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Esther Morais
Publicado em 1 de fevereiro de 2026 às 11:59
A família da nutricionista e influenciadora Flávia Bueno, de 35 anos, divulgou nas redes sociais um vídeo em que ela aparece mexendo o braço direito após receber a polilaminina, medicamento experimental desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para o tratamento de lesão medular. >
Flávia sofreu um acidente no dia 3 de janeiro durante um mergulho na praia de Maresias, no litoral norte de São Paulo, que resultou em lesão da medula espinhal nas vértebras C3, C4 e C5. Desde então, ela está internada na unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista, onde recebeu o medicamento.>
A polilaminina ainda não passou por todas as etapas dos estudos clínicos necessários para comprovar eficácia e segurança, o que caracteriza seu uso como experimental. No dia 5 de janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da primeira de três fases de testes clínicos, após pesquisas preliminares apontarem potencial terapêutico.>
A primeira fase dos testes envolverá cinco voluntários, com idades entre 18 e 72 anos, que tenham lesões completas da medula espinhal torácica entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica e ocorridas há menos de 72 horas. Por não se enquadrar nesses critérios, Flávia não integra o público-alvo do estudo.>
Ainda assim, a família obteve na Justiça uma liminar que autorizou o uso compassivo da substância, em razão da gravidade do quadro e da ausência de alternativas terapêuticas. Segundo os pesquisadores, cerca de 15 pacientes no país já tiveram acesso ao tratamento por meio de decisões judiciais semelhantes.>
Os responsáveis pelo estudo ressaltam, no entanto, que o uso fora dos protocolos clínicos não permite confirmar se eventuais melhoras estão diretamente relacionadas ao medicamento, nem gera os dados exigidos pela Anvisa para análise regulatória. “Estávamos usando uma droga experimental sem a proteção do estudo clínico”, afirmou Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ e responsável pelo projeto.>
A polilaminina começou a ser desenvolvida há 27 anos e é produzida a partir da laminina, uma proteína isolada de placentas. A substância atua na regeneração dos axônios, estruturas dos neurônios danificadas em lesões da medula espinhal, que comprometem a comunicação entre o cérebro e os músculos.>
Nos testes preliminares, realizados entre 2018 e 2021, a substância foi aplicada em cães e em um grupo de oito voluntários humanos na fase aguda da lesão, durante cirurgia. Os resultados variaram entre recuperação completa dos movimentos e melhora parcial.>
Na pesquisa clínica aprovada, será utilizada uma formulação injetável de laminina que, após um processo de polimerização, resulta na polilaminina. A aplicação será feita uma única vez, diretamente na área lesionada da medula espinhal. O objetivo da primeira fase é avaliar a segurança do medicamento, incluindo riscos e efeitos colaterais.>
A depender dos resultados, o estudo poderá avançar para as fases seguintes, voltadas à comprovação da eficácia. Somente após a conclusão dessas etapas o medicamento poderá ser submetido à aprovação para uso regular pela Anvisa.>
Com informações do O Globo*>