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Por que o horário das refeições influencia no funcionamento do organismo?

Especialista alerta que a desorganização alimentar pode favorecer inflamação, ganho de peso e doenças crônicas

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 18 de março de 2026 às 10:11

Mulher buscando comida na geladeira durante a noite
Por que o horário das refeições influencia no funcionamento do organismo? Crédito: Shutterstock

O horário em que comemos tem impacto direto sobre como o organismo digere, absorve nutrientes e processa energia. Muito além de uma questão de rotina, a alimentação segue uma lógica fisiológica: o intestino, assim como o cérebro e o fígado, funciona orientado pelo relógio circadiano, que organiza processos fisiológicos ao longo do dia.

Uma revisão publicada na revista Endocrinology, da Endocrine Society, descreve que o trato gastrointestinal possui um sistema circadiano próprio, responsável por modular secreção hormonal, motilidade intestinal, digestão e absorção de nutrientes, e que a desregulação desse ritmo está associada a alterações no controle glicêmico, no peso corporal e em marcadores inflamatórios.

Na prática, isso significa que o corpo não responde da mesma forma a uma refeição feita pela manhã e a outra consumida tarde da noite. Enzimas digestivas, sensibilidade à insulina, motilidade intestinal e atividade metabólica variam conforme o período, influenciando desde a saciedade até o armazenamento de gordura e a resposta inflamatória.

Com a rotina contemporânea marcada por horários irregulares, refeições rápidas e ingestão alimentar concentrada no período noturno, cresce o interesse sobre os efeitos do desalinhamento entre alimentação e ritmo biológico, um fator cada vez mais associado a ganho de peso, resistência à insulina e alterações hepáticas.

“A previsibilidade dos horários alimentares contribui para a adequada sincronização entre intestino, fígado e metabolismo sistêmico. A desorganização desse padrão pode favorecer alterações metabólicas e inflamatórias ao longo do tempo”, explica a gastroenterologista hepatologista Cláudia Oliveira, da Clínica Atma Soma

Sincronia com o relógio interno

O fígado, peça central no metabolismo, também segue o ritmo circadiano. Evidências apontam que refeições concentradas no período noturno podem favorecer maior produção de glicose, menor gasto energético e acúmulo de gordura hepática. Uma revisão publicada na revista Nutrients relaciona padrões alimentares irregulares ao aumento do risco de síndrome metabólica e inflamação sistêmica.

Já estudos em Cell Metabolism mostram que a concentração da ingestão alimentar em uma janela diurna está associada a melhor controle de peso, pressão arterial e indicadores clínicos relacionados à saúde cardiometabólica. “A alimentação funciona como um sinal biológico. Quando comemos em horários previsíveis, ajudamos o organismo a organizar hormônios ligados à fome, à saciedade e ao armazenamento de energia”, afirma Cláudia.

A microbiota intestinal também responde a esse ritmo. Pesquisas publicadas na Nature Communications demonstram que alterações nos horários das refeições interferem na diversidade bacteriana e nos ciclos de atividade desses microrganismos, com impacto na digestão, na imunidade e na inflamação.

Os efeitos de comer fora de hora

A rotina contemporânea, marcada por jornadas extensas e refeições tardias, tem contribuído para o desalinhamento circadiano. Dados publicados no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism mostram que indivíduos que se alimentam mais tarde tendem a apresentar maior produção de glicose, menor gasto energético e maior propensão ao acúmulo de gordura corporal.

Além do impacto sobre o peso e o controle da glicemia, a irregularidade alimentar está associada a sintomas gastrointestinais frequentes, como distensão abdominal, refluxo e irregularidade intestinal. “Não é apenas o que se come que importa, mas quando se come. A previsibilidade dos horários alimentares ajuda a reduzir a inflamação, melhora a digestão e protege o fígado. Pequenas mudanças na rotina podem gerar efeitos relevantes ao longo do tempo”, conclui a hepatologista.