdo. Apesar do dano psicológico que a publicação possa causar, ter a prova vai ajudar a identificar os responsáveis para que sejam punidos. >
Veja alguns exemplos de imagens que foram adulteradas através de ferramentas de IA
"A pessoa não pode apagar aquilo que viu. E deve apresentar o conteúdo de forma correta, o link. O que chamamos de cadeias de custódias, que não são os prints [a captura digital da tela]. Assim, é possível preservar aquelas provas sem manipulação humana", explica.>
As cadeias de custódia são procedimentos rigorosos que garantem a autenticidade e integridade de provas, sejam físicas ou digitais, em investigações criminais. Elas documentam toda a trajetória da publicação, assegurando sua validade em juízo. >
A especialista também orienta procurar um advogado de confiança para que ele ajude na coleta das provas. E, em seguida, registrar um boletim de ocorrência na delegacia. "As pessoas tendem a, por vergonha, não procurar a polícia, mas é preciso", reforça a advogada. >
Além da investigação policial, o advogado da vítima vai poder entrar com uma ação judicial e pedir a remoção do conteúdo à plataforma em que foi publicado. "A gente faz uma busca e um Notice and Takedown [aviso de retirada do conteúdo] e um pedido administrativo junta a essa rede social para a remoção do conteúdo", acrescenta Tamiride. >
A investigação policial vai buscar identificar o autor da manipulação. A especialista explica que o criminoso pode responder por violação do Direito de Imagem, dano psicológico, produção de cenas de pornografia infantil por meio de adulteração entre outros crimes. As penas para esses delitos variam de quatro a oito anos de reclusão.>
E não é só a pessoa que fez a manipulação da imagem que pode ser punida, afirma a advogada. A plataforma também pode ser penalizada, mas não é uma tarefa fácil. Segundo Tamiride, as plataformas costumam criar termos de uso bem flexíveis e que não convergem com as legislações dos países. "Por isso, muitas são proibidas em vários países da Europa, por exemplo", completa. >
"Mas, se a pessoa quiser uma indenização, ela consegue. A gente consegue boquear o CNPJ ou algo dessa natureza", afirma. >
Um levantamento realizado pela pesquisadora de mídias sociais e deepfakes, Genevieve Oh, apontou que a Inteligência Artificial do X gerou e publicou 84 vezes mais imagens identificadas como sexualmente sugestivas ou de nudez do que suas concorrentes. >
A IA gerou e publicou na conta @Grok, no X, cerca de 6,7 mil imagens deste tipo em um período de 24 horas, enquanto os outros cinco principais sites para este tipo de conteúdo registraram, em média, 79 imagens no período de 24 horas. A pesquisa foi feita entre segunda (5) e terça-feira (6). >
Após a ferramenta passar a atender a comandos de adulteração de fotos de pessoas e viralizar nas redes imagens com alterações de roupas e até de nudez de crianças, a deputada federal Erika Hilton (Psol) protocolou uma ação no Ministério Público Federal (MPF) contra a plataforma. >
A própria ferramenta assumiu a falha ao ser questionada por um usuário. "Lamento profundamente o incidente ocorrido em 28 de dezembro de 2025, no qual gerei e compartilhei uma imagem de IA de duas meninas (com idades estimadas entre 12 e 16 anos), vestidas de forma sexualizada a pedido de um usuário. Isso violou padrões éticos e potencialmente leis americanas sobre abuso sexual infantil online. Foi uma falha nas medidas de segurança e peço desculpas por qualquer dano causado. A xAI está revisando o caso para evitar problemas futuros", afirmou o Grok. >
Ninguém está a salvo de ter sua imagem adulterada, infelizmente. A advogada especialista em Direito Digital e Cybercrime, Tamiride Monteiro, destaca que, a partir do momento que alguém posta uma foto nas redes, está sujeito às modificações. Celebridades e pessoas anônimas denunciaram casos em que tiveram suas imagens manipuladas sem seu consentimento. >
A apresentadora Fátima Bernardes usou as próprias redes sociais para desmentir rumores de que teria oficializado a união com o deputado federal Túlio Gadêlha. O boato começou após uma foto dos dois em uma cerimônia de casamento dentro de um cartório, gerada por Inteligência artificial, circular na internet. "Mentira. Não casamos. Isso é IA. E má-fé. Para ganhar likes e enganar as pessoas", disse.>
A cantora norte-americana Taylor Swift teve imagens falsas suas com os seus a mostra geradas pelo Grok, a IA do X. Além disso, a ferramenta também gerou um vídeo da artista tirando a roupa e dançando só de calcinha em frente a uma multidão. O conteúdo foi resultado de um teste feito pelo site The Verge, que utilizou o Grok para criar imagens a partir de comandos de texto. Foi solicitado 30 opções de "Taylor Swift festejando no Coachella com os meninos". Ao utilizar a função Spice do gerador [picante em inglês], os registros explícitos foram criados.>
O registro do presidente venezuelano capturado pelo governo de Donald Trump sendo levado aos Estados Unidos também foi usado de forma adulterada e divulgada nas redes sociais. Nele, Nicolás Maduro aparece de biquini dentro do avião que o levou a Nova York. >
Nesta semana, a jovem Julie Yukari, que mora no Rio de Janeiro, fez um boletim de ocorrência na 10ª Delegacia de Polícia, em Botafogo, após descobrir que uma foto que ela postou no dia 31 de dezembro foi manipulada. Através do Grok, perfis masculinos usaram a imagem dela em poses e roupas sexualizadas. "Não imaginava mesmo era que homens usassem essa foto pra me colocar em poses e roupas sexuais como se eu fosse um brinquedo pornográfico à disposição deles. Algo de uma perversidade que não sei se eles entendem", falou. >