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Publicado em 22 de fevereiro de 2026 às 05:00
Sem biografismos, Carybé faria por agora, se estivesse vivo, 115 anos. Há vinte oito anos, ele mudou o curso de sua presença, em 1º de outubro de 1997, no Ilê Axé Opó Afonjá. Infelizmente, ele não nasceu na Bahia. Durante toda vida afirmou sua baianidade por sua alegria lúcida, seu interesse pela vida que se fazia no cotidiano das ruas e por sua obra. Nasceu em Lanús, cidade da região metropolitana de Buenos Aires, em 7 de fevereiro de 1911, na Argentina. A confusão com a data de seu nascimento, se deve ao fato de só ter sido registrado no dia 9 do mesmo mês e ano. O primeiro idioma em que Hector Júlio Paride Bernabó se expressou foi o italiano. Apesar disso, o artista não tinha sotaque ao falar português. O nome de batismo é, por si, uma homenagem à descendência italiana de seu pai, Enea Bernabó, de Fivizzano, região da Toscana. Já sua mãe é uma das fortes provas da nacionalidade de alma do artista. Ser reconhecido brasileiro por ser filho de uma gaúcha seria um grau de pertencimento que lhe cairia muitíssimo bem. Constantina Gonçalves Bernabó já marca o lugar de fronteira em que todos estamos, visto que, é, ao mesmo tempo, da cidade de Santa Maria, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, e de Posada, as margens do Rio Paraná, da província argentina de Missiones. E o Rio Paraná deu a Carybé, por sua mãe, esse interesse pelos beiços da América do Sul banhados por essas águas. >
Enea e Constantina formaram uma família com adjetivo pátrio expansivo, como os dados para aqueles de descendência cigana. >
A segunda prova de que Carybé é uma pessoa das águas de rio que pretende ao oceano é observação que permite ver por onde a família transitou, movida pelo trabalhado contábil de Enea Bernabó, guiada pelo Rio Paraná, na região da bacia do Prata, a segunda maior da parte sul do continente americano, que une Brasil, Argentina e Paraguai e Uruguai. O casal se conheceu e se casou em Posada; seu primeiro filho, Arnaldo Bernabó, contudo, nasceu no Mato Grosso do Sul, Brasil; a segunda filha, Zoraíde (Zora) Bernabó, nasceu em Encarnación, Paraguai; a terceira, Corina Elsa Adela (Délia) Bernabó, nasceu na mesma Encarnación, do Paraguai; o quarto filho, Roberto Bernabó, nasceu em Posada, Missiones, Argentina; e o quinto, Hector, Júlio Paride Bernabó, nasceu em Lanús, como já foi dito acima. Ele podia ter nascido em uma qualquer das tantas cidades dos países que margeiam o Rio Paraná. Os diferentes locais de nascimentos dos filhos demonstram que o casal triangulava por cidades, indo e voltando, acompanhando as possibilidades de trabalho. A nacionalidade primeira, de uma família como essa é a América do Sul, o que inclui o Brasil. >
Por volta de agosto de 1911, toda a família foi para Itália, primeiro para a terra onde Enea nasceu; depois, Gênova; e, depois, para Roma. Em 28 de julho de 1914 explode a Primeira Guerra Mundial, que vai até 11 de novembro de 1918. O pequenino Carybé misturou sua primeira infância com a sobrevivência na guerra. >
A família resolve sair da Itália em 1919, em função da situação Pós-Guerra naquele país. Ao mirar o retorno para a América do Sul, eles vêm para o Brasil, onde permanecem por 10 anos (1919 a 1929). É no Rio de Janeiro, que Hector vê a possibilidade de ser Carybé e, como um peixe, cruzar águas de rio e de mar. Quem persiste sem ser brasileiro, depois de viver no Rio? Segundo Furrer, o menino é matriculado na terceira escola mista do vigésimo terceiro distrito, no 3º ano primário, além de perambular como escoteiro, esticava as pernas em busca da bola em time de futebol juvenil. >
A vida era mesmo aquilo: escola, cinema, clube e pelada (nome dado a baba, no Rio); e assim segue até a universidade. Já com uma experiência de arte-prática, em 1928, vai para a Faculdade de Belas Artes, na UFRJ. Depois de muito pouco tempo como estudante, ele se decepciona com ter que copiar europeu ao infinito; e, com a família, volta a viajar. Nesse percurso, vai para Argentina e entre 1929 e 1949 permanece nesse país. Depois da saída da universidade, sua formação será autodidata. É nesse período que corre por vários países da América do Sul. Por essas andanças, lê Jubiabá. Vem a Bahia pela primeira vez em 1938 e descobre sua cidade natal, aos 27 anos. Vai embora, volta, se manda novamente, se casa em portos portenhos e finalmente se fixa na Bahia em 1950, onde planta sua vida e seu trabalho. Em 1957, vira Obá Otun Onã Xocun, Ministro de Xangô, do Ilê Axé Opó Afonjá, pelas mãos de Mãe Senhora. >
Foi Emanuel Araújo que consagrou a frase em que Carybé afirmava que: “Entrei para o candomblé porque gosto. Ela é a melhor religião. Não tem inferno e os deuses, em última instância, são os rios, o mar, a floresta, o vento, a chuva. Oxumaré é o arco-íris.” (Apud ARAUJO, 2006, p.298).>
No ano de 1963, o artista recebe o título de cidadão de Salvador, pela Câmara de Vereadores da Cidade da Bahia. Carybé pode ser muitas coisas, mas não tem como negar, que ele é um completo baiano. >
Foi aqui que Carybé instituiu sua expressividade artística, com um signo poderoso, que estabelece sínteses de ocorrências de quem trabalha, briga, ama e samba pelas ruas; seu fazer artístico sempre foi eclético (diverso e aprofundado); monumental; interdisciplinar, interativo e integrado; e com um repertório de técnicas vasto e diverso. Esse signo é alicerçado em seu desenho singular e etnográfico. >
Por isso, talvez, ele seja estrangeiro para quem se volta, no reconhecimento do Brasil, para o Atlântico e esquece a enorme barriga continental, de muito chão guardado por rios, florestas, matas, bichos e fronteiras que se movem, que misturam as terras, os ventos, as dificuldades, as desigualdades e as gentes da América do Cone Sul. Se olhar de outro modo, ele não teve a felicidade de ter nascido aqui, mas é um baiano de vida, de escolha, de trabalho, de morte e de fé! >